Os letrados africanos dominam pouco as nossas línguas

Depois da entrada triunfal no universo da ficção narrativa angolana, com o romance “Nambuangongo”, João Miranda retoma o percurso da sua escrita com “Hebo”, uma proposta literária cuja textualidade romanesca se desdobra em várias focalizações temáticas, acentuadas na história política mais recente de Angola, no carácter endógeno da tradição cultural, num claro confronto com os ideais herdados da modernidade.

Jornal de Angola – Considera que a prática do jornalismo e as suas funções, enquanto membro do Governo, foram dois momentos da sua carreira que determinaram o exercício da escrita literária?

Considero que a prática do jornalismo e as funções no Governo são dois momentos que não se completam. No que ao jornalismo diz respeito, penso que ele tem, tendencialmente, influenciado, mas de modo algum foi determinante, tão pouco as funções no Governo ditaram em mim a paixão pela prática da escrita.

JA – Há uma polémica, considerada estéril por alguns estudiosos, à volta do uso das línguas europeias nas literaturas africanas. Faz parte do grupo de escritores que considera que os aspectos mais íntimos da angolanidade cultural, em literatura, não podem ser expressos pelo discurso referencial da língua portuguesa?

A polémica não é, do meu ponto de vista, de todo estéril, pois, um e outro posicionamento tem sustentabilidade. O domínio de uma língua pressupõe um enraizamento profundo na cultura de um povo, leva à fácil compreensão de fenómenos e de práticas sociais a ele inerentes. Estamos sempre mais à vontade quando nos exprimimos na nossa língua de berço, pelo seu absoluto manuseamento descodificamos com alguma facilidade notável os provérbios, que germinam e florescem no substrato espiritual e material de um povo. Daí a razão, talvez, de quantos propugnam a tese segundo a qual os aspectos mais íntimos da angolanidade, no nosso caso, não podem ser expressos pelo discurso da língua portuguesa. A maior parte dos letrados africanos não domina perfeitamente bem as nossas línguas, ainda que, para o caso daqueles que tiveram a sua infância em zonas rurais, tenham com elas tido contacto muito influenciador, em virtude dessas línguas não serem instrumentos indispensáveis ao exercício prático das suas profissões, além do facto de não estarem gramaticalmente arrumadas, como é o caso das línguas de Angola. Buscar uma ou outra palavra em língua nacional ou regional para ilustrar uma narrativa de emanação de um determinado contexto geográfico e cultural de África, é, quanto à mim, apenas um exercício de embelezamento do discurso escrito, não significando ter um domínio dessa língua. É o que acontece, por exemplo, com muita gente que adora emprestar palavras de língua inglesa ou francesa a um discurso feito numa outra língua, mesmo não sabendo sustentar uma conversa qualquer numa ou noutra dessas línguas. É preciso reconhecer que se trata de um exercício não muito cómodo, esse de traduzir para uma língua europeia um poema escrito ou oral, ou qualquer outra expressão de linguagem codificada, ou não, de semântica africana, pois muitos de nós nem por isso nos sentimos tão à vontade quando escrevemos, em qualquer das línguas que aprendemos, em casa, na rua e na escola.

JA – A prática do jornalismo angolano, na actualidade, pode constituir motivo para o surgimento de bons escritores?

Penso que a prática do jornalismo pode, em certa medida, influenciar o surgimento da paixão pela escrita literária, mas não creio que possa constituir, forçosamente, motivo de nascimento de bons escritores. A prova está aí, ou seja, os nossos melhores escritores nunca foram jornalistas.

JA – A pressão, característica da redacção dos jornais, influenciou o ritmo narrativo e os contornos estéticos da sua escrita literária?

Acho que sim. Estudei jornalismo e os melhores conselhos que se recebe dos teóricos da profissão são a simplicidade e a clareza das palavras, para a narrativa ou mensagem ser de fácil entendimento pelo heterogéneo universo dos seus destinatários. Quem faz jornalismo escreve histórias todos os dias. É a arte de saber contar o que viu ou que alguém mandou dizer ao público.

JA – Qual foi a sua reacção, em relação à crítica, quando publicou “Nambuangongo”?

Foi surpreendente e sumamente gratificante. Foi um autêntico despertar para a importância que eu própria não tinha, à partida, dado à minha modesta obra. Alguém disse um dia, que as pessoas fazem a História, mas raramente se dão conta do que estão a fazer.

JA – É legítimo estabelecer nexos temáticos e estruturais entre o seu livro “Hebo”, a ser lançado brevemente, e a experiência com a escrita em “Nambuangongo”?

