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‘Aristides fez a ponte entre George Bush e José Eduardo dos Santos’

Depois da morte de Amílcar Cabral, as contradições entre cabo-verdianos e bissauguineenses no PAIGC não pararam. Luís Cabral propôs a Aristides Pereira o lugar de Presidente da Guiné, numa tentativa de manter unidos os países e a luta, a resposta foi a que está no título desta entrevista, revelada por José Vicente Lopes, jornalista, escritor e investigador cabo-verdiano que acaba de lançar o livro “Aristides Pereira, Minha vida, nossa história”, saído de meses de conversa com o antigo Presidente de Cabo Verde. Angola ocupa um bom pedaço do livro e o autor abre-nos aqui pequenas fendas na cortina, que revelam a relação de Aristides com os políticos angolanos


Qual é o lugar de Aristides Pereira no imaginário e na memória dos cabo-verdianos, quando parece que a figura de Amílcar Cabral ainda preenche todos os espaços?

Tendo sido Presidente da República durante os primeiros 15 anos da independência (1975-1991), o homem que sucedeu a Amílcar Cabral no comando do PAIGC, o lugar de Aristides Pereira na história de Cabo Verde é grande. Em resultado da forma como exerceu esses papéis, ele deixou a ideia de um homem sereno, discreto e sobretudo moderado.

O facto de ter deixado a vida política em 1991, quando perdeu as primeiras eleições presidenciais livres e directas em Cabo Verde, contribuiu, por um lado, para aumentar o respeito que as pessoas tinham por ele, mas fez também, por outro, com que fosse esquecido ou até ignorado pelas novas gerações. Por isso, este livro-entrevista está a ser uma revelação para muita gente. Mesmo as pessoas mais chegadas a Aristides estão surpreendidas com algumas revelações tanto as de natureza pessoal como as de natureza política.


Cabo Verde já homenageou devidamente o seu primeiro Presidente? Pergunto se há praças e instituições com o seu nome, por exemplo?

Por diversas vezes o PAICV, pelo menos, homenageou em vida Aristides Pereira. E, mais recentemente, com o seu falecimento, o Aeroporto da Boa Vista, sua ilha natal, passou a ter o nome dele por iniciativa do Governo. É o mínimo que se podia fazer pela memória dele.


Como foi que Aristides Pereira reagiu à cisão entre Cabo Verde e a Guiné-Bissau, depois de uma luta em conjunto e depois de se ter criado o ideal de uma pátria única?

O golpe de Estado na Guiné, em 1980, era previsível. As contradições vinham, pelo menos, desde 1973, quando Amílcar Cabral é morto, escapando o próprio Aristides por um triz. No início do golpe de 1980 ele confessa que ainda pensou remediar a situação, através de um encontro com Nino Vieira, que não se efectivou. Consumado o golpe, cada um dos dois países seguiu o seu rumo. Da sua parte, o meu entrevistado congratula-se com os resultados obtidos em Cabo Verde e lamenta, no que toca à Guiné, o que viria a acontecer a esse país, que ele considerava a sua segunda pátria, cuja situação de crise se arrasta até hoje.

Aliás, neste particular, a Guiné e Cabo Verde são dois claros exemplos do papel das lideranças em África.

Há 40 anos atrás, quando os dois países se tornam independentes, a Guiné aparecia com muito mais potencialidades para ser um Estado bem sucedido, no entanto, é Cabo Verde que se sai melhor no balanço. A diferença estava, em grande parte, no nível dos dirigentes dos dois países.


Aristides falou-lhe do “clima” da sua relação com Nino Vieira?

As relações entre os dois tiveram dois momentos, antes e depois do golpe de 1980, para não recuar mais atrás. Inicialmente a estima de Aristides por Nino era grande, mas ela vem a esmorecer por causa da conduta moral de Nino. Aliás, a forma como este morreu é vista por Aristides como o resultado das contradições que Nino foi acumulando ao longo da vida.

