Terça-feira, Fevereiro 7, 2023
10.5 C
Lisboa

Coca Cola Bom Jesus: Prejuízos e importações derrubam fábrica

O Grupo Castel, que actualmente é o gestor operacional das marcas Cuca, Eka, Nocal, Coca-Cola, Fanta e Sprite (entre outras marcas de bebidas), encerrou no dia 30 de Novembro a sua unidade produtiva do Bom Jesus, em Luanda. A decisão causou alguma estranheza por ocorrer numa fase de crescimento da economia nacional.

Segundo explicou Philippe Frederic, admnistrador delegado do Grupo Castel no nosso país, os motivos do encerramento estão relacionados apenas com razões económicas. “O prejuízo da nossa actividade ronda os 350 milhões de dólares. Por isso tivemos de tomar estas medidas.

Acredito que a construção da fábrica do Bom Jesus não foi uma decisão acertada. O mercado ainda não justifica ter duas fábricas em operação (Bom Jesus e Funda). É uma duplicação de custos que não faz sentido”, assegura o gestor, em declarações exclusivas ao Novo Jornal.

Por outro lado, diversas fontes contactadas sobre este assunto levantam sempre o problema da pauta aduaneira e da forte concorrência que a produção interna enfrenta, devido às marcas importadas. Frederic não foge à questão: “Tem de haver uma tomada de consciência, de todos os agentes económicos, em relação a este problema. Hoje em dia, o sector das bebidas é o terceiro mais importante do país – a seguir ao petróleo e aos diamantes. Empregamos milhares de pessoas e temos um índice de expatriados muito baixo. Não deve ultrapassar os 1,3 a 1,5 por cento do total dos trabalhadores”.

E continua. “Se formos fazer as contas, a produção interna de água, sumos, cervejas e gasosas já é suficiente para satisfazer a procura. Ninguém está aqui a defender uma proibição das importações. O que estamos a dizer é muito simples: quer estar em Angola, então deve ser obrigado a investir no país. Assim está também a contribuir para uma maior concorrência e para um ambiente de negócios mais saudável. Ou então a carga fiscal será maior e isso deve se reflectir depois no preço final. É uma forma de penalizar as importações”, explica Philippe Frederic.

Fonte do Ministério da Indústria explica que, oficialmente, não têm conhecimento do encerramento da fábrica do Bom Jesus.

“Não temos de ter essa informação.  Os responsáveis avisaram-nos de forma verbal – e é o correcto porque falamos de uma empresa privada. Segundo nos disseram foi uma decisão de cariz económico e estratégico”.  Mas logo a seguir volta a fazer referência à concorrência das importações.

“Também é verdade que neste sector há um problema com as importações. Sabemos desta preocupação”, frisa a fonte do Ministério da Indústria.

Avanços e recuos

“A entrada de elevadas quantidades de bebidas importadas no país está com os dias contados”, afirmou dia 22 de Novembro, em Luanda, a ministra da Indústria, Bernarda da Silva, que antevê o ano de 2017 como prazo limite para resolver esta situação.

Recorde-se que tudo estava preparado para a actualização da pauta aduaneira, em Janeiro de 2012, mas sem se saber oficialmente os motivos, a medida não chegou a ser implementada.

As contundentes declarações à imprensa da ministra da Indústria foram efectuadas no Dia da Indústria Nacional, que se assinala no dia 23 de Novembro. A titular da pasta disse que a medida, que inclui bebidas alcoólicas, refrigerantes, águas e sumos, “visa proteger a indústria do país”, noticiou a Angop na altura.

“O Executivo tem estado a trabalhar na protecção da indústria nacional, tendo em vista a redução das importações”, frisou a governante.

“O objectivo do Executivo é reactivar o tecido produtivo de bens transaccionáveis do país e forçar as empresas estrangeiras, que importam para Angola, a produzirem localmente esses produtos”, destacou Bernarda da Silva.

