InicioMundo LusófonoMoçambiqueCasamentos prematuros roubam infância de crianças em Manica

Casamentos prematuros roubam infância de crianças em Manica

Esbelta e frágil, cabelos desarrumados, Sedia Vengasso, 14 anos, abre-se num sorriso envergonhado quando anuncia a inocência de carregar ao colo um filho de 16 meses e uma gravidez de cinco meses, de um homem quatro vezes mais velho.

“Papá (marido) não veio comigo, aproveitei vir à consulta pré-natal e ver as danças culturais, por causa da vinda do Presidente (da República). Tive que suportar carregar este filho no colo, durante a viagem, porque ainda não consegue andar sozinho”, disse à Lusa Sedia, num respiro de cansaço, enquanto se emociona com as danças.

Ela é um rosto de centenas de mães-crianças de Mandie, no centro de Moçambique, que veem a sua “infância roubada” por casamentos prematuros, situação que está a sair do controlo das estruturas locais.

As autoridades governamentais e de educação na província de Manica, onde se localiza Mandie, estão preocupados com casamentos de crianças, em troca de dotes, em espécie ou dinheiro, provocando a sua desistência do ensino para cuidar de outras crianças, os seus filhos, e maridos.

“No ano passado, sete raparigas, menores de 12 anos, deixaram de estudar porque ficaram grávidas ou tiveram que casar com homens escolhidos pelos parentes. A situação é muito preocupante, sobretudo nas comunidades fora da escola” disse à Lusa Rodrigues Mafione, diretor dos Serviços Distritais de Educação, Juventude e Tecnologia de Guro.

Não existem estatísticas oficiais de quantas mães-crianças vivem em Manica, mas a governadora, Ana Comoana, adianta, no seu balanço das atividades de 2011, que o casamento prematuro é a segunda causa de desistência escolar, atrás do nomadismo de pais à procura de terras férteis e da prática de garimpo.

“Eu tinha uma contradição com o meu pai porque insistia que devia casar com um homem, mas eu queria estudar. Apresentei o caso à escola, que reportou o caso ao governo local e 20 crianças na minha situação foram acolhidas num centro”, disse à Lusa Mavirante Califórnia, um símbolo de “revolução” na região.

Uma iniciativa governamental atrai as potenciais candidatas a casamentos prematuros, bonificando os seus estudos com material escolar e outras necessidades, caso os seus encarregados se manifestem indisponíveis para pagar as despesas, uma das desculpas mais comuns para “atirar as filhas para casamentos” por elas indesejados.

“Este ano acolhemos 23 crianças que iam ser levadas para o casamento prematuro. Sensibilizámos os pais para a necessidade de completarem o ensino para terem depois uma independência, sobretudo económica, na fase adulta”, disse à Lusa Rodrigues Mafione.

Segundo a UNICEF, Moçambique tem uma das mais altas taxas de casamentos prematuros do mundo e dados do Inquérito Demográfico e de Saúde de 2003 indicam que 18 por cento de mulheres jovens, com idades entre os 20 e os 24 anos, já eram casadas antes dos 15 anos e 56 por cento antes dos 17 anos.

O casamento prematuro compromete o direito da rapariga à educação e à saúde. Em Moçambique, 36,9 por cento das raparigas casadas dos 15 aos 19 anos de idade não têm qualquer educação. A gravidez e parto entre as adolescentes estão associados a posteriores problemas de saúde, quer para a mãe, quer para a criança.

FONTE: Lusa

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