 

‘Motim de 20 de Janeiro de 1973, em Conakry, foi, fundamentalmente, contra a ala cabo_verdiana do PAIGC’

“Por ser mestiço claro (ao contrário do Amílcar), Luís era visto pelos seus adversários guineenses como um cabo-verdiano. Luís também se “assumia” como guineense, o que levava os cabo-verdianos, por seu turno, a desconfiarem dele”.
Há uma passagem do seu livro que diz que “Cabral sentia-se guineense”. Esta revelação pode espantar algumas pessoas, quando a história apresenta Cabral como guineense e como alguém que lutou pela Guiné.

Há alguma coisa mais que isso?

É preciso ter em conta o seguinte: Amílcar Cabral nasceu na Guiné, filho de pais cabo-verdianos, foi trazido criança para Cabo Verde, indo depois estudar em Portugal no início da idade adulta, onde conhece Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Lúcio Lara, Marcelino dos Santos, só para citar estes. Portanto, o seu contacto com a Guiné acontece com ele já homem feito, aos 28 anos, antifascista e anticolonialista, mas moldado também, convém não esquecer, nos valores da cultura cabo-verdiana.

Se se quiser, Amílcar Cabral era um homem de dois mundos, Guiné e Cabo Verde, pondo-se por isso este problema de identidade: como é que ele se via a si próprio num partido binacional? Diante da pergunta, Aristides Pereira responde que Amílcar “sentia-se” guineense, sem porém deixar de lado o facto de ser, ao mesmo tempo, um “cabo-verdiano especial”. Precisamente, por “ser” caboverdiano ele é assassinado. O motim 20 de Janeiro de 1973, em Conakry, foi, fundamentalmente, contra a ala cabo-verdiana do PAIGC.

Aliás, na mesma situação, e por maioria de razão, estava o meio irmão Luís Cabral: este também nasceu na Guiné, filho de um caboverdiano e uma portuguesa, que veio bebé para Cabo Verde e regressou adulto para a Guiné. Por ser mestiço claro (ao contrário do Amílcar), Luís era visto pelos seus adversários guineenses como um cabo-verdiano.

Luís também se “assumia” como guineense, o que levava os caboverdianos, por seu turno, a desconfiarem dele. Achavam, no fundo, que era um “cabo-verdiano” que estava a negar as suas origens crioulas.

Embora comezinhos, estes são problemas que, a partir de uma certa altura, ganham particular força dentro do PAIGC, instigado em grande parte pelo governador António de Spínola. Tanto é assim que é o próprio Aristides Pereira a confessar que no meio dessa tensão ele é escolhido para suceder a Amílcar Cabral por ser o “único”, entre os seus pares da direcção do partido, que se assumia claramente como cabo-verdiano, só que um cabo-verdiano que não estava minimamente interessado em “mandar” na Guiné. Por causa disso, já depois da morte de Amílcar, e desafiado por Luís Cabral para ser Presidente da Guiné, ele, Aristides, recusa, liminarmente. “Nem pensar!”, foi a reacção dele, alegando que estava na luta “por” Cabo Verde.

É diante dessa recusa que Luís Cabral vem a ser o primeiro chefe de Estado da Guiné-Bissau, entre 1973 e 1980.
Outra passagem fala da “Grande maçonaria”. Para quem não tenha lido o livro, e saiba da actualidade noticiosa portuguesa e das ligações entre Cabo Verde e Portugal… Cabo Verde tem uma maçonaria forte?

Aristides usa apenas o termo maçonaria como “força de expressão”. Segundo ele, países como Cabo Verde, ao se tornarem independentes, indispõem de imediato o Ocidente que, nestas coisas, funciona como “uma grande maçonaria”. Portanto, a polémica surgida em Portugal mais recentemente, já depois da morte dele, não é para aqui chamada.

‘Aristides Pereira era um político sem vocação política’


Como era Aristides Pereira, um homem sorridente, afável e de conversa fácil, ou tinha a alma perfeitamente reflectida nas fotografias que mostram um homem algo amargo, introvertido?

