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Trocou a guerra pela construção

Filipe Gomes Bitila diz que ressuscitou numa noite de Agosto sem dia nem hora. Foi guerrilheiro da FLEC mais de 20 anos, organização à qual aderiu ainda jovem. Hoje já passou os 50 anos mas prefere esquecer o passado. Os sonhos da juventude esfumaram-se há muito, quando descobriu que era apenas carne para canhão. As ilusões acabaram quando fizeram dele figurante de uma organização que apenas servia para os seus líderes acumularem dinheiro.
“Na base onde estava, o sofrimento é tanto que ninguém acredita que vai sair dali vivo. Falta comida, faltam medicamentos, não temos qualquer apoio. Quem quer sair é ameaçado ou então fazem chantagem sobre o povo. Muita gente acredita. Como os responsáveis dizem às pessoas que em Cabinda matam os militantes e apoiantes da FLEC, ninguém tem coragem de sair daquele sofrimento”, relata o antigo guerrilheiro.
Bitila saiu, não para cortar com uma realidade que o fazia sofrer todos os minutos de todas as horas, mas porque chegou uma ordem de operação: “o nosso comandante um dia apareceu com alguma comida. Era pouco, mas todos festejamos. Depois ele disse que o Alexandre Tati tinha dado ordens para nos movimentarmos para uma base perto de Dolisie. Mas a operação era perigosa porque tínhamos que passar pela província de Cabinda. Foi-nos dito que na nova base íamos ter boas condições e todo o apoio da direcção da FLEC. Depois de tantos anos íamos regressar aos combates”.
O antigo guerrilheiro fica alguns momentos pensativo e passa no seu rosto uma nuvem de tristeza. Mas depois recompõe-se e prossegue o seu relato: “avançámos no dia combinado, com todos os cuidados. Era importante chegar à nova base na República Popular do Congo para a partir daí partirmos para o combate. A coluna progredia à noite. Estava muita humidade e havia nuvens de miruis. De repente, o nosso comandante mandou parar, porque sentiu que havia algo de estranho. Ficámos alerta. Recebemos ordens para dividir a coluna em duas partes. A marcha prosseguiu, mas poucos minutos depois fomos atacados pelas FAA”.
Bitila diz que o tiroteio foi tão intenso que nunca acreditou escapar com vida: “se a emboscada fosse de dia, tinha morrido muita gente. Mas como toda a gente disparava às cegas, escapámos com vida. O combate durou apenas uns minutos, mas para mim foi uma eternidade. Houve um momento em que me senti morrer. Morri mesmo. Penso que toda a gente teve essa sensação. Aquele tiroteio só podia matar toda a gente. Quando ouvimos uma ordem para nos rendermos, percebi que estava vivo e senti uma alegria tão grande que me apeteceu gritar. Pus a arma no chão, levantei os braços e fiquei à espera que me viessem prender. Nunca imaginei ficar tão contente por ser feito prisioneiro. A outra parte da coluna escapou à emboscada mas os combatentes fugiram sem as armas. Um colega disse-me baixinho: vamos todos morrer!”

A alegria do  prisioneiro

Bitila conta-nos as suas reflexões naquela noite de Agosto, em pleno combate: “não respondi ao meu colega mas pensei que ele estava errado. Se os soldados das FAA nos quisessem matar, não exigiam a rendição. Continuavam a disparar. Íamos ser prisioneiros. E fiquei feliz com essa ideia. Pelo menos na prisão dão comida. Na base da FLEC passava dias seguidos sem comer nada. Morreram combatentes por falta de assistência e medicamentos. Na prisão a nossa vida ia melhorar”.
O antigo guerrilheiro de vez em quando emociona-se e não consegue falar. Tem na mão o diploma em que é considerado apto para a profissão de pedreiro. Guarda aquele rectângulo de cartolina como se fosse uma relíquia. Ele representa o fim de uma viagem do inferno para o céu.
“Chegámos a um quartel das FAA e fomos recebidos pelo comandante. Deu-nos as boas vindas e disse que em breve íamos ter notícias sobre o nosso futuro. Até lá devíamos cumprir todas as instruções que nos fossem dadas pelos oficiais. Estávamos na condição de prisioneiros. Senti uma alegria muito grande. Afinal não íamos ser mortos. No princípio fiquei envergonhado por me sentir feliz na condição de prisioneiro. Mas em conversa com os meus camaradas percebi que todos tinham o mesmo sentimento de alegria. Os militares das FAA tratavam-nos como camaradas e não como prisioneiros inimigos. Os oficiais diziam-nos que a guerra acabou, agora somos todos irmãos, filhos da pátria angolana”.

