InicioDestaques“Sofri em Angola e o regresso foi ainda pior”

“Sofri em Angola e o regresso foi ainda pior”

Maionese de lagosta, lembro-me bem. Foi a primeira refeição que comemos em Angola. Ficámos no BCP 21, o melhor quartel, na zona de Belas. Cimentámos e tratámos a zona em volta e nem parecia cenário de guerra.

Quando chegaram os combates é que foi mesmo doloroso. Na Guiné era pior, morria mais gente. Mas em Angola era doloroso, porque havia muitas dificuldades. O inimigo estava bem preparado, tinha uma táctica de lógica e estava sempre à nossa espera. Chamavam ‘passarinhos do ar’ à nossa companhia e mal nos viam, atiravam, pois sabiam que não brincávamos em serviço. Na verdade, tínhamos medo, éramos todos muito jovens.

Nos combates corpo a corpo era ainda pior. Até uma tarefa tão simples como ir ao rio buscar água, fundamental para a nossa sobrevivência, era um risco. Íamos três e de repente vinham os ‘turras’ e era o salve-se quem puder. Ali, valia a lei da sobrevivência.

Felizmente, nunca fui ferido e digo assim porque era mesmo uma sorte. O meu comandante foi ferido no norte de Angola e estava perto de mim. Eu tenho só um problema no músculo da perna por causa de um salto, mas foi num acidente a saltar do avião.

Um companheiro de infância, que para mim era como um irmão, ficou só com metade do corpo. Eu assisti àquilo. Lembro-me também de ter sido excluído de uma missão, uma emboscada, porque ressonava. Emprestei a mochila a um camarada e quando voltou estava toda furada de estilhaços de granada.

Às vezes ficávamos debaixo de fogo. Tiroteio, rajadas. Não durava mais de uns minutos, mas parecia uma eternidade.

Fui pela pátria e até gostei de jurar bandeira, mas no terreno era a vingança que nos movia. Quando fui nem sabia ao que ia, só depois descobri em Angola a guerra. Em causa estavam interesses económicos e fomos lá para os proteger. Antes de ir, sabia lá que havia petróleo, ouro e diamantes em Angola?

SALTAR PARA O INFINITO

Mas ainda assim foram bons tempos. Saltar era bonito. Não me lembro do primeiro salto de pára-quedas e não acredito que alguém seja capaz de explicar a sensação. Por muito que os monitores em terra digam o que vai acontecer, eles próprios não sabem. Agora, se me perguntar para explicar como foi o 2º, 3º e 90º salto, posso contar-lhe com detalhes. Sair para a imensidão, aquela paisagem diferente de tudo o que conhecíamos, era bom. Claro que havia missões complicadas. Enviavam-nos com comida para três ou quatro dias e ficávamos oito. Mas era bonito. E quando regressei à vida civil, continuei a saltar. Até comprei o meu próprio pára-quedas. Dois mil dólares (1510 euros) pelo equipamento completo.

Em Angola havia muita camaradagem. E sim, onde estivesse a melhor comida, era onde nos encontravam. E eu, sempre brincalhão, nunca tive problemas de popularidade.

Voltar foi difícil. Não estou traumatizado, pois não acredito nisso, mas sofri muito quando regressei. Não reconhecia a casa da minha mãe, em Almada, e até o barulho dos carros fazia–me confusão. Foi complicado. Depois habituei-me como todos os outros.

Regressei à profissão de soldador naval, em Cacilhas. Casei, fui para o Canadá, tive dois filhos, separei-me. Pratiquei futebol e boxe, mas sabia que isso não tinha futuro e entrei na marinha mercante. Ali vivi. Dei quatro voltas ao Mundo, fui à Noruega e voltei a Angola. Agora estou reformado, em casa, com o meu canito. Acho que aqui recordei os melhores anos da minha vida!

Fonte: Correio da Manhã

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