Segundo as fontes contactadas pelo Novo Jornal, pode também estar a ocorrer um fenómeno de “dumping” (prática de preços abaixo do custo de produção, o que é ilegal) nas bebidas importadas. Fonte do sector explica que, “devido às baixas vendas nos mercados tradicionais, que estão em crise (Europa, EUA), as marcas internacionais podem ter assumido uma estratégia de fazer volume de vendas, reduzindo margens de lucro”, explicou.

Outras pessoas ligadas ao negócio fazem referência à mesma situação. A Refriango (que produz em Angola as marcas de sumos e gasosas Blue, Tutti, Nutry, entre outras) tem sido uma das prejudicadas.

Em relação ao Grupo Castel, e à produção que era feita no Bom Jesus (refrigerantes e gasosas), Philippe Frederic explica que a ideia é concentrar toda a actividade “numa única fábrica”. “O espaço do Bom Jesus será guardado e uma equipa de 20 pessoas vai manter-se no local para cuidar das instalações. Talvez no futuro possamos reactivá-la. A fábrica da Funda será o nosso ponta-de-lança para o futuro e contamos produzir cerca de 4 milhões de hectolitros, por ano, naquela infra-estrutura”, conclui o administrador delegado do Grupo Castel.

150 a 200 trabalhadores receberam indemnizações e foram despedidos.

Pelo que o Novo Jornal conseguiu apurar, aqueles que tinham menos de cinco anos de serviço receberam um salário por cada ano de trabalho. Os que tinham mais de cinco anos de casa receberam ainda um bónus de 50 por cento.

Em declarações exclusivas ao Novo Jornal, Philippe Frederic, administrador-delegado do Grupo Castel em Angola, reconheceu que foi “obrigado pelas circunstâncias” a dispensar trabalhadores. “Conversámos com a Comissão Sindical e com delegados do Ministério da Administração Pública, Emprego e Segurança Social (MAPESS) e foi possível chegar a um acordo para rescindir os contratos”, explicou o gestor.

Fonte dos trabalhadores contactada pelo Novo Jornal, que preferiu não se identificar, frisa que os rumores acerca do encerramento da fábrica começaram em “Março ou Abril deste ano”. “Também ouvíamos pessoas a comentar que alguns seriam transferidos para as fábricas da Funda (o que veio a acontecer), da Cuca ou de outras estruturas da empresa.

Recebemos uma carta de despedimento a anunciar a extinção dos postos de trabalho. E no dia 26 de Novembro começaram a chamar as pessoas. Actualmente há alguns trabalhadores que desconfiam desta justificação, alegando que a fábrica faliu. Em caso de falência, Segundo nos disseram, as indemnizações poderiam ser maiores”, refere o extrabalhador da fábrica da Coca-Cola, situada no Bom Jesus.

A mesma fonte diz que, desde o afastamento da SAB Miller da gestão operacional do negócio (apesar de se ter mantido como accionista), o cenário começou a mudar. “O ambiente de trabalho piorou bastante.

Desde aquela altura, com a justificação de que os resultados financeiros não eram bons, começaram a dispensar centenas de trabalhadores. E foram pedindo as pessoas para não comentarem a situação fora da empresa”, refere.

A fonte lembra também que, nos últimos meses, a produção do Bom Jesus apresentava uma curva negativa.

Foi encerrada uma linha de produção há alguns meses, em Novembro a administração encerrou a linha 6, enquanto a linha 5 foi “transferida para o Lubango”.

“Sabemos que uma das linhas de enchimento vai agora ser instalada na Funda”, diz o antigo trabalhador da Coca-Cola. Philippe Frederic confirma a informação.

“Sim, uma das linhas de enchimento, a mais moderna, será colocada na fábrica da Funda. É uma forma de rentabilizar o investimento”, conclui o administrador.

Miguel Gomes

(Novo Jornal)

 

POSTAR COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

- Publicidade -spot_img

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Rei Felipe VI já em Luanda

À sua chegada, Felipe VI e esposa foram recebidos pelo ministro das Relações Exteriores, Téte António, e o embaixador...

Artigos Relacionados

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
  • https://spaudio.servers.pt/8004/stream
  • Radio Calema
  • Radio Calema