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Savimbi: Monstro para uns, génio para outros

Para uns, Jonas Malheiro Savimbi foi um verdadeiro monstro. Para outros, Savimbi foi um génio, inteligentípor,  Savimbi como uma frente unida de convenciessimo, altamente injustiçado, e cuja memória tem que ser preservada a todo custo. A verdade, como dizia um escritor irlandês, nunca é pura e simples:

Jonas Malheiro Savimbi foi uma personagem altamente complexa.

Romancistas acabam de ter, nele, uma verdadeira mina de ideias; os historiadores também poderão dissecar, sempre, vários aspectos da sua vida. Os que conheceram o falecido líder do Galo Negro de perto estarão, de aqui a nada, a preparar as suas obras. O próprio Jonas Savimbi escrevia bastante: uma boa parte dos seus escritos está espalhada por todo o lado; no futuro poderá mesmo haver uma colecção capaz de espicaçar a curiosidade de muitas pessoas.

Vamos, então, tentar ver Jonas Savimbi em três vertentes: como estratego, líder político e intelectual.

O objectivo final de Jonas Savimbi sempre foi claro: ele queria atingir o poder, ser presidente de toda Angola. Ele nunca defendeu a divisão do país; mesmo Cabinda, para ele, tinha sempre de fazer parte da nação angolana.

De 1975 a 1991, pode-se dizer que a estratégia de Savimbi tinha dois eixos
– sobreviver aos assaltos das forças governamentais no terreno e criar alianças com quem nutria o mínimo de rancor para com o governo do MPLA. A aliança com o regime do apartheid da África do Sul, que chocava com uma certa retórica pan-africanista, defendida por certos círculos da UNITA, seria justificada por Jonas Savimbi como uma frente unida de conveniência.

Quando alguém se está a afundar, dizia Savimbi, não pergunta se a mão que chegou para o salvar pertence ao Diabo. Ele foi, então, mostrando um certo pragmatismo e correndo certos riscos.
Em 1984, Jonas Savimbi foi o único líder africano presente na tomada de posse do presidente Pieter W. Botha. O então líder da SWAPO, um velho amigo de Savimbi, comparou-o a Quisling, o político norueguês, que, na Segunda Guerra Mundial, pactuou com os nazis.

Savimbi calculou que ser mal visto pelo resto do continente africano não era um custo tão elevado comparado com os ganhos que iria obter na aliança com a África do Sul. Entretanto, ele pegou em vários dos seus brilhantíssimos diplomatas para convencer as lideranças africanas em como ele continuava a ser um pan-africanista. Estava-se no meio da guerra fria; a UNITA, cuja inspiração doutrinária foi sempre o Maoísmo, aparece, então, na vanguarda da luta contra o Comunismo.

Em 1985, na Jamba, no sul de Angola, vários grupos anticomunistas (incluindo afegãos) apareceram numa grande conferência em que se cantou hossanas ao mercado livre. Diz-se que, no dia seguinte, num comício dirigido aos habitantes da Jamba, Jonas Savimbi denunciou os anticomunistas que tinham estado lá como um bando de burgueses que eram lacaios dos americanos. Havia, aqui, estratégias e tácticas que para um observador de fora não pareciam ser coerentes, mas que contavam muito para Savimbi.

Em 1986, ele seria convidado a ir à Casa Branca – uma honra que não estendida a muitos chefes de estados que tinham sido reconhecidos pelas Nações Unidas.

Em termos de estratégia, que incluiu a guerra, até 1991, tudo parece ter corrido muito bem para Jonas Savimbi. Com o fim do apartheid, ele chegaria a reconciliar- se com figuras do ANC.

No continente negro, ele reforçou os seus laços com certas figuras na África Ocidental. Mas havia uma componente que militava contra as conquistas de Jonas Savimbi.

Tem-se, por aqui, mais uma outra grande contradição de Savimbi – a sua incapacidade de estabelecer laços profundos com vários líderes do seu próprio movimento.

De 1979 a 1990, ele adoptaria na UNITA uma estratégia de neutralizar os seus rivais; certos deles, como Jorge Ornelas Sagumba, o então Secretario dos Negócios Estrangeiros da UNITA, seriam mortos. Savimbi admirava quadros brilhantes – comandantes que, no terreno, eram competentes e conseguiam concretizar as suas orientações. Muitos eram promovidos e louvados. Mas havia vezes que Savimbi pensava que fulano de tal deveria ser humilhado um pouco porque, segundo ele, tinha-se, sempre, que saber quem é que mandava. Vários líderes da UNITA periodicamente passavam pelas cadeias ou eram humilhados publicamente.

Cada acção, como se diz, tem a sua reacção: os humilhados de Savimbi estavam à espera do seu dia. Em 1991, quando a UNITA vai para as cidades, ele concedeu uma entrevista em que diz que não gosta das cidades por causa do barulho. Havia, também, a questão do controlo dos quadros nas cidades; Savimbi já não podia mandar para a cadeia os que lhe irritavam. Savimbi passou, então, a saber o que significava não ter o poder absoluto. Por isso, é que terá mesmo rejeitado os resultados eleitorais, porque nunca concebera uma sociedade em que ele não seria o poder absoluto.

Como líder político, houve fases em que Savimbi chegou a ser excepcional. Um líder, como notado por um anónimo, é alguém que dá uma certa vida às aspirações dos outros. Savimbi liderava com exemplos: vivia nas matas – com certos privilégios – mas essencialmente perto dos seus seguidores. Havia momentos em que tudo parecia estar perdido mas ele dava a entender que se so seguissem, iriam, um dia, fazer parte de um esforço colectivo que teria então triunfado. Muitos dos seguidores de Savimbi, que eram de origem camponesa, se identificavam com a doutrina de Mao, que enaltece o campo. Savimbi passou, então, a criar escolas e a promover seminários que promoviam a sua versão do Maoísmo.

Como líder, Savimbi passou a ter duas grandes falhas. Primeiro, tinha a tendência de gerir minuciosamente tudo o que acontecia no partido: nada lhe escapava; havia diversos serviços de inteligência que, entre várias funções, espiavam outros serviços de inteligência, mas todos os relatórios acabavam na sua mesa. Ele sabia tudo. O resultado é que, a um certo momento, o engajamento dos quadros enfraqueceu. Segundo, a existência de tantos serviços de segurança criou um clima de desconfiança. Para muitos quadros, ir às cidades em 1991 foi um grande alívio.

Finalmente, vejamos Savimbi como intelectual. O falecido líder da UNITA sempre rodeou-se de livros. Ele era um leitor ávido de obras políticas em Francês, Inglês e Português. Ele encorajava as pessoas a cultivarem-se lendo livros e escutando, avidamente, todos os noticiários. Uma boa parte do orçamento da UNITA ia para a formação dos quadros espalhados por várias partes do mundo.
A grande falha de Savimbi é que ele valorizava o saber e conhecimento técnico desde que ele fosse utilizado para a realização do seu objectivo supremo na vida – ser presidente de Angola.

Fonte: Semanário Angolense

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