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Os perigos de escutar música alta

Os auscultadores tornaram-se, a partir dos anos 90 do século passado, companheiros inseparáveis de muitos adolescentes e jovens. Independentemente do tipo de música escutada, o volume é quase sempre o mesmo: elevado. “Quanto mais alto, melhor”, afirmam quase por unanimidade os jovens, desconhecendo as graves consequências que essa moda acarreta em termos auditivos. Até ao dia em que, atrás de um zumbido, se instala a surdez definitiva.
Gilson Pedro, de 19 anos, vive o drama de ter perdido a audição há quatro anos, devido ao uso excessivo de auscultadores intra-auriculares. Em conversa com a reportagem do Jornal de Angola, Gilson explicou que inicialmente sentiu um zumbido no ouvido esquerdo, minutos depois de ter usado os auscultadores. Primeiro pensou que se tratava de uma coisa passageira e continuou a usar os auscultadores. Uma semana depois, passou a ter sérias dificuldades em ouvir as pessoas, mesmo quando estavam próximo dele.
“Preocupado, procurei um médico no hospital Josina Machel, onde fiz alguns exames e lavagem aos ouvidos, mas, infelizmente, de nada adiantou. Estava a ficar surdo”, refere Gilson de lágrimas nos olhos. No início, foi difícil assumir essa nova realidade, mas o tempo acabou por o obrigar a aceitar a sua nova condição de surdo.
Adão Bernardo também perdeu a audição, há sete anos, devido ao uso de auscultadores com a música muito alto, que lhe provocaram zumbidos 24 horas por dia. “Eu adorava ouvir música muito alto com os auscultadores, porque me sentia bem, mas hoje estou muito arrependido da minha atitude”, lamentou. O otorrinolaringologista Felipe Matuba explica que quanto maior a intensidade da onda em decibéis e o tempo de exposição, principalmente com os auscultadores intra-auriculares, que levam a onda directamente à membrana timpânica, maior é a vibração.
“Esse trauma crónico acaba por provocar uma lesão permanente e, como consequência, a condução do som fica prejudicada. Daí que a deficiência auditiva de condução ou transmissão se torne irreversível”, esclareceu. Segundo o médico, os adolescentes são inconsequentes por natureza e não conseguem entender a seriedade dos problemas auditivos que a música alta provoca no ouvido.
Filipe Matuba acrescenta que os pais devem controlar e alertar os filhos para os riscos da exposição excessiva ao som muito alto.
“A melhor maneira de os convencer a mudar esse hábito é a­presentar-lhes as provas de que a surdez pode realmente instalar-se se eles não deixarem de ouvir música tão alto. Não adianta proibir, o ideal é conversar, para os fazer entender os perigos que correm”, referiu o médico.

Exposição perigosa

É difícil encontrar alguém que não goste de música e, cada vez mais, ela faz parte do nosso dia-a-dia. “Antes, as pessoas não tinham muitas opções, limitavam-se a ouvir música com volume moderado numa aparelhagem de casa ou em rádios a pilhas, que se perderam no tempo. Esses aparelhos grandes e lentos deram lugar aos moderníssimos e pequenos dispositivos de som, que podem ser levados para qualquer lado”, relembra o especialista Filipe Matuba.
Para quem gosta de ouvir música, este foi realmente um grande avanço das novas tecnologias, uma vez que se pode conviver com esses pequenos aparelhos 24 horas por dia. Infelizmente para os utilizadores desses meios, alerta o especialista, é nessa disponibilidade quase ilimitada que reside o perigo, pois ao excederem-se os níveis de decibéis permitidos, corre-se o risco de prejudicar a audição e, para desgraça de muitos, a perda auditiva não tem regresso.
Quanto mais alto o volume e o tempo de exposição ao som, mais hipóteses há de se contrair uma lesão. “Existem pessoas mais sensíveis ao som do que outras”, disse, acrescentando que num trânsito intenso, o volume é de cerca 85 decibéis de som.  “A perda auditiva afecta dez por cento da população mundial. Naturalmente, nem todos os problemas induzidos se devem aos aparelhos portáteis, mas esse número mostra o quanto é prejudicial a lesão induzida por ruído”, frisou.

Orientação dos pais

De acordo com o médico, os casos que dão entrada no Hospital Josina Machel revelam a existência de alguma negligência por parte dos pais em orientar os filhos sobre os cuidados a ter com a audição.
“Com lesões auditivas não se brinca. As lesões, quando ocorrem, são definitivas. Uma das características mais importantes das induzidas por ruído é ocorrerem em frequências muito agudas, que normalmente não usamos no nosso dia-a-dia, e essas lesões são cumulativas”, adianta.
Filipe Matuba sublinha que as pessoas que usam esse tipo de aparelhos devem ter muito cuidado, pois apesar da surdez não se manifestar agora, pode vir a provocar danos irreversíveis no futuro.
“As lesões acontecem no nervo auditivo e não há tratamento específico que conduza à cura e reversão das mesmas. Uma vez instalada, não há qualquer forma de reversão”, pois nesses casos nem a cirurgia resolve.  A psicóloga Margarida Marques disse ao Jornal de Angola que a Organização Mundial da Saúde estabelece que o limite de som tolerável ao ouvido humano é de 65 decibéis. Acima disso, aumenta o risco de comprometer as faculdades auditivas.
A psicóloga aponta o tempo de exposição, o nível de intensidade do barulho a que se expõe a pessoa e a sensibilidade auditiva, que varia de pessoa para pessoa, como factores determinantes para medir a amplitude da poluição sonora.
“A capacidade auditiva de um indivíduo pode limitar-se a 60 por cento. Todavia, por ele ser ainda capaz de ouvir a própria voz e certos barulhos rotineiros, não se preocupa com a surdez”, sublinha.
A perda total da audição pode acontecer se a pessoa ficar sujeita diariamente, durante oito horas seguidas, a sons com intensidade superior a 85 decibéis, no mínimo por dois anos, como os registados em discotecas, fábricas de armamento e aeroportos. Segundo Margarida Marques, o ruído de 140 decibéis pode destruir totalmente o tímpano, provocando o que se denomina “estouro do tímpano”. Quando o nível atinge 100 decibéis, pode causar o “trauma auditivo” e a consequente surdez.
O nível de 120 decibéis, além de lesar o nervo auditivo, provoca, no mínimo, dores ou zumbido constante nos ouvidos, tonturas e aumento do nervosismo.
“O nosso organismo não fica alheio a tanto barulho e as reacções físicas não se fazem esperar: os ruídos aumentam a pressão sanguínea, o ritmo cardíaco e as contracções musculares”, explica, referindo que estes efeitos são capazes de interromper a digestão, as contracções no estômago, o fluxo da saliva e dos sucos gástricos.
A especialista diz ser necessário criar na população uma consciência ecológica para travar os efeitos nocivos provocados pela poluição sonora. Margarida Marques considera que é possível alterar o quadro actual, desde que se apliquem as tecnologias de controlo de ruído existentes, que envolvem o desenvolvimento de produtos específicos, recursos para identificação e análise das fontes de ruído, previsão da redução de ruídos através de programas de simulação e o desenvolvimento de máquinas menos ruidosas.

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