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Entrevista: ‘França importa anualmente mil e 600 milhões de dólares de Angola’

Angola e França têm tido altos e baixos no seu relacionamento. Por exemplo, a recente visita do ministro Georges Chikoti foi a primeira em oito anos, depois de um aparente congelamento. Em que ponto está agora este relacionamento?

Eu nunca percebi que em algum momento as relações entre os dois países (França e Angola) tinham estado congeladas em algum momento. A França está aqui há muitos anos, desde antes da Independência, a França foi um dos primeiros países a reconhecer a Independência de Angola. As empresas francesas estão aqui há sessenta anos, uma boa parte delas. O que pode acontecer, às vezes, é que o diálogo esteja menos intenso em certos períodos…

Apenas isso?

Agora, justamente, a visita do ministro Chikoti foi importante neste sentido. É que ultimamente o diálogo não estava tão bem como poderia ser e, sobretudo, como deveria ser.

E esta visita acabou por desbloquear o diálogo entre os dois países?

O diálogo não estava bloqueado.

O diálogo não acontece apenas entre ministros ou presidentes, o diálogo continua sempre, de uma forma ou outra. E essas outras formas de diálogo são fundamentais para entender as opiniões e as posições de cada lado. Em períodos complicados é fundamental esse diálogo. A visita do ministro teve também o objectivo de relançar o diálogo a alto nível. Foi nesse sentido.

Quais foram os resultados concretos da visita do ministro Chikoti?

O regresso ao diálogo político foi fundamental. Além dos interesses económicos, a França e Angola têm um papel bastante importante na paz.

Angola e França têm uma personalidade bastante marcante, acreditam muito na independência, pensamos da mesma forma. Angola e França têm uma capacidade de agir, pensar, exprimir posições, têm opiniões sobre crises, sobre problemas. Nesta região quais são os dois países com estas características? Só estes dois, Angola e França. Então, naturalmente, os dois países têm interesse em dialogar. Angola está presente, tal como a França que tem laços estreitos com muitos países. Temos muito que compartilhar.

A falta de diálogo é uma falha, porque precisamos um do outro. Independência sim, mas interdependência.

A França vê em Angola um parceiro estratégico para a sua política em África, compartilhando acções e concertando?

Claramente. Angola é um dos parceiros principais que a França tem e quer ter na África subsaariana. Se prestou atenção à visita do Presidente Sarkozy, este laço foi abordado, e na visita do ministro Chikoti também se evidenciou este tipo de laço muito específico.

Teremos Angola e França mais concertados na relação, por exemplo, com os países dos Grandes lagos?

Sim. E existe esta concertação sobre problemas da região, o que é muito natural.

Alguns dos problemas da região são muito, infelizmente, sérios. É possível uma concertação militar?

A visita do ministro Chikoti pode ter servido também para isso? Há um acordo de cooperação militar que está em discussão entre os dois países. Mas para muitas crises não é necessária uma intervenção militar, precisa-se de uma força de estabilização, o que é diferente, não apenas na palavra. É para estabilizar. Angola foi para a Guiné Bissau com uma força militar que era para ajudar a estabilizar o país, não numa intervenção militar, o que é bastante diferente. Angola tem toda a capacidade para participar em missões de estabilização dentro da União Africana.

Falou da presença antiga de empresas francesas, que, julgo, acabam também por contribuir nas outras formas de diálogo. Mas quando se fala de empresas francesas em Angola a imagem imediata é a da TOTAL, pouco mais.

Antigamente já se montou cá automóveis Renault, por exemplo. Hoje a presença das marcas automóveis é feita de forma indirecta, por via da TDA que pertence a um grupo português. O que se passa para se sentir tão pouco o investimento francês directo?

O investimento francês não é tão pouco assim, temos uma empresa como a Castel, com mil milhões de dólares investidos aqui em cervejarias… não é pouca coisa. Há neste momento cerca de setenta empresas francesas estabelecidas em Angola. Podem não ser muito visíveis, mas estão presentes nos sectores dos serviços, transportes e há também planos para investirem em infra-estruturas, fábricas. O exemplo que deu da Renault, talvez a marca já cá não esteja, mas não conheço outra montadora aqui em Angola, hoje em dia. Mas com o desenvolvimento do país e com a diversificação da economia, claramente, no futuro haverá mais fábricas…

Para quem cá está há tanto tempo, não é estranho não haver empresas francesas na área da construção civil, uma das que mais cresce e tenderá a crescer no futuro?

