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Galáxia Samsung à conquista de Angola

É difícil falar sobre a Samsung sem falar em números. É que os números impressionam. A Samsung Electronics, a bandeira do colosso sul-coreano que agrupa 83 empresas, é a líder mundial em tecnologias de informação (TI) desde 2009, à frente das americanas Apple e HP.

A gigante, nascida em 1969, com fábricas e escritórios em 61 países e que emprega 221 mil pessoas, é também a maior produtora mundial de telemóveis desde 2011, de televisores e de ecrãs planos (LCD e LED) desde 2006 e de chips de memória desde 1993. É a segunda nos semicondutores (após a Intel), nas baterias de lítio (há um empate técnico com a Sanyo) e nas máquinas fotográficas digitais (depois da Sony).

Desde o primeiro trimestre do ano passado que destronou a Nokia como líder global nos telemóveis, vendendo 93,5 milhões de unidades versus as 82,7 milhões da marca finlandesa (quota de 21% versus 20%). Hoje, é a n.º 1 incontestada nos smartphones (modelos topo de gama) onde tem 24% de quota de mercado (à frente do iPhone com 14,6%) e é a 2.ª nos tablets (após o iPad que lidera com 14%, tendo a coreana 5,1%). A ascensão da Samsung deve-se ao êxito “galáctico” da linha Galaxy (S3 e Note2 são os mais recentes) que usa o sistema operativo Android, da Google.

Se as relações do gigante sul-coreano com a rival Apple já eram tensas, ficaram ainda pior depois da aliança com a Google. Num caso que tem feito as delícias da imprensa mundial as duas empresas cooperam e competem, em simultâneo. Cerca de 20% dos componentes usados pelo iPhone e iPad são fabricados em exclusivo pela Samsung. A lista inclui peças fundamentais como os chips de memória flash (que suportam o sistema operativo, músicas e aplicações) e os de memória RAM (a base do processador de aplicações que é o “cérebro” do aparelho). Segundo a revista The Economist tais componentes (178 no total) representam 26% dos custos do iPhone. Em sentido contrário, a Apple é o maior comprador da coreana e representa 8,8% das receitas.

Tal relação de dependência não impediu a Apple e a Samsung de entrarem num conflito

judicial que correu o mundo (os líderes, Tim Cook e Choi Gee Sung, encontraram-se em Maio para resolver o diferendo, mas não tiveram sucesso). A Apple acusa a Samsung de copiar o design (por exemplo, no botão central, os cantos redondos ou os ícones das aplicações) e violar patentes (como “voltar atrás”,  “clicar para aumentar” e “menu de navegação”). A novela chegou ao fim do seu primeiro capítulo nos Estados Unidos, em Agosto, quando os tribunais condenaram a coreana a pagar mais de 1000 milhões de dólares de indemnização.  Mas noutros locais do mundo (estão em curso 50 processos judiciais em dez países) o veredicto tem sido o inverso. A Samsung registou vitórias na Coreia do Sul (obviamente), Japão e Reino Unido. Percebe-se a estratégia das litigantes. Enquanto os processos correm nos tribunais, os lançamentos de novos modelos são adiados ou suspensos nesses países. Mas os analistas estão preocupados com este duelo fratricida que ameaça o futuro da inovação da indústria.

África segue indiferente a estas batalhas. Numa estratégia apelidada pelos analistas como “muito inteligente” a Samsung tem mantido um pé nos países ricos enquanto o outro dá passadas vigorosas nos emergentes. A prová-lo está o facto de África já ser o segundo maior mercado para a marca depois da China. Só que a Samsung Electronics não quer ficar por aqui. No evento de lançamento para o continente do Galaxy Note II e da máquina fotográfica digital Galaxy, realizado a Cidade do Cabo, no fim de Outubro, George Ferreira, vice-presidente para África, anunciou a disposição de duplicar o investimento em marketing de modo a atingir a fasquia dos 10 mil milhões de facturação até 2015.  Trata-se de um objectivo ambicioso, que representa ter vendas cinco vezes superiores. Recorde-se que a facturação actual ronda os 2 mil milhões de dólares, o que faz com que África responda por 5% do total mundial (a ideia é que a quota suba até aos 8% ou 9% até 2015). Para George Ferreira a meta é alcançável, dado que só no segmento dos telemóveis a marca passou de 90 milhões de unidades vendidas em 2005 para 450 milhões. “Temos oferta para todos os níveis de preço. A nossa visão é que todos os africanos tenham acesso à internet via dispositivos móveis inteligentes.”

