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A palavra na Hor@gá: Dedo na ferida

O Presidente do MPLA foi, na semana passada, ao comité central do seu partido exercitar uma espécie de “Estado da Nação”, destapando o véu que aloirava, de forma enganosa, alguns aspectos da nossa política doméstica. Fê-lo de forma directa e incisiva.

Fê-lo, como não o fazia há muito, sem tabus. Fê-lo pondo o dedo na ferida sem quaisquer hesitações. Fê-lo sem deixar margem para dúvidas sobre o que está mal e sobre o que tem de ser rapidamente corrigido, desempoeirado, desinfectado, sacudido com potassa e esfregão e enviado para o caixote do lixo.

Fê-lo cara a cara. Francamente, gostei. Dir-me-ão que não disse nada que os cidadãos já não tivessem constatado mas, tendo sido proferidas por quem as proferiu e como as proferiu, as suas palavras autorizam-me a pensar que poder-se-á estar a começar a abrir espaço para que a partir de agora, por linhas tortas, se comece, finalmente, a escrever direito.

Desde logo porque o Presidente, desta vez, fez considerações que há muito os cidadãos estavam à espera que as fizesse. O Presidente fez bem, por isso, em ter posto à descoberto o teor altamente corrosivo que, ao nível das províncias, subjaze nas relações entre os respectivos governos e os líderes dos comités do MPLA e que, em muitos casos, as tornam ingovernáveis.

À imagem do que se passa ao nível do poder central, aqui também se reproduz, a papel químico, a “guerra das capelinhas”. Os ingredientes podem ser outros mas os fins acabam por ser os mesmos…

Há dois anos, o “comité dos desportistas” julgou-se no direito de ouvir o treinador de uma selecção. Pouco depois, o primeiro secretário provincial do MPLA de Luanda arrogou-se a convocar o governador…

Estes episódios são, no minimo, patéticos mas Luanda e os luandenses não podem continuar a ser sacrificados com governadores com jeito para a berraria política mas com alergia epidérmica para a boa governação.

Luanda e os luandenses não podem continuar a ser sacrificados com governadores que sejam portadores de falta de urbanidade e de higiene política e social, destilando, na alarvidade das suas kizombadas, uma nojenta vocação para o clientilismo com recurso a linguagem de feira…

O caso de Luanda, pelo seu gigantismo esquizofrénico, é especial e a recente “luta de galos” a céu aberto, ao ter proporcionado “audiência de peixaria”, já não deixa dúvidas a ninguém de que se tornou inviável, há muito tempo, a coabitação entre o governador e o presidente da comissão administrativa, ambos a naufragar num mar “ de contradições, atritos e incompatibilidades com os outros quadros”.

Posta a questão nestes termos, dá para imaginar o sufoco a que serão sujeitos os presidentes das câmaras a quem a lei reserva “orçamento, poderes e obrigações”, fora do alcance dos governadores. Sendo certo, porém, que no presente caso de Luanda, o presidente da sua comissão administrativa, também tem muito que se lhe diga. Ou seja, deixa muito a desejar… Após a reprimenda presidencial, tornou-se desde logo evidente a fragilidade de quem, assumindo a governação não como uma missão mas como uma arena de promoção pessoal, se esqueceu de que a “guerra das capelinhas” deflagarada através do jogo de intrigas, é um terreno muito movediço que acaba por destapar a incompetente sobranceria e a falta de noção de Estado de quem as desencadeia.

Já vimos isso em Cabinda e no Uíge e assistimos ao mesmo na Huíla e no Kuando-Kubango.Em breve, Luanda, que vezes sem conta já viu rodar esta película, estará diante do início de uma nova série com o governador a lidar em paralelo, com fogo que já foi “amigo”.

Os luandenses já viram tantos “foliões” desfilarem na antiga câmara municipal, que estão cansados de fanfarronices protagonizadas por quem, no fundo, acaba por se comportar como um sub-produto das telenovelas. Os luandenses, por isso, dispensam-nos porque não querem que a (in)gestão da sua cidade continue a assemelhar-se a uma anedota…

Resultado: recusando-se a aprender com o passado e a ter noção das suas enormes limitações governativas, os “cabos de propaganda” do MPLA, sem rumo, estão, vergonhosamente, condenados, por culpa própria, a serem atirados para a sarjeta.

Teimosos, mesmo depois de desqualificados em público e ainda que “sob tortura”, não largam o tacho. Esquecem- se de que lhes falta honra e competências para serem governadores.

Porque não tendo mentalidade de gestores, nem aptidões tecnocráticas, desafiam as leis da física mas ignoram que a realidade os contraria… Desempregados e incapazes de se resignarem perante a sua própria incompetência, imodéstia e arrogância, que tende a assumir contornos geracionais perigosos; incapazes de se fazerem à vida pelos próprios pés, como não têm profissão, não se importam de bater a porta alheia como bárbaros famintos à espera dalgumas migalhas. Se bem atendidos, sorridentes, sentem-se recompensados…

Se ignorados, embrulham-se num raivoso ritual e, desesperados, envolvem- se em misteriosas fumaças.

Mal sucedidos, destilam ódio incubado e acabam por ser os primeiros a apunhalar quem os promoveu: o Presidente. À primeira vista, aparentemente nada de novo. No fundo, porém não resistem e fazem estalar o verniz num cocktail devastador, que compreende cinismo, falsa lealdade, traição e a nojeira do costume…

É evidente que, em muitos círculos, há um sentimento de reserva em relação às palavras do Presidente. É natural que persista esta nuvem de cepticismo, depois dos luandenses terem sido fustigados, durante vários anos, com tantos disparates feitos por governadores, que em muitos casos, nunca deveriam ter ocupado o cadeirão principal da antiga câmara municipal. Porque revelaram ter desprezo por Luanda, pelos luandenses e sobretudo pelos seus problemas cruciais…

Do Presidente espera-se agora que não fique pela receita da aspirina, que sendo um remédio poderoso contra a dor, não mata a causa desta e adia a cura. Se a prescrição for seguida à letra, a cura, mesmo que dolorosa, é garantida. Caso contrário, estaremos perante a morte iminente do paciente. Ou seja, tudo ficará como está…

O Presidente se quiser ver restituídas, entre os cidadãos, esperança, confiança e crédito, terá que estabelecer uma ruptura com o passado, determinando o fim da ingerência do poder central na governação de Luanda e dos comités do MPLA na governação das províncias.

Para lá de ser chamado agora a recorrer ao concurso de quadros com massa crítica, que sejam capazes de governar Luanda sem sucumbir ao panfletarismo partidário, do Presidente os cidadãos esperam ainda que use a sua autoridade para reintroduzir a cultura da responsabilização. Porquê? Porque na nossa governação, ninguém assume os erros.

Porquê? Porque falta autoridade e faltam sanções! Mais do que um político, Luanda precisa de um gestor com plenos poderes e autonomia, que seja avaliado não pelo seu militantismo mas pelo cumprimento ou não de políticas bem definidas.

Porque Luanda tem um passado, que merece melhor presente.

GUSTAVO COSTA (Director Novo Jornal)

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