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Observatório do Balão: Em defesa dos condutores dos “azulinhos”

É sentimento comum dos habitantes da capital, que os condutores dos táxis “azulinhos” levam todos os dias o pânico às ruas e por isso se pode querer entrever no meu intento de embarcar na sua defesa, uma espécie de deboche provocatório de que os cronistas são por vezes acusados. Mas em verdade declaro que não é esse o meu desígnio.

A nossa saúde pública e o instante de alta sinistralidade reclama de toda a sociedade uma participação atenta e nesse sentido vai a minha modesta contribuição para se fazer justiça a esses denodados trabalhadores do volante que diariamente arriscam a vida em reviengas temerárias.

Não é tarefa fácil, é mesmo carga e da pesada e mau grado os desagrados a que esses condutores sujeitam os pacíficos cidadãos luandenses enfrentemos o sálo: mas sem esquecer que os condutores dos “azulinhos” são um epifenómeno do empreendedorismo calú resultante do afundamento dos transportes públicos.

Ocorreu no início da década de 90 quando os primeiros “kombis” apareceram como as zungueiras, mas sob um disfarce meio nebuloso que se passou a chamar de Processo. A TCUL – Empresa Pública de Transportes ia encostando os seus carros novos devido ao mau estado das estradas e à falta de manutenção entre outros motivos.

A população citadina organizava-se informalmente com a sua pequena poupança para se servir a si mesma. Acresce que o país entrava numa guerra civil e as populações afluíam. Esses serão em termos breves o passado recente da emergência dos “azulinhos” que hoje dominam as ruas da capital.

O Processo é hoje uma fonte geradora de receitas e empregos e passou a estabelecer as suas regras nas quais já nem todos se revêm. Não é irrelevante conhecer a sua real inserção na economia. Ajudaria a compreender muita coisa e uma delas como moderar a fúria quase homicida com que os condutores dos “azulinhos” levam o pânico por onde passam. É consensual que a maior parte das suas cartas de condução lhes chegam através de “canais” privilegiados.

Talvez seja por isso que “os “azulinhos” dão baia”, “arrasam…” A sua condução ofensiva, assusta. As pessoas temem-lhes e o medo que infundem não lhes é indiferente. Pelo contrário: sentem-se protegidos por esquemas eficazes.

Naquela hora de ponta, eu mesmo vi como esse esquema funciona. O “azulinho” bateu por trás, o condutor estava cansado, distraiu-se, tinha culpa, estava bebido, desencartado ou “malencartado”(?) e… fugiu. Não hesitou em abandonar o veículo em plena rua com os passageiros vociferando. Alguém, o cobrador, assumiria os custos e as negociações.

Peritos em entalar os outros automobilistas, a lhes dar baia, eles sabem como a sua liberdade também é preciosa para as empresas para quem trabalham. Não é fácil substituir-lhes e eles têm maneiras expeditas de resolver essas makas. Por sua vez, as próprias empresas estão cientes disso. Têm os seus custos para contornar as dificuldades causadas pelos acidentes e o desgaste acelerado das viaturas que por estarem isentas de um controlo pelo Estado, podem ser usadas até ao limite.

O instante exige o empenho de todos, mas quanto a mim não bastam as marchas e os rituais por muito respeitáveis que sejam de abençoar as estradas. O cónego Apolónio, sacerdote de boas causas que me releve a descrença, mas para tratar esses jovens endemoniados, eu preferiria recorrer ao Ministério da Guerra, perdão, ao Ministério da Defesa.

Trata-se de dar combate à segunda causa de mortes no país e também porque só medidas enérgicas e institucionais podem reabilitar muitos desses condutores dos “azulinhos” para que regressem à vida em sociedade. E o seu internamento nas Escolas de Condução Auto do Exército em regime vigiado seria uma dessas soluções. É claro que isso não passa de uma ficção.”

(jornaldeangola.com)

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