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Sindicato quer contrato colectivo de trabalho

No sector bancário, a situação dos trabalhadores, apesar de aparentemente boa, tem os seus problemas. Aspectos relacionados com os aumentos salariais e melhores condições de trabalho preocupam os sindicalistas, que vêem na solução destas questões uma vantagem também para os próprios bancos. “Trabalhadores felizes”, tal como defende o Ministro dos Transportes, Augusto da Silva Tomás, ajudam a tornar as empresas mais produtivas. Os sindicalistas da banca concordam com esta perspectiva.
Com o objectivo de desenvolverem competências negociais, sindicalistas do sector bancário das 18 províncias do país participaram num seminário, realizado em Luanda, por iniciativa do Sindicato Nacional dos Empregados Bancários (SNEBA) e da sua congénere do Estado brasileiro de São Paulo. A perspectiva é lançar as bases de uma nova forma de acção sindical, realista e rigorosa, à luz do sindicalismo moderno.
Uma outra grande preocupação do sindicato é a sua influência junto dos trabalhadores. Dos 23 bancos existentes em Angola, apenas sete têm trabalhadores sindicalizados, um quadro que preocupa a direcção sindical, uma vez que a sua força negocial assenta na sua própria representatividade.
O presidente do SNEBA, José Patrício da Costa, disse ao Jornal de Angola desconhecer as reais condições de trabalho e salariais dos bancários. “Até agora, o sindicato não sabe ao certo qual é o verdadeiro salário dos funcionários bancários. Isso continua a ser sigiloso. O mais provável é os salários estarem abaixo do que seria normal”, sublinhou o sindicalista.
Se pouco conhece sobre a realidade salarial, também pouco sabe sobre a relação empregador e empregados. “Está instalada uma cultura de medo que impede que os trabalhadores prestem informações. Eles preferem o silêncio”, lamentou José Patrício da Costa.
Para resolver um cenário que considera difícil, José Patrício da Costa acredita que a solução passa pela assinatura e aprovação de um Contrato Colectivo de Trabalho do sector bancário que regule o salário dos bancários em todo país.
“O acordo único vincula todos os bancos”, sublinhou. “Vamos à luta até conseguirmos. O acordo colectivo de trabalho, que deve ser assinado em breve, vai favorecer as nossas intenções”, acrescentou.

Mudança de mentalidade

José Patrício da Costa disse ser necessário olhar para os desafios negociais que se avizinham, tendo em conta as mutações mundiais que vão afectando o sector financeiro. “Isso exige do sindicalista mais preparação para, em conjunto com os parceiros sociais, poder encontrar soluções capazes de mitigar os efeitos nocivos para o sector”, salientou.   Ao referir-se à necessidade de mudança de mentalidade por parte dos patrões, afirmou que eles têm de criar uma nova forma de olhar para os sindicatos.
“Temos vindo a observar a execução de algumas medidas unilaterais, quando o envolvimento do sindicato não deve ser visto como intromissão ou ingerência, mas antes como parceiro”, explicou.
“O sindicato deve ser consultado e o seu envolvimento nos assuntos atinentes à vida dos trabalhadores não é uma ingerência na gestão e condução de políticas das instituições”, acrescenta.
A acção sindical é um direito de cidadania, realça o dirigente, e não pode ser vista com espírito maniqueísta, pois a sua acção não pretende ser um obstáculo ao papel da administração das instituições. “Esta actividade tem de ser vista como acção de auxílio na gestão do bem comum e não com reservas”, adiantou o sindicalista. Especializado em Economia do Trabalho e Sindicalismo, Marcelo Alves, formador brasileiro, afirmou que uma das vitórias do sindicalismo brasileiro foi ter conseguido assinar um Contrato Colectivo de Trabalho do sector bancário para todo o Brasil.
Ainda assim, disse Marcelo Alves, a reivindicação de salários aceitáveis, saúde e boas condições de trabalho, continuam relegados para segundo plano.
Marcelo Alves, para quem a actividade sindical é fundamental para a resolução de conflitos, afirmou que a banca não tem necessidade de ver o sindicato como um adversário ou inimigo a abater, mas como parceiro. Além disso, acrescentou o formador, os núcleos sindicais devem ser aceites para prevenir e mitigar conflitos entre trabalhadores e empregadores.

A voz dos sindicalistas

Participaram no seminário sindicalistas que pretendem ver os problemas dos bancários resolvidos. Mas, mais do que isso, pretendem munir-se de ferramentas que permitam melhorar os seus métodos de intervenção na empresa, sempre que tal se revele necessário.
Simão Cardoso, delegado sindical do Banco Nacional de Angola (BNA), disse que a intenção dos sindicalistas na instituição é criar um fundo para assistir os trabalhadores durante a reforma.
“A pensão que temos actualmente não é suficiente. Vamos tentar debater com a instituição a criação de um fundo que dê assistência aos trabalhadores na reforma, porque julgamos que após 35 anos de trabalho se devia ter alguma riqueza. Mas dado o nível salarial, isso tem sido, até agora, impossível”, salientou Simão Cardoso.
Acrescentou que aquilo que o Instituto Nacional de Segurança Social atribui aos reformados não é suficiente, uma vez que o salário auferido pelo trabalhador do BNA não faz face ao custo de vida que o país está a viver. “É preciso olhar para isto com realismo”, sublinhou Simão Cardoso.
Perante isto, a preocupação dos trabalhadores do BNA está voltada para a questão da saúde e dos salários. Em relação à primeira, consideram que o banco deve renegociar o acordo que tem com a ENSA, cuja actual reposta é pouco adequada.
João Brás, delegado sindical do Banco de Poupança e Crédito (BPC) em Cabinda, defende a necessidade de se estabelecer uma boa cooperação entre a banca e o sindicato.
“Ninguém trabalha para seu prejuízo. Trabalha-se para ter melhores salários e melhores condições e é por isso que existimos, enquanto sindicato, para fazer lembrar aos patrões que esses aspectos não devem ser esquecidos”, realçou.
Com algum optimismo, João Brás acredita que as coisas podem mudar no sector bancário. “Vamos continuar a insistir para que tudo seja melhor. Estamos todos a correr atrás do bem-estar e as nossas instituições devem olhar para isso com muita atenção”, sublinhou.  Ana Neto, outra sindicalista do BNA, afirma que a realidade sindical do sector bancário está a nascer, mas acredita que as posições do sindicato vão acabar por se fazer valer. “A questão salarial e a saúde continuam a constituir a preocupação dos sindicalistas. Anteriormente fazíamos consultas com termos de responsabilidade, mas agora estamos com a ENSA e ela não cobre todos os serviços”, salientou, acrescentando: “Ainda não estivemos frente a frente com os nossos patrões. Depois deste seminário, saímos mais esclarecidos e prontos para a luta”, referiu.

Ver melhorar as coisas

Sindicalista do Banco de Comércio e Indústria (BCI), Manuel RuiMonteiro referiu que uma das maiores dificuldades tem a ver com o facto dos patrões não aceitarem de bom grado a existência do sindicato, quando aumentam as reivindicações dos bancários.
“A nossa insistência na conversação com os empregadores tem sido no sentido de vermos as coisas melhoradas”, frisou.
“Os salários no sector bancário, sejamos sinceros, ainda é baixo. O empregador não tem em conta que um trabalhador devia ser suficientemente bem remunerado para evitar desvios de dinheiro ou roubos”, alertou Manuel Rui Monteiro.
Da parte dos bancos, a resistência em aceitar as posições do sindicato teimam em permanecer, mas Manuel Rui Monteiro está determinado em mudar as coisas.

Fonte: JA

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