Antes de responder à pergunta, permita-me que lhe diga o seguinte: Aristides Pereira era um político sem vocação política. Estava na política, quanto a mim, por dever e obrigação. Ele assume o comando do PAIGC com esse espírito e com esse espírito se mantém no poder até 1991. Tanto assim que, por duas vezes, ainda no partido único, em 1985 e em 1990, ele chega a manifestar aos seus pares o desejo de deixar o poder, seguindo, se se quiser, o exemplo de Léopold Senghor, o único caso de renúncia politica em África até àquela altura. Mas o problema, segundo ele, com a sua retirada, em 1990, estava em quem passaria a ser o número 2 do regime, se Silvino da Luz (ministro dos Negócios Estrangeiros), ou João Pereira Silva (ministro do Desenvolvimento Rural e Pescas), já que Pedro Pires (primeiro-ministro), seria o sucessor natural dele no partido e na chefia de Estado, embora eu aqui entenda que este tinha à perna Abílio Duarte (presidente do Parlamento). Ora, na falta de consenso em torno do tal número 2, Aristides deixou-se ficar até 1991. Por isso é que ele confessa no nosso livro que perder aquelas eleições foi para ele um alívio, podia finalmente ir cuidar da própria vida, dos familiares, etc. Portanto, é neste quadro que temos de ver e situar Aristides Pereira.

Quanto à pergunta propriamente dita, entendo que Aristides Pereira era um indivíduo reservado, introvertido, por isso com problemas de comunicação, mas uma vez quebrado o gelo com o seu interlocutor, tornava-se num homem afável, bem-humorado e sorridente. Nos últimos cinco anos do seu consulado ele torna-se num homem de semblante carregado, esse foi, seguramente, o pior período da vida dele como político, era um homem solitário, perdido no seu labirinto.

Só depois de deixar o poder é que ele volta a ser a mesma pessoa tranquila, sorridente, feliz consigo próprio, apesar dos inúmeros desgostos de ordem pessoal… Sentia, no fundo, que tinha cumprido a sua obrigação de combatente e estadista e voltava a ser o cidadão comum.

Só para ilustrar o que acabo de dizer, várias vezes, cheguei a me cruzar com ele num supermercado aqui da Praia, ele a fazer as suas compras sozinho, como o mais comum dos mortais – outro que assim procede – devo dizê-lo em nome da justiça – é o seu sucessor, António Mascarenhas Monteiro (1991-2001), que também tinha em comum com o Aristides o facto de não se considerar um político.

Neste aspecto entendo que Aristides Pereira era um homem raro em África. Isto é, como é que um político sem especiais qualidades políticas se torna num dos dirigentes mais respeitados do continente no século XX ao lado de Senghor, Nyerere e até de Mandela, que é hoje o paradigma para nós todos? Também Mandela cumpriu um mandato, ajudou a fazer a transição e retirou-se da cena política. Em 50 ou mais anos de independência, em África, são muito poucos os políticos que seguiram por essa via. No Gana, Kwame Nkrumah armou-se em “osagiefo” (Deus), até lhe derem o golpe, indo morrer triste na Guiné Conakry.


Quantas conversas com Aristides lhe “custaram” o livro?

Eu e ele falamos vários meses, ao longo sobretudo de 2003. Normalmente, nos encontrávamos aos finsde-semana, conversámos cerca de duas horas por sessão. Depois disso, houve vários outros momentos ao longo dos anos para acertos de pormenor e não só. Ao mesmo tempo que recria o seu percurso pessoal, do seu nascimento em 1923 aos dias de hoje, ele conta a história desse período, daí o título “Aristides Pereira, Minha vida, nossa história”. Ao todo são mais de 30 horas de gravação.


Os familiares opuseram-se a alguma passagem do livro?

Não, tudo foi tratado directamente entre nós dois, Aristides e eu. Aliás, da parte dos familiares dele, só tenho a agradecer. Houve informações suplementares, uma ou outra foto que me cederam sem qualquer problema.


O PAICV de hoje é muito diferente do de Aristides Pereira?

Com certeza. Antes de mais, deixou de ser partido único, tem de disputar o poder, por vezes, num quadro de extrema dureza com o seu principal adversário, o MpD. Ao cabo de 15 anos de mono partidarismo, de 1975 a 1991, o PAICV esteve 10 anos na oposição, regressou ao poder em 2001 agora sob a liderança de José Maria Neves, estando no seu terceiro mandato, este último conquistado em Fevereiro do ano passado. Ou seja, é uma outra geração, por isso é também outro o PAICV, muito embora os seus adversários prefiram entender o contrário.

 

‘É também Aristides quem faz a ponte entre José Eduardo dos Santos e George Bush (pai)’

Que passagens do livro acha que poderão interessar, ou mesmo surpreender os angolanos?

São várias. Angola é um país muito presente. Aristides Pereira manteve uma relação fraterna com Agostinho Neto, que prosseguiu depois com José Eduardo dos Santos num outro nível, talvez de irmão mais velho e irmão mais novo. Graças a isso, ele pôde, em vários momentos, agir a favor de Angola, em particular do MPLA.

Por exemplo, foi ele quem faz a aproximação entre Neto e Senghor em 1979, em Monróvia, e depois entre José Eduardo dos Santos e Abdou Diouf, em 1981, na Cidade da Praia. Nessa altura o Senegal era dos poucos países africanos a não reconhecer a RPA (República Popular de Angola), mas, com a mediação de Aristides, Dakar acaba por mudar de posição.

É também Aristides quem faz a ponte entre José Eduardo dos Santos e George Bush (pai), no tempo em que este era ainda vicepresidente dos EUA. O primeiro dos vários encontros entre Aristides e Bush acontece, na ilha do Sal, a 10 de Novembro de 1982. É depois disso que surgem ou são retomados os contactos secretos entre Angola, África do Sul e EUA, que vão desembocar na retirada das forças sul-africanas e cubanas de Angola, bem como na independência da Namíbia e, se quiser, no fim do apartheid na África do Sul. Sempre na busca da paz em Angola, Cabo Verde também chegou a receber, secretamente, emissários da UNITA, dois deles foram Tony da Costa Fernandes e Alicerces Mango, por exemplo.

Estes e outros episódios estão no livro. E bom seria que esta história, relativa ao processo da pacificação da África Austral, fosse contada um dia com mais pormenor e acerto.

Como é que um país politicamente irrelevante, para não dizer inexistente, na arena internacional, consegue dar um contributo tão valioso para a paz na África Austral? Tudo, acredito, graças a Aristides Pereira.

Tem planos para a venda do livro em Angola?

O livro, por enquanto, apenas está à venda em Cabo Verde. É claro que há sempre formas dele chegar aos angolanos interessados.


O título do livro “Aristides Pereira, Minha vida, nossa história” … Cabo Verde e os PALOP têm uma história que se confunde com a vida de Aristides?

Ou seja, até que ponto Aristides moldou o Cabo Verde de hoje? No caso de Cabo Verde a acção ou a influência pessoal e política de Aristides Pereira é clara. Com a sua moderação ajudou a conter certos excessos revolucionários em voga naquela altura. Ele era um homem mais preocupado com a realidade do que com a ideologia, nunca quis ser um Marx ou Lenine de Cabo Verde e muito menos de África. Governar, para ele, era uma questão de bom senso. Foi um homem isento de erros? É claro que não, e é ele próprio a admiti-lo. Dos regimes autoritários restam sempre ressentimentos, que o tempo se encarrega ou não de curar. Aliás, o próprio Aristides lamenta que Cabo Verde não tenha abraçado mais cedo o multipartidarismo, respondendo a um anseio dos cabo-verdianos.

Em relação aos demais PALOP, embora discreto, o papel de Aristides junto dos seus pares, especialmente de Agostinho Neto, Samora Machel e José Eduardo dos Santos foi apreciável. Todos o viam como um homem sério, ponderado, o conselheiro que não deviam ter. Um dia, talvez, venhamos todos a conhecer com mais pormenor e acerto o que ele fez ou deixou de fazer em prol dos nossos povos e países. Para já, no álbum comum dos nossos povos e países Aristides Pereira fica bem na foto.

 

Fonte: O Pais

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