A França tinha uma presença muito marcada num sector particular há algumas dezenas de anos atrás, o sector da água. Há empresas francesas que estão com planos de vir para cá para participar no plano geral do Executivo “Água para Todos”. São planos que vão amadurecendo para que esta presença se repita. No sector da construção civil há empresas de outros países a participar e porque não as francesas? Seria bom que empresas de construção civil francesas estivessem aqui, claramente, mas um país não precisa fazer-se presente e visível apenas nas infra-estruturas. A França sabe construir paredes, mas não faz só isso. O que tentamos fazer aqui é ajudar a construir o futuro do país, mas não apenas com cimento.

A embaixada recebe, de certeza, solicitações de conselhos por parte das empresas francesas para identificar áreas de negócios em Angola, em que áreas os empresários franceses se mostram mais interessados neste momento?

Estamos a tentar trazer empresas francesas de todas as áreas. Evidentemente que o sector com mais vitalidade é o da energia, quer na produção como na distribuição. Temos empresas francesas que já cá estão a trabalhar no transporte de electricidade. Temos tentado trazer mais empresas deste sector. Há bastante interesse. Deve saber que em Outubro do ano passado trouxemos um grupo de empresas, uma delegação que foi muito bem recebida e que levou uma mensagem muito positiva.

O ministro Georges Chikoti, nesta sua última visita, no mês passado, encontrou-se também em Paris com empresas francesas e foi-lhe manifestado um evidente interesse da parte dos empresários em cá virem.

O que acontece é que há empresas que pensam que problemas políticos possam impedir o seu trabalho, mas a realidade é muito diferente, mesmo quando o diálogo político não funciona de maneira tão intensa, o trabalho das empresas continua. Não houve e nem há razão para que haja impedimentos.

A relação entre dois países não é coisa que se mude dependendo do ambiente, do mau humor ou do bom humor.

Os interesses mútuos são amplos, quer se fale de desenvolvimento, quer se fale de política externa. Agora, em França temos grande preocupação com as crises mundiais e regionais. Há também grandes assuntos como o da reforma do Conselho de Segurança das nações Unidas, os grandes problemas de saúde, o terrorismo… esta realidade faz com que as notícias que possam aparecer sobre uma dificuldade ou outra sejam muito menores em relação aos interesses fundamentais dos dois países.

FRANÇA IMPORTA MIL E SEISCENTOS MIL MILHÕES DE DÓLARES POR ANO DE ANGOLA

“Mesmo quando o diálogo político não funciona de maneira tão intensa, o trabalho das empresas continua. Não houve e nem há razão para que haja impedimentos. A relação entre dois países não é coisa que se mude dependendo do ambiente, do mau humor ou do bom humor”

Em que níveis se situam agora as relações económicas entre os dois países?

O valor das trocas depende bastante do valor do barril de petróleo, mas as importações da França estão em torno de mil e seiscentos mil milhões de dólares por ano e a França vende qualquer coisa como seiscentos milhões de euros (cerca de oitocentos milhões de dólares). Isso varia, mas as importações da França têm crescido de forma regular nos últimos dez anos.

As trocas comerciais acabam por ser acompanhadas por deslocações de pessoas, também, nomeadamente dos empresários. Angola tem tido abordagens com Portugal, por exemplo, em matéria de políticas de facilitação de vistos. Como está com a França? Há alguma pressão em termos de solicitação de vistos de entrada ou os angolanos não estão muito virados para o visto francês?

Nós damos bastantes vistos e de uma forma muito mais fácil que o que as pessoas parecem crer. Mas precisamos de facilitar as coisas, ambos os lados. Estamos a discutir a assinatura de um acordo sobre a facilitação da circulação entre Angola e França e tenho a esperança que daqui a pouco o consigamos. Pretendemos um acordo que crie o chamado visto de circulação, que facilite o trabalho dos empresários e peritos e também para os vistos de longa duração para que as pessoas não precisem de renovar todos os anos o visto de trabalho. Sei que o MIREX está a preparar vários acordos com vários países, é um passo muito positivo que se está a tomar.

Como está a política francesa de atribuição de bolsas de estudo?

O programa de cooperação no sector da educação nunca parou. Continua a ser o maior foco da nossa cooperação.

As bolsas são apenas uma parte, uma parte importante. Continua a haver bolsas para pós-graduação e, além disso, assinámos um acordo com o INABE (Instituto Nacional de Bolsas de Estudo) no ano passado, que permite o envio de bolseiros para a formação superior politécnica. Este programa não consiste apenas na atribuição de bolsas, passa também pelo apoio aos institutos técnico-superiores angolanos. A França participa na elaboração dos programas, na formação dos formadores e dos próprios alunos. Para este ano o acordo com o INABE previa quarenta bolsas. E porquê o apoio neste sector? Um país com um desenvolvimento rápido, como Angola, precisa de engenheiros, precisa de doutores, mas também precisa, muitíssimo, de técnicos superiores. Quando falamos de empresas e investimentos, há uma falta muito grande de formação a esse nível, nota-se.

A comunidade francesa em Angola é pequena, mas existe uma grande comunidade francófona. Como é a relação da embaixada com esta comunidade em termos de promoção da cultura e da língua francesa? Há a Alliance Française em Luanda e um núcleo no Lubango e a Escola Francesa de Luanda, nada mais.

A Alliance Française tem presenças aqui em Luanda, no Lubango e também em Cabinda. A Alliance Française ensina francês de duas formas: para pessoas individuais e também tem um programa para as empresas que querem formar os seus quadros. A demanda é muito grande. Mas sabe que a Alliance Française ensina português também? Que ensina kimbundo? Há demanda para estas línguas também.

Aliás, a Alliance Française tem o papel de ensinar a língua, mas não só. O papel da Alliance é apoiar a diversidade cultural. Trabalha na área da língua, na área da cultura… e na cultura tem trazido programas de criação francesa, mas também apoia programas de criação africana. Apoia as trocas, isso é um valor fundamental. Além disso, a embaixada e o governo francês têm em mira o ensino da língua francesa no nível superior, é um programa exigente mas com grande demanda por parte das direcções universitárias.

Além da música, do teatro e do cinema franceses que a Alliance vai apresentando, um outro aspecto cultural é a gastronomia …

Temos pelo menos um restaurante francês em Luanda, bem perto do Governo Provincial. É particular, mas a culinária faz parte da cultura, das coisas do dia-a-dia.

E a isso se liga um dos aspectos importantes da imagem de França que é o vinho. Sentimos aqui investidas importantes dos vinhos sul-africano, português e até chileno, mas a França parece mais calma, sinal de estar bem estabelecida noutros mercados e este não interessar muito?

Não. Há vinho francês a ser distribuído aqui. Há casas que vendem vinho francês. A Castel também o faz. Mas tudo depende do mercado.

O que lhe parece a realidade angolana, se lhe pedir um postal de Angola neste momento pré-eleitoral?

Muito difícil fazê-lo de forma curta, em pouco tempo e para uma entrevista. Há um processo eleitoral que está em andamento. Não vejo dificuldades neste processo.

Pergunto porque infelizmente os processos eleitorais em África trazem algumas conturbações, como aconteceu agora na Guiné Bissau.

Qual é a posição francesa para casos de alteração da ordem constitucional?

Reagimos com muita força. A perturbação da ordem constitucional, infelizmente acontece, de vez em quando, em alguns países e a comunidade internacional tem tido a mesma reacção, não aceita este tipo de perturbação, como as que houve no Mali e na Guiné Bissau. Neste sentido Angola e França têm a mesma visão.

Acha que estes golpes, como o da Guiné Bissau, um Estado em que a relação entre as forças armadas e o poder político é sempre muito difícil, mas também em casos como o Mali, a Guiné Conakri, por exemplo, motivar as Nações Unidas a enviar forças de interposição para permitir que os exércitos desses países se reorganizem de forma republicana?

A Organização das Nações Unidas é uma associação de todos os países do mundo; o Conselho de segurança tem a capacidade de votar resoluções e quando a crise o merece, o Conselho de Segurança pode criar forças internacionais ou dar a um grupo de países um mandato par intervir. Felizmente, apesar dos problemas recentes na Guiné Bissau e no Mali, estamos a observar exemplos bastantes positivos que vão no caminho contrário à instabilidade.

No ano passado, 2011 aconteceram muitas eleições em África. No início deste ano houve eleições no Senegal e parecia que as coisas estavam muito complicadas, mas no fim a democracia venceu. O Presidente foi eleito e estamos a ver que esta tendência está cada vez mais forte. Estou optimista neste sentido. As coisas estão a mudar para o sentido positivo.

Sente que a presença militar francesa em alguns países ajuda na estabilização?

Houve acção de militares franceses na Côte d`Ivoire…

A França não tem base militar na Côte d`Ivoire, a presença da França resultou de um mandato das Nações Unidas …

Mas tem bases noutros países

Hoje tem muito menos bases. Do mesmo modo que o continente avança de forma positiva, também a relação da França com África já não é a mesma de há trinta anos atrás. O mundo muda, as relações mudam.


E o que foi que mudou, a estabilização dos países africanos ou a visão que a França tem do continente?

É um movimento conjunto, os países evoluem e a política externa da França evolui.

A França tem vizinhos no Magrebe com alguma agitação nos seus processos políticos. Há muita preocupação com o que está a acontecer na Tunísia, na Argélia, por exemplo? São países com relações históricas com a França e que têm importantes comunidades em França.

Houve um movimento político na Tunísia que foi testemunhado por todo o mundo. Foi o povo tunisino quem decidiu. Nós só podemos observar com muito interesse. Quem deve exigir é o povo, para que se crie um processo democrático e a decisão do povo é legítima.

No projecto de reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas a França apoia a presença de um país africano?

Mas a França apoia muito. A França é um dos líderes na visão da mudança do Conselho de Segurança. Achamos, com muita força, e não hesitamos em defende-lo em público, a presença da África. Agora, os países africanos têm de decidir entre si quem os deve representar, quem tem mais legitimidade.

Que os países emergentes, os continentes que não estão representados passem a estar, é uma evidência.

Nas relações internacionais, há um elemento novo, ligado ao meio ambiente. Há alguma política francesa que privilegie as relações com países com “bom comportamento ambiental” e que penalize os países com “mau comportamento ambiental”, tal como a questão dos direitos humanos?

Estas políticas não se decidem ao nível do país, decidem-se ao nível europeu. A França tem uma política para o meio ambiente muito forte. O ministro da Ecologia e do Ambiente era o número dois do governo. Há normas que devem ser aplicadas e estamos a favor de um apoio dos países mais desenvolvidos aos países que precisam destas normas que permitam um desenvolvimento sustentável e que não ponha em risco o futuro do país. Angola tem uma visão para o ambiente. A Ministra do Ambiente, Fátima Jardim, é uma pessoa muito dinâmica. Ela esteve em França no mês passado, justamente para que possamos desenvolver um programa de cooperação neste capítulo. O ambiente é um sector enorme, seja na preservação das florestas, seja no desenvolvimento urbanístico, é um sector imenso e difícil de desenvolver em períodos de crise económica, porque a urgência parece ser o dia-adia, enquanto o ambiente é o futuro.

A França não quer perder a visão do futuro, apesar da crise económica.

Um empresário angolano que queira exportar para França o seu produto pode contar com algum mecanismo de facilitação como a AGOA dos Estados Unidos da América, por exemplo?

A França pertence à Europa e no âmbito comercial as decisões são europeias, não há uma política nacional nisso. Não há mecanismos nacionais, é ao nível europeu que esses mecanismos funcionam. A Europa tem acordos com várias regiões do mundo justamente para facilitar os países em desenvolvimento.


‘QUANDO UMA PESSOA FAZ ALGUMA COISA ILEGAL A JUSTIÇA FAZ O SEU PAPEL’

Houve uma pessoa que depois do atentado contra a selecção do Togo, em Cabinda, em 2010, fez declarações públicas e a justiça francesa começou um processo, que ainda não está terminado

Há quem diga que a França não faz o suficiente para conter alguns elementos da FLEC que vivem no seu território…

Houve uma pessoa que depois do atentado contra a selecção do Togo, em Cabinda, em 2010, fez declarações públicas e a justiça francesa começou um processo, que ainda não está terminado. Quando uma pessoa faz alguma coisa ilegal a justiça faz o seu papel. Se houver queixa, ou se houver crime denunciado pelas autoridades de Angola, logicamente a França vai reagir.

Há políticos angolanos que acusam a França de estar por trás de algumas acções hostis ao Estado angolano, como no caso de Cabinda. O nome da França surgiu também na polémica de uma manifestações em que se dizia terem sido preparadas com apoio externo e citou-se a França também. Para o cidadão comum fica complicado perceber se a França é ou não um Estado amigo. A ideia é que os franceses estão permanentemente a conspirar. E do lado francês não surge uma resposta definitiva para esclarecer isso.

Já ouvi rumores e boatos. Não consigo entender que uma imaginação chegue a um delírio tão profundo. Quais são os interesses da França em Angola? São os mesmos. E que quer a França de Angola? Quer que o país se desenvolva, quer participar no desenvolvimento, quer que Angola tenha um papel estabilizador na região. Quem pode ter uma análise tão limitada, tão fraca que possa imaginar isso quando é o contrário dos interesses da França? Quem queira imaginar coisas que o faça à vontade.

Definitivamente, não há uma atitude conspiratória da França para com Angola?

Quantas vezes preciso repetir? É delírio!

E este delírio é fruto de um grande mal-entendido ou há muitas vezes um pouco mais de coração que razão na relação entre os dois países?

A relação entre Angola e França é feita de razão, mas ao mesmo tempo é feita de paixão. Isso espelha um laço particular. Pode haver momentos mais difíceis mas isso quer dizer que existe um laço fundamental, vivamos com isso.

Até que ponto se alteraram as relações entre os dois países com a visita, em 2008, do Presidente Nicolas Sarkozy?

Foi um passo. A relação entre dois países não é uma relação linear, às vezes, mas exige que haja diálogo. As dificuldades podem surgir quando não há diálogo. A visita do Presidente Sarkozy foi uma etapa no diálogo entre os dois países. Uma relação exige esforços, não é tão fácil, porque todos os países têm que enfrentar urgências todo o tempo e não é fácil manter uma relação com todos os países de uma forma tão estreita. A visita do Presidente Sarkozy foi importante e a visita do ministro Chikoti foi importante, é isso que nutre o diálogo. É verdade que poderia ter havido mais visitas, porque nestas ocasiões fala-se de todos os assuntos, políticos, económicos, multilaterais, etc. É uma oportunidade necessária e esperamos que haja muito mais visitas…

A visita do ministro Chikoti pode ter aberto a porta para uma visita do Presidente José Eduardo dos Santos?

O convite foi feito pelo Presidente Sarkozy em 2008, como é de costume. Quando um presidente é convidado e recebido num país, ele retribui o convite. Nós, claramente, esperamos que aconteça a visita do Presidente Dos Santos.

Nas relações externas, a França aparece algumas vezes com uma posição musculada. Por exemplo, a França foi dos países que mais se bateram por uma intervenção militar na Líbia. Havia mesmo uma emergência humanitária, ou estava em jogo um posicionamento estratégico relativamente ao petróleo, por exemplo?

Mas houve uma resolução do Conselho de Segurança. A França agiu em torno da resolução do Conselho de Segurança.

A França vai também retirar-se do Afeganistão tal como as tropas americanas?

A França já anunciou que se vai retirar.

E não ficará o Afeganistão desamparado sem as tropas de potências importantes como a França e os Estados Unidos?

É um paradoxo, todos os países estão preocupados com a estabilidade de um país. A intervenção foi feita com um mandato, mas há observadores externos que dizem tratar-se de uma ingerência, mas ao mesmo tempo, quando os países que estão lá sob mandato da ONU resolvem sair, aí surge a questão de se estar a abandonar o país. O que acontece quanto à presença militar e apoio ao governo e autoridades do Afeganistão, é que parte do trabalho é formar as próprias forças do país.

Os países que intervieram não o fizeram para permanecer, foi para tentar resolver uma situação, o que não é fácil. Uma parte do trabalho é precisamente ajudar o país a desenvolver as suas forças para garantir o futuro.

Os problemas que a França tem com as comunidades idas do Magreb resultam mais das dificuldades de integração da segunda geração, porque os país não deram problemas, ou são resultado da influência do que se passa no Médio Oriente?