Na sua substancia, existem, sim, nexos temáticos entre os dois livros. Sou praticamente um produto da guerra, de resto, como toda a gente da minha geração ainda sobreviva, que conheceu os horrores das nossas guerras desde tenra idade. Por ter vivido nas matas posso adivinhar as peripécias de alguém que esteve ou está em situação idêntica à que conheci. A vivência prolongada numa situação de guerra torna-se um pesadelo e não há como evitar lembrar as chagas ainda não completamente saradas e as cicatrizes delas resultantes, quando pensamos em escrever sobre aspectos sociais relevantes atinentes aos angolanos nos últimos 50 anos.
No entanto, “Hebo” é, talvez, mais literário. Tem mais cruzamentos da mesma história que ouso contar, uma espécie de novela, com uma acentuada carga reveladora de algumas práticas culturais das nossas gentes, que podem suscitar alguma curiosidade ou algum interesse, sobretudo por parte da juventude.

JA – Quando decide escrever, parte de um esboço pré-concebido, ou as ideias dos seus romances surgem na sequência do ritmo natural da fluência da escrita?

Ainda não sou escritor consagrado. Quando decido escrever levo muito tempo a reunir as ideias para configurar o tema da narrativa e os contornos de que deve revestir-se. A minha grande dificuldade costuma ser, uma vez escolhido o tema, como começar a obra e qual deve ser o seu fim. Isto porque ainda não aprendi a fazer qualquer esboço orientador sobre o que perspectivo. Costumo, porém, notar que depois de transpor a barreira das cinco primeiras páginas as ideias fluem normalmente, e é, em geral, no momento de fazer ginástica ou a barba que elas desfilam na mente, prontas para jorrar no meu computador. Mas, uma coisa é ter as ideias ainda ocultas como consolidadas, outra coisa é arrumá-las do ponto de vista literário, para serem inteligíveis. É esta a minha maior dificuldade ainda, acrescida ao facto de não dispor de tempo suficiente para a prática literária. Geralmente sacrífico os meus sonos para escrever, é muito penoso.

JA – A transposição do seu livro, “Pethelo-a-Kuma, o menino inteligente”, para o teatro, pelo encenador João Luiz, foi fiel aos pressupostos filosóficos da tradição cultural angolana e universal, retratados no seu livro?

Na sua essência a transposição teatral do livro esteve fiel. Quer o encenador quer os actores da peça são profissionais, não se afastaram dos pressupostos filosóficos da tradição cultural em que me inspirei em “Pethelo-a-Kuma, o menino Inteligente”. A questão da morte é transversal a todos os entes vivos do nosso planeta. A tentativa de busca de explicação pelos homens também o é. A pessoa é uma só em qualquer canto planetário, carrega os mesmos sentimentos, medos, prazeres, dissabores ou desilusões.
Fiquei muito honrado quando Carmo Neto, secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, me transmitiu o pedido de autorização feito pelas companhias de teatro do Porto, Jangada Teatro e Teatro Pé de Vento, para encenarem a minha pequena obra com o patrocino do Ministério da Cultura do Governo português. Fui convidado para assistir à estreia da peça, e muito me agradou. Foi um momento ímpar no meu ainda incipiente percurso literário.

JA – Reportagem de uma época, alerta para a necessidade de conhecimento dos pressupostos da tradição cultural, pela geração mais jovem, catarse, ou seja, lembrança e libertação emocional, no sentido freudiano do termo, intervenção política, o que é afinal a génese da sua obra literária?

Penso que é a simbiose de tudo isso: uma reportagem ficcionada sobre uma época dolorosa, que apela à reflexão da juventude, fazendo uma espécie de juramento, que é o de “jamais a guerra na nossa terra”, e a abjurar-se da opacidade cultural. Uma intervenção política de alerta para a necessidade de todas as pessoas se guiarem pela consciência de sermos um país uno e indivisível, de bem-fazer para o bem comum, em obediência aos sagrados princípios de justiça social e solidariedade. Tudo aquilo que eventualmente se aproxima do pensamento de Freud é mera coincidência.

JA – Alfredo Troni, Assis Júnior, Castro Soromenho, Óscar Ribas, Pepetela, e Manuel Rui. É legítimo estabelecer nexos de vizinhança, entre a sua escrita e o legado destes seis nomes, incontornáveis, da ficção narrativa angolana?

Inspiração sim, nexos de vizinhança é que não. De modo algum posso pretender estabelecer uma qualquer vizinhança com esses mestres, homens eruditos que não só revolucionaram como deram marca singular à literatura angolana no contexto africano e além-fronteiras.

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