 

Nas palavras do executivo, o foco da Samsung para os próximos três anos assenta em três grandes prioridades: a iniciativa Built for Africa, que visa lançar produtos desenhados especificamente para o continente africano; as parcerias com empresas (B2B) e governos (B2G) suportadas por projectos de responsabilidade social (tais como as escolas solares com acesso à internet, academias de engenharia e conteúdos multimédia de educação) e o aumento da rede de distribuição (criando lojas próprias, show-rooms móveis de produtos e centros de assistência técnica).

 

Angola é considerada um mercado estratégico para o crescimento em África (hoje já é o terceiro maior da África Subsariana depois da África do Sul e da Nigéria). A Samsung está presente no país há mais de dez anos, mas só em 2010 é que abriu um pequeno escritório de representação que, no próximo ano, deverá tornar-se uma filial da marca. Cabe à actual equipa, de apenas três pessoas, gerir a relação com os cinco distribuidores (ImporElectrónica é o mais antigo), garantir a disponibilidade do produto, fixar objectivos anuais de vendas e delinear as campanhas de marketing.

DOS TELEMÓVEIS AOS ELECTRODOMÉSTICOS

Segundo o country manager Samir Gulati, nascido em Delhi, na Índia, e com uma experiência de mais de dez anos em vários países africanos, a Samsung Electronics está organizada por cinco grandes segmentos. O primeiro, é os telemóveis, onde lidera claramente nos smarthphones, sendo a segunda nos modelos mais básicos (após a Nokia). O segundo, são os ecrãs digitais — televisor (onde defronta rivais que estão há mais tempo no mercado como a LG, Sony a Sharp), áudio e vídeo. O terceiro, são os electrodomésticos como os frigoríficos, fogões, micro-ondas, aspiradores, máquinas de lavar e ar condicionado. O quarto, são os aparelhos digitais (fotografia, vídeo, computadores e impressoras). O quinto, e onde o grupo deposita grandes esperanças para o futuro, são as já referidas soluções B2B e B2G. “A extensão da oferta, toda compatível e ligada entre si, é uma vantagem da Samsung face à concorrência”, justifica. Outra é a rapidez no lançamentos dos produtos. “No passado, os novos modelos demoravam cerca de seis meses a chegar a África. Hoje, o lançamento ocorre em simultâneo (o Galaxy 3 foi em Junho e o Note 2 há cerca de um mês). Os coreanos estão muito impressionados com o perfil do consumidor angolano. É mais sofisticado e mais aberto às novidades tecnológicas”, refere Samir Gulati.

 

Os donos da Samsung Electronics têm razões para estar satisfeitos. No ano passado, as

vendas cresceram cerca de 80% (um número que tem de ser relativizado, dado que o escritório tem apenas dois anos). Para 2013, o objectivo é chegar aos 200 milhões de dólares, o que significa uma subida de 200%. Para isso, segundo esclarece Samir Gulati, “será preciso recrutar mais 40 a 50 colaboradores no próximo ano”. Outro objectivo será criar um centro de assistência técnica no país, algo que deverá ocorrer no final de 2013.

Acrescenta que há que continuar a investir na notoriedade da marca. É com esse propósito que irá decorrer até 2 de Dezembro (já depois do fecho desta EXAME) a Semana Samsung, uma iniciativa que, segundo garantem os angolanos Paulo Francisco, responsável pela área de vendas e Nzola Miranda, director de desenvolvimento de negócio, “irá pintar o país de azul”. A primeira acção é a montagem de um centro de reparações de telemóveis Nokia, no Cine-Tropical. “O serviço de assistência é gratuito para quem comprou o  aparelho em Angola. Deste modo, damos um contributo para desincentivar a importação paralela.” A segunda, é um fim-de-semana de entretenimento na ilha de Luanda que terá um espaço de demonstração de produtos (com jogos e vouchers de desconto) e um concerto exclusivo de Anselmo Ralph (que apresentará o seu novo DVD e animará um concurso de dança com seis prémios diários para os vencedores).

