InicioCulturaMÚSICOS ANGOLANOS DOS ANOS 60 - Garda e seu conjunto

MÚSICOS ANGOLANOS DOS ANOS 60 – Garda e seu conjunto

Aos 7 anos enfiava-se debaixo da mesa da sala dos pais, em Luanda, para ouvir os amigos da família cantarem e tocarem pela noite fora.

“Muita tareia levei da minha mãe, de cada vez que ela descobria que, em vez de estar a dormir, estava ali debaixo da mesa.”

Aos 79 anos, e quando a saúde lhe permite, organiza festas ou vagueia de bar em bar pela noite alfacinha, animando um séquito que a idolatra carinhosamente e muito lamenta a negação que ela faz da sua natureza artística.

Não são os anos que a impedem de sair do Convento da Encarnação, onde reside atualmente, para avançar pela noite até ao amanhecer. E porque diz gostar mais do “pagode” do que da arte que tem em si, quando não toca e canta, também dança.

Directas de segunda a sábado

Até se assustar com a sua hipertensão, há cerca de quatro meses, fazia diretas de segunda a sábado: “Não descansava nada… Era um vai aqui e vai ali. Por isso é que digo que não sou artista. Sou uma louca por música. Uma doida, vadia, boémia, independente, despistada. Não tenho horários e gosto de fazer o que me apetece. Não gosto de me arranjar. Sou simples. Não sou coquete. Toco para a malta toda. Sou a velha vadia de Portugal.”

Garda  até tem um fado corrido – que acabou por não ser incluído no seu último disco – que usa para se apresentar: “Chamaste-me velha vadia/ isso não importa nada/ sou da noite/ gosto de fado/ sou vadia sim senhor/ visto o meu camuflado/ e aí vou eu/ por ridículo que pareça/ cá tenho a minha razão/ assim não sou roubada interrompe a canção para dizer que uma vez já foi roubada nem violada/ pois as velhas escapam à pedalada/ Convento da Encarnação é a minha casa/ hei de morrer a ouvir o fado vadio/ sou vadia sim senhor.”

Ildegarda Oliveira nasce “mulata” em Luanda, em 1931. A música faz parte da sua natureza inata; e vai-se afirmando na sua vida de forma autodidata.

Luanda, nos anos 50

“Comecei na música na brincadeira. Não tive professores. Em Angola, não havia academia. Aprendi tudo sozinha e depois fiz o conjunto com os meus irmãos, mas nunca pensei que iria ter projeção.”

Em miúda, começa pela viola. Em rapariga, e depois de ver um acordeonista tocar, fica “louca” e aprende acordeão. Também canta e, “por brincadeira”, acaba por formar, com Fernando Amaral, o seu conjunto.

O talento de Garda torna-se conhecido em Luanda nos anos 50, e João Roquette, diretor do Banco de Angola, onde o pai de Garda é funcionário, fica seu fã.

Garda e o seu conjunto anima os bailes angolanos de Carnaval ou de Fim do Ano. E vai além dessa Luanda cosmopolita. Atua de norte a sul. Apresenta-se em festas do Governo, divertindo a sociedade privilegiada de então, cantando música brasileira e espanhola que todos põe a dançar.

Paralelamente, começa a trabalhar como telefonista no Banco de Angola durante o dia, depois de acabar o quinto ano do liceu. Mas nunca larga a sua viola.

Visita a Portugal

Em 1957, Garda visita Portugal, a convite de Manuel Espírito Santo, que a vira atuar em Luanda. Garda e o seu conjunto animará com ritmos latinos e brasileiros o baile de debutantes das filhas do empresário.

“Éramos a novidade. Os Ouro Negro eram mais novos que eu, e nunca tinha vindo ninguém de Angola. Foi lindo. Os meus pais também vieram. Nessa festa de apresentação das meninas à sociedade conheci o Valentim de Carvalho e o responsável pelo Casino Estoril.”

O primeiro convida-a para fazer uma gravação nos seus estúdios, o segundo para um espetáculo no Casino Estoril. Garda vai à televisão, é noticiada nos jornais e atua em Cascais, no Clube da Parada.

Gravação com o conjunto Marino Marini

Grava com o seu conjunto, mas não gosta do resultado. “Não tínhamos os instrumentos certos e foi o conjunto de Marino Marini, que tinha feito a primeira parte do baile de Espírito Santo, que nos emprestou a aparelhagem.

O acordeão era bom, mas o acompanhamento era muito estridente, e era por isso que eu não queria o disco. Gosto de ser perfeita.” Como Garda não se revê no resultado final, não envia uma fotografia sua. Valentim de Carvalho não desiste. Usa a foto de uma outra mulher e lança a gravação “Maria Candimba”.

“Ainda hoje há quem pense que eu sou aquela fulana, uma preta boçal. Não é que me considerasse bonita…”

O single com quatro temas de Garda é o primeiro disco de vinil a chegar a Luanda, em 1958. Mas Garda tem ainda mais argumentos contra esta gravação. Como cresce numa casa onde não se fala Kimbundo, acaba por não ser natural para ela compor nesta língua.

Acredita que, sendo angolana, devia apresentar música típica. Mas não lhe interessa, de modo algum, ir por esse caminho. O seu sonho é antigo. E tem outras raízes: os discos de ópera do pai.

