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Primeiro velório público em construção na Sant’ana

O primeiro velório na capital está a ser erguido junto ao cemitério da Sant’ana, no distrito do Kilamba Kiaxi, em Luanda, no âmbito de um projecto do Executivo local que vai abranger os setes municípios da província, criados de acordo com a nova divisão administrativa.

O responsável dos Cemitérios em Luanda, Filipe Mahapi, disse a este jornal que a construção do primeiro velório representa igualmente o início do projecto, mas quando terminar, a estrutura junto a Sant’ana vai funcionar como a principal unidade a nível da província nesta primeira fase.

Dentro de alguns meses, os interessados em realizarem o velório dos seus parentes poderão deslocar-se às instituições do Governo Provincial de Luanda para marcarem o acto de despedida. Os valores vão ser estabelecidos posteriormente, segundo apurámos junto de entidades ligadas ao referido projecto, que deverá estender-se aos outros municípios.

De acordo com o director das Obras Públicas de Luanda, Torres Bonga, todo e qualquer investimento efectuado requer rendimentos. Por isso, depois da conclusão daquilo que será o velório provincial de Luanda será feito um estudo sobre a taxa que será cobrada às pessoas que pretendam velar os seus ente-queridos naquele novo espaço.

Apesar desta inovação, algumas correntes acreditam que o surgimento do Velório Provincial de Luanda poderá chocar com alguns rituais.

O antropólogo Malamba Cristóvão considera que isso pode provocar um “choque com a cultura africana, amputando toda a relação que existe entre o vivo e o falecido”.

Ele acredita que na cultura angolana em particular os falecidos servem de elo na relação de um ser vivo, neste caso o parente do falecido com Deus. Neste caso, o morto passa ser um intermediário na relação, segundo Malamba Cristovão.

“Estas obras são benéficas no ponto de vista económico. Economiza tempo, material, mas numa perspectiva cultural só há desvantagens”, defende o antropólogo, acrescentando que “só se fez um estudo sociológico, mas não teve uma intervenção antropológica que não concorda com este tipo de projectos porque vai criar uma limitação no convívio de despedida do ente querido”.

Cristovão pensa que quando um individuo morre a família angolana tem um ritual a fazer, que merece respeito e um bom tratamento segundo a cultura nacional.

O estudioso conta que nos grupos como bakongos, umbundus e nganguela os homens em vez de intercederem directamente com Deus antes falam com os seus antepassados.

Acredita-se que sejam os falecidos que pedem ao criador o desejo dos parentes que ainda estão em vida.

Segundo ele, existem etnias onde são feitos rituais aos homens assim que nascem e o processo é testemunhado por muitas pessoas. “Quando o homem que realizou o ritual morre é imperativo que todos que beneficiaram do seu ritual estejam presentes no seu enterro”, acrescentou.

Malamba Cristovão defende que se faça a modernização sem que se separe o tradicional do moderno, porque estamos a ser aculturados por outras entidades.

O antropólogo acha que “o africano não tem este hábito de realizar o acto de velório. Isto é coisa do ocidente onde todo mundo é limitado”.

Segundo Cristovão, “o povo angolano é mecânico e não automático em relação a outras sociedades. A presença desta instituição afecta o lado emocional e psicológico do homem que perde o parente”.

O indivíduo que perde um membro da família, de acordo com o antropólogo, quer exprimir os seus sentimentos da sua forma, chorando explosivamente e não limitado como se vê no velório. Por isso, remata que quando se projectou a sua construção não se fez uma pesquisa cultural e emocional da população.

Fonte: OPAÍS

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