Recorde-se que a Samsung, em parceria com a Unitel, acabou de lançar o Anselmo Galaxy Music, um smartphone que funciona em Android e tem dois altifalantes estéreo, recursos avançados de áudio e a aplicação Wake Up Logo Anselmo, com música, vídeo e toques embutidos, ao preço de 20 mil kwanzas (existem modelos mais acessíveis a partir dos 9 mil kwanzas). “A música é uma língua universal que aproxima todas as pessoas independentemente da raça, cor, fé ou religião. A tecnologia é uma forma de tornar tudo o que fazemos mais fácil. O novo aparelho combina esses dois elementos e dirige-se a todos os amantes de música”, diz. O investimento previsto no lançamento, segundo Nzola Miranda, é de 1 milhão de dólares. A parceria com a Unitel (que distribuirá o smartphone em exclusivo) estende-se ao lançamento de um notebook personalizado, dirigido aos estudantes, com conteúdos educativos já configurados (ao custo de 450 dólares).

A Semana Samsung terá ainda uma acção de responsabilidade social que consiste na doação de uma escola móvel, equipada com energia solar e acesso à internet, à província do Kwanza-Sul, numa parceria com o Ministério da Educação e a Unitel. Trata-se de um contentor de 40 pés, de grande autonomia energética, ideal para zonas rurais com dificuldades no acesso à electricidade. Outras funcionalidades em destaque são o quadro interactivo digital para os professores e o sistema de segurança anti-roubo. “Já existem cerca de 400 unidades deste tipo na África do Sul, cujos preços rondam os 100 mil dólares”, diz Nzola Miranda, um gestor de 33 anos, com um MBA em Oxford, que já passou por multinacionais como a Coca-Cola, British Tobacco e GE.

patrocinadora do can  de futebol na áfrica do sul

 

As escolas solares com acesso à internet são um bom exemplo da preocupação da Samsung em criar produtos com base nas necessidades específicas do consumidor africano (o referido programa Built to Africa). “Não é mera propaganda. Os engenheiros da empresa visitam regularmente vários países do continente para que os produtos da Samsung se adaptem melhor às condições distintas do meio ambiente”, garante Nzola Miranda. O seu colega Paulo Francisco, de 32 anos, formado na África do Sul e que também trabalhou na Coca-Cola, dá alguns exemplos. “Os electrodomésticos — como os frigoríficos, televisores e aparelhos de ar condicionado — têm protecção contra picos de corrente e sistemas anticorrosão e os notebooks têm a energia solar como opção.”

 

Recorde-se que o embaixador desta campanha Built to Africa era popular jogador marfinense Didier Drogba, na altura jogador do Chelsea (clube que ostenta a publicidade da marca). A ligação foi interrompida esta época quando o futebolista migrou para a China (a título de curiosidade a estrela coreana Park Ji-Sum, alinha pelo rival Manchester United). Ainda no futebol os responsáveis recordam que a Samsung patrocina o CAN da África do Sul, facto que servirá de pretexto para convidar os melhores clientes e revendedores da marca para assistir aos jogos ao vivo.

A EXAME aproveitou a oportunidade para perguntar aos representantes da marca no país — dois angolanos e um indiano — se sentiram algum choque cultural em trabalhar para “patrões” coreanos. Os elogios à capacidade de trabalho foram unânimes, expresso na máxima “pale pale” (que significa “rápido, rápido”), tantas vezes usada pelos coreanos (eles são, aliás, o país do mundo com as conexões de internet mais velozes). Caso para dizer que a Samsung é um império em ascensão que veio de outra galáxia.

Por: Jaime Fidalgo

(exameangola.com)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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