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As milícias que derrubaram Khadafi ameaçam as esperanças de uma nova Líbia

As violações de direitos humanos cometidas “com toda a impunidade” por diferentes milícias ameaçam a “nova Líbia” que deveria surgir com a vitória da revolta contra Muammar Khadafi.

O aviso é feito pela Amnistia Internacional num relatório publicado no primeiro aniversário do levantamento popular que começou na cidade de Bengazi, no Leste do país – e terminou em Outubro, