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Mota-Engil Angola prevê facturar perto de 400 milhões de euros

A Mota-Engil Angola representa já 27% do negócio do grupo. No espaço de dois anos, a construtora tem vindo a consolidar a sua posição num mercado onde só este ano serão investidos mais de 15 milhões de euros

O fim da guerra civil que dilacerou Angola tem vindo a traduzir-se numa maior abertura do país ao exterior. Hoje, como em 1946, a Mota-Engil marca a sua presença em solo africano, agora mais forte do que nunca. O rasto de destruição deixou em aberto um vasto leque de oportunidades na área da construção civil e obras públicas. As antigas infra-estruturas colapsaram, mas o tempo não parou. Mais do que reconstruir, trata-se de fazer de raiz auto-estradas, aeroportos, pontes, hotéis… Angola representa actualmente 27% do negócio total do grupo construtor.


A Mota-Engil nasceu em 1946. Por que razão esperou por 2010 para oficializar a sua presença em Angola?

A Mota-Engil, primeiro Mota & Companhia, trabalhou todos estes anos de forma ininterrupta em Angola. Em 1977/78 iniciou uma parceria com o Estado angolano. Anos depois, a parceria foi desfeita e a empresa, nessa altura já Mota-Engil [pós fusão], continuou no mercado. Em 2002, fez-se nova parceria, desta vez com empresários angolanos, tendo em vista a consolidação do negócio, numa perspectiva de olhar para o futuro, mitigar riscos e consolidar a presença nos mercados internacionais…

Quando fala em mitigar riscos, refere-se a acautelar o aumento da concorrência provocado pela abertura de fronteiras? Foi por isso que se constituiu a Mota-Engil Angola?

Não. Foi, objectivamente, para crescer no mercado e olhar para o futuro. Foi para sermos, em Angola, angolanos! Procurámos ser uma empresa local e não uma sucursal de uma empresa estrangeira a trabalhar em Angola.
Em cenários de abrandamento económico o sector da construção é dos primeiros a sofrer baixas. A Mota-Engil Angola tem funcionado como tábua de salvação do grupo?

A Mota-Engil Angola representa já 27% do negócio do grupo e emprega mais de quatro mil pessoas.
Que balanço faz destes dois anos?

Muito positivo. Tem sido uma experiência interessantíssima. Acho que o sucesso da empresa está bem patente no mercado. É uma empresa de referência, o que dignifica os accionistas, por isso podemos concluir que foi uma decisão acertadíssima.

Considera que esse sucesso se deve também à longa presença do grupo no país, mesmo nos momentos mais conturbados?

É inequívoco, porque para estarmos em África e termos sucesso é preciso conhecer a cultura, ser paciente, ser perseverante, perceber a estrutura política, social e económica do país. Nós tivemos essa vivência ao longo de gerações e estamos particularmente à vontade para olhar para o país e para as suas potencialidades, interpretá-las e responder aos desafios.

Acredita que essa circunstância poderá jogar a favor da Mota-Engil na concorrência directa com outras empresas estabelecidas em Angola?

Em relação às novas empresas que estão a entrar no mercado, o nosso conhecimento sobre o país poderá ser vantajoso e temos, naturalmente, uma mais valia. Agora, em em relação a firmas com a mesma maturidade, creio que estamos em igualdade de circunstâncias.

O principal accionista da Mota-Engil, António Mota, sempre quis estar em Angola. Há afectividade, nos negócios?

Total e absoluta. A família Mota reconhece Angola como o seu país, o seu primeiro mercado. Há uma relação emocional muito forte e isso perpassa dos accionistas para os colaboradores. Quem está em Angola veste a camisola, sente o país e gosta de lá estar e, com o passar dos anos, começa a pensar que é mais angolano do que português.
Em Fevereiro, o primeiro-ministro de Portugal visitou as obras em curso na Baía de Luanda. Como define este projecto?
É um ponto estruturante, um cartão-de-visita da cidade e do país. A baía é de uma beleza extraordinária e o que está a ser feito é de enorme qualidade. É um projecto de engenharia de elevada complexidade. Ali começa a nascer a Nova Angola, mais requalificada, virada para o futuro, mais dinâmica… É a prova de que Angola está a mudar. Acho que os angolanos, os luandenses em particular, ficam orgulhosos ao ver aquela obra. Não estive lá aquando da visita do primeiro-ministro de Portugal, mas sei que ficou agradado.


O grupo Mota-Engil estava a equacionar investir na reabilitação da habitação social em Angola. Em que fase se encontra o projecto?

Temos em pipeline um investimento com um parceiro americano, para executarmos uma solução tecnológica de grande qualidade técnica e baixo custo, e vários projectos em análise. Nos próximos meses será instalada uma fábrica e então teremos capacidade instalada em Angola para dar resposta ao que nos for solicitado. Isto vai ao encontro do desígnio do poder político em Angola, que é ter estruturas produtivas e indústria para satisfazer as necessidades do país, em vez de passar a vida a importar.

Quais são agora os grandes projectos e as perspectivas de negócio?

Temos a barragem do Calueque, que é uma obra gigante, uma estrada de 150 quilómetros em Ndungo, a requalificação da Avenida Murtala Mohamed, algumas obras de grande dimensão no Soyo e, na área da construção civil, duas obras de elevada craveira técnica: a Cidade Financeira, em Talatona, e as Luanda Towers.

São investimentos de que ordem de grandeza?

Para este ano temos projectada uma facturação de mais de 500 milhões de dólares (cerca de 400 milhões de euros). O volume de investimento andará à volta dos 4% desse valor.
Angola passou a ser o quarto mercado destino das exportações portuguesas, quando em 2000 ocupava o 10.º lugar. É o principal parceiro comercial fora do espaço comunitário e representa 80% do comércio com os PALOP. Por outro lado, o investimento angolano em Portugal aumentou 131% entre 2005 e 2009. Como interpreta este crescente interesse?
Angola é hoje um país mais desenvolvido, com maior capacidade financeira. É natural que a economia cresça, assim como as oportunidades de negócio com outros países. Os grupos empresariais angolanos, agora de maior dimensão, começaram a diversificar a sua acção e a investir em mercados como Portugal.

O aumentos das exportações tem sido apontado como o caminho para a economia continuar a crescer. A solução passa por aí?

Uma das formas de resolver alguns dos problemas das empresas portuguesas passa pelo aumento das exportações. Isso tornou as empresas portuguesas mais competitivas no exterior. Mercados como o angolano são, naturalmente, predominantes. Mas isso aconteceu também em Moçambique, no Brasil e em vários países onde Portugal tem uma presença mais pujante e mais agressiva – que precisa de ter, porque a economia aqui não está fácil…

O presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), Reis Campos, diz que “no processo de internacionalização em que as empresas portuguesas de construção estão cada vez mais envolvidas, Angola surge como um desafio aliciante”, com tudo por fazer. Concorda?

Angola teve um período conturbado da sua vida e está em paz há nove anos. Teve como primeira opção estratégica a ligação entre províncias e entre as províncias e a capital. Essa foi a matriz do desenvolvimento entre 2002 e 2010, mas hoje o paradigma mudou e o Estado vê o país de forma diferente. Angola olha agora mais para a dimensão social e é a isso que dá preponderância. Essa é a intenção clara do governo. Discordo de que esteja tudo por fazer. O PIB angolano é o terceiro em África, é um PIB de referência. Isso cria um conjunto enorme de desafios e de oportunidades.
Como é que vê o crescimento exponencial da economia chinesa e os investimentos que tem realizado em Angola?
Com naturalidade. Vivemos num mundo global. A China é um gigante mundial, com grandes necessidades em termos energéticos. Angola é um parceiro fundamental ao nível estratégico e energético. Vejo a entrada das empresas chinesas em Angola como natural e de salutar.

Em Portugal, o sector da construção atravessa momentos difíceis e é dos mais afectados pelo desemprego. Só no segundo semestre de 2010 desapareceram 60 mil empregos nesta área e, actualmente, encerram quatro empresas por dia…

É um drama o que se passa em Portugal. Não sei se a troika justifica tudo! A situação que o país vive, e que está a agudizar-se, traz problemas sociais gravíssimos. Vejo Portugal cada vez mais pobre e a vida das pessoas cada vez mais difícil. Isso é dramático e preocupante.

A solução poderá estar nas medidas de excepção pedidas pelas associações do sector?

Acho que o Estado e as associações têm de encontrar uma fórmula para resolver o problema. Estarmos estagnados e sem soluções é o pior que pode acontecer. Têm de dialogar, pôr-se de acordo e encontrar uma solução.

A consultora alemã Roland Berger defende que o caminho para uma maior afirmação do tecido empresarial em países como Portugal passa pela fusão de empresas, permitindo que estas ganhem dimensão nos mercados. Como comenta esta posição?

Os portugueses são muito individualistas, não gostam de se associar. A solução pode passar por aí, pela formação de consórcios, nomeadamente em projectos de grande dimensão. Mas num país em dificuldades, montar clusters que depois não têm sustentação financeira pode ser complicado. Se for um desígnio nacional, se o Estado estiver por trás dessa decisão, se tivermos um banco de investimento que ajude as empresas a internacionalizar-se, o conceito pode ser engraçado…

Mas, dado esse espírito individualista dos portugueses, seria verosímil ver as empresas perderem o “amor à camisola” e a optar pela fusão?

Não entendi a questão nesses termos. Falava de as empresas se associarem em clusters para grandes projectos, mas o processo de fusão de empresas é algo mais complicado.

Está então pessimista em relação ao futuro da economia portuguesa?

Não. Estou preocupado. Será fundamental encontrar uma solução a curto/médio-prazo, porque não podemos continuar nesta situação. A solução para Portugal implica uma mudança de mentalidade para olhar para o problema com abertura para encontrar soluções. Tem de haver diálogo e estratégia, disso não tenho dúvidas.

FONTE: Jornal i

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