Não sei porque teriam mais dificuldades, temos uma relação muito estreita e histórica com os países do Magreb e com outras nacionalidades, não entendo.

Vejamos o caso de Mohamed Merah, depois da sua morte foram detidas pela polícia francesa várias pessoas apontadas como eventuais colaboradoras do terrorismo internacional, muitos desses jovens têm nacionalidade francesa, nasceram em França.

Estas dificuldades resultam da má integração das comunidades na sociedade ou apenas da influência …

Não entendo bem, porque muitos países têm os mesmos problemas de terrorismo, você referiu Cabinda há pouco tempo. São cidadãos angolanos que são acusados de cometer actos condenáveis. Muitos países passam por este tipo de problemas.

Neste mundo em rápidas mudanças há cidadãos do próprio país que podem enveredar por estes actos que são condenáveis. Mas as causas são múltiplas. É muito difícil apontar as culpas a este ou àquele e a isto ou àquilo. Todas as sociedades têm problemas de integração. Os países que são uma mistura de pessoas de várias origens têm esta dificuldade, é muito natural.

No caso francês não se pode ligar isto à proibição do uso do véu islâmico, por exemplo?

Fala-se muito na questão religiosa, é uma das dificuldades, que a religião esteja a ser usada para complicar o funcionamento das sociedades.

É gente a usar a religião com fins políticos?

Faz parte das dificuldades

‘HÁ LIMITES NA CAPACIDADE DE VER COISAS NUMA BOLA DE CRISTAL’

“O que os países europeus estão a fazer é buscar soluções para evitar um retrocesso que leve àquele passado. Mas falar em guerra é pura ficção”

Como é que a França lida com estas duas solicitações: a necessidade de ajuda ao desenvolvimento dos países do chamado terceiro mundo e a necessidade de ajuda aos países europeus com dificuldades económicas e financeiras como a Grécia, Portugal e a Irlanda? Esta nova realidade europeia vai alterar o posicionamento francês quanto à ajuda ao desenvolvimento?

Creio que não. Uma das dificuldades da Europa são as crises do endividamento e as políticas com o resto do mundo não se vão alterar, apesar disso.

Mas terão que direccionar mais dinheiro para o Sul da Europa.

O Banco Central Europeu que participa na resolução da crise tem dinheiro. Houve participação dos países também, mas não creio que isso mude a política externa. Estamos num mundo muito interdependente, não nos podemos fechar ao desenvolvimento por causa da crise, isso só pioraria as coisas.

A França arrisca-se a confrontar-se com uma realidade vivida nos anos 1960, que é a imigração forte de cidadãos portugueses e espanhóis em busca de emprego, como reagiriam? Este crise representa algum risco para a União Europeia?

Há uma tradição de migrações dentro da Europa e há agora uma crise geral. Haverá migrações e é por isso que todos os países europeus estão a trabalhar na busca de uma saída para a crise. A migração pode ser uma das perturbações. É uma crise e estamos a buscar uma saída.

Não há riscos nem para a Europa como espaço comunitário nem para o Euro?

Há riscos em tudo na vida. É uma crise, estamos a trabalhar para a ultrapassar. Há estabilidade na Europa, apesar da crise que afecta muitas partes do mundo…

Mas há analistas que dizem que o Euro pode acabar e há quem diga que a comunidade pode desintegrar-se. Mas há um eurodeputado que disse temer pelo agudizar dos nacionalismos e que temia que isso poderia conduzir a Europa a mais uma guerra.

Há muitos escritores de novelas, escreve-se muita coisa. A Europa é um exemplo importante de estabilidade, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Tratava-se de um continente agitado, toda a construção europeia surge justamente para acabar com estas tensões, com os extremismos.

As crises económicas são sempre favoráveis ao desenvolvimento de extremismos. O que os países europeus estão a fazer é buscar soluções para evitar um retrocesso que leve àquele passado. Mas falar em guerra é pura ficção. Todo o mundo tem o direito de pensar e inventar o que quiser, mas há limites na capacidade de ver coisas numa bola de cristal.

E por estes dias compara-se muito a realidade europeia com a era de François Miterrand e Helmuth Koll.

As pessoas mudam, os dirigentes mudam, os interesses fundamentais permanecem.

FONTE: O País

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