Contactos com a família

Alguns dias depois de serem capturados em combate, os antigos combatentes da FLEC foram autorizados a ter contactos com as famílias. Bitila nunca se sentiu tão feliz: “se as FAA nos deixavam contactar com os nossos familiares é porque não iam matar ninguém. Se iam fazer-nos mal, não nos davam todos os dias a comida que eles próprios comiam. Não nos davam as condições que nos deram. No dia em que os nossos familiares ficaram a saber que estávamos vivos, ninguém nos ia matar. Os dirigentes da FLEC afinal andaram a enganar-nos todo o tempo, depois do Memorando de Entendimento do Namibe. Para eles, os que defendem o diálogo são traidores. Mas eu hoje defendo o diálogo e a paz, mas não sou traidor. Dei mais de 20 anos da minha vida há FLEC, nada recebi, passei fome, sofri, fiz o último combate e perdi”.

Curso em Benguela

Bitila volta a emocionar-se ao recordar o passado. Mas ele quer dizer tudo o que lhe vai na alma: “ninguém deu mais do que eu. Parti para a base na República Democrática do Congo, com a minha arma nas mãos. Entrei em combate. Fui feito prisioneiro. Em nenhum país do mundo tratavam um prisioneiro como eu fui tratado. Basta ver o que acontece em Guantanamo. Os guerrilheiros apanhados em combate ficam presos a vida inteira ou são mortos. A nós deram-nos uma segunda vida”.
“Um oficial das FAA, num dia de manhã mandou-nos formar e informou que íamos todos para Benguela fazer cursos de formação profissional. Na escola tínhamos quarto e comida. Alguns colegas ficaram com medo, mas eu confiei. Se nos quisessem fazer mal, já tinham feito, pela calada da noite, no dia em que caímos na emboscada. Alguns familiares também temeram o pior. Mas não havia razões para ter medo”, conta Bitila. Em Benguela foram alojados no internato da escola: “nunca tinha vivido em tão boas condições”. Mas melhor do que isso, foi o curso: “alguns colegas aprenderam mecânica auto, outros, carpintaria e o meu grupo aprendeu alvenaria. Alguns iam todos os dias para o Lobito na máxima liberdade. Dois dias depois de chegarmos a Benguela, ninguém se considerava prisioneiro. Eu cheguei a sentir que nada do que estava a acontecer era real. Não podia ser verdade. Mas era”.
Um antigo guerrilheiro, alguns dias depois do início do curso, descobriu que um seu irmão era pastor numa igreja próxima da escola: “ele disse-nos que está em Benguela há alguns anos, vai a Cabinda visitar a família quando lhe apetece. Nesse momento eu pensei: os nossos dirigentes andaram este tempo todo a enganar-nos.
Afinal Angola é muito grande e nós somos todos angolanos. Quando me encontrar outra vez com eles, vou pedir-lhes para não enganarem mais ninguém. Não têm o direito de fazer tanto mal ao povo. Já nos bastam as dificuldades da vida”.
No final do curso, os 29 antigos guerrilheiros da FLC ficaram aprovados com distinção: “quem sente que nasceu outra vez, agarra a segunda vida com unhas e dentes. Nós estudámos naqueles quatro meses com a vontade de todos os anos que perdemos. Para nós, aquela escola era a tábua de salvação de quem estava quase a morrer afogado no rio Chiloango.

Casa e empresa

Bitila regressou de Benguela, recebeu o seu diploma no salão nobre do Governo Provincial de Cabinda e 500.000 kwanzas para refazer a sua vida. Vive em casa do filho mais velho, que há 25 anos deixou em Cabinda para integrar a FLC: “em poucos meses ganhei uma vida, uma família, uma profissão e um emprego. Antes estava no inferno e agora vivo no céu. Mas para que a minha felicidade fique completa, gostava que todas as pessoas que ficaram na base da República Popular do Congo tenham a mesma sorte que eu. E o meu maior desejo é que os dirigentes da FLEC aceitem dialogar. Nem que seja connosco. Nós aprendemos uma profissão em quatro meses. Se eles aceitarem falar com o grupo dos 29, eles em quatro minutos aprendem a amar a paz e a respeitar o povo angolano”.
O antigo guerrilheiro foi levado de autocarro até à nova centralidade de Cabinda, onde estão a nascer milhares de casas. O supervisor das obras recebeu Bitila com um abraço. Depois o encarregado deu-lhe o equipamento e começou de imediato a trabalhar. Os outros operários ajudavam-no.
Davam-lhe conselhos e ânimo: “de repente pensei que já conhecia os meus colegas há muitos anos e trabalhava na construção daquela casa, há 25 anos, quando cheio de sonhos parti para a FLEC. Afinal a liberdade estava aqui, no nosso país. Espero que todos compreendam e aceitem os valores da paz. E que sintam a felicidade do seu primeiro dia de trabalho”.

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