Uma vontade indómita

Esse sonho é também a principal explicação para esta vontade indómita de dizer que não quer ser artista; é a parte que preenche o quase do tudo que tinha em 1957 para continuar a ser uma estrela; e a razão por que não vai sê-lo.

Depois do sucesso em Portugal, Garda regressa a Luanda, decidida a mudar-se para Lisboa. Não para prosseguir a sua carreira popular, mas com outro objetivo em mente. “A mania do clássico” faz com que queira aprender violino.

Em 1962, larga os fios do PBX do banco e entrega-se às cordas do violino no Conservatório, em Lisboa. Estuda solfejo até ao terceiro ano e violino até ao sexto.

Duas fatalidades

Uma fatalidade – a primeira de duas que lhe irão mudar o curso da vida – encerra este sonho. Garda sofre um corte numa mão, numa porta de vidro, que lhe encarquilha os tendões e os dedos e a afasta para sempre do violino. Pouco depois conhece o marido, um militar de carreira, pouco mais novo do que ela, por quem se apaixona e do qual fica grávida aos 39 anos: “Eu fui uma moça que não queria namorar. Era vistosa, mas não ligava. Nunca fui muito de namoros. Os rapazes tinham de ser amigos. Era só música. Ainda hoje perco-me só com música. Mas o meu marido era muito interessante e era um bom par para mim. Aceitava a minha maneira de ser feliz, e em pouco tempo conheci a felicidade. Ele queria que eu fosse feliz.”

Em 1971, fica viúva. O marido, o capitão José Joaquim Lofgren Rodrigues, morre aos 37 anos, num acidente ao serviço do Exército, em Angola A última vez que o vê é antes da partida dele para África, já com o filho nos braços (‘Último Beijo’ é o tema que descreve neste novo disco essa despedida).

Nessa altura, Garda vivia no Porto, a cidade dele, e tinha uma escola de música: a Escola Musical do Joca. Joca é o diminutivo do nome do filho, José Horácio.

A notícia da morte do marido

A notícia da morte do marido é-lhe dada no exacto dia do aniversário dela, 20 de Fevereiro. Garda perde o novo sonho que começara a construir. Durante seis anos, não cantará, nem tocará. “Perdi tudo.”

Perde a escola, perde o filho para a família do marido, perde a oportunidade de continuar a ser feliz… Ainda pede acolhimento no Convento da Encarnação, onde hoje, por “coincidência da vida”, reside, mas a assistente social nega-lhe essa possibilidade. A fatalidade leva-a a emigrar. Durante anos, cozinha, trata de pessoas idosas, instala-se na Suíça e depois em Espanha.

O talento musical não passa, porém, despercebido nessas andanças, e em Espanha chegam a propor-lhe um contrato para gravar, em Madrid. Mas Garda tem a certeza que não quer ser artista. Só muito mais tarde, Vera Ramos, uma das suas fãs que conhece desde 1999, a convencerá a voltar aos estúdios da Valentim de Carvalho, para encontrar a gravação de 1957.

“Foi um momento muito bonito”, conta Garda. “O Francisco Vasconcelos foi engraçado. Foi-me ver tocar no bar Inda a Noite É Uma Criança, na Praça das Flores, em Lisboa, e levou-me uma cópia dessa gravação. A partir desse dia, nunca mais me largaram. Queriam que eu fosse de novo artista! Eu? Nem quando era mais nova!”

O regresso ao estúdio

Garda, apesar das reticências, entrou de novo nos estúdios da Valentim de Carvalho, conquistando músicos, produtores e técnicos, conforme os próprios confessam num registo documental que acompanhou a gravação do discop e que narra ainda a atribulada história da vida de Garda. Francisco Vasconcelos retoma assim a carreira desta mulher teimosa que insiste nesse velho sonho de ser instrumentista clássica, depois de uma interrupção de mais de 50 anos numa carreira que prometia muito na música popular.

No testemunho que inclui no livrete do disco, o presidente da Valentim de Carvalho diz que sentiu que queria gravar o disco de Garda pouco depois de a conhecer: “A grandeza com que desdramatizou o relato dos altos e baixos da sua vida e uma maqueta com uma gravação rudimentar de quatro canções chegaram para me conquistar.”

Apesar de se dizer chorona,Garda tem de facto uma forma iluminada de dar voz às suas fatalidades, em composições e letras que aparecem neste seu primeiro álbum (“Garda”, iPlay, 2010). Agora foi sozinha para estúdio, porque sozinha é também uma condição na qual se encontrou várias vezes na vida. E a pensar nisso também já escreveu uma composição que quer gravar com um coro de pessoas sem-abrigo: “Quando o amor não te assiste que desilusão/ quando o amigo te atraiçoa que desilusão/ quando a família te abandona que desilusão/ quando o mundo te joga fora que desilusão/ não te importes/ não tenhas medo/ a solidão não mata ninguém/ levanta-te e anda para a frente/ porque Deus está sempre presente.”

E é por Deus que diz, ainda assim, viver contente: “Deus está sempre presente!”

Texto publicado na revista Actual de 8 de janeiro de 2011

Fonte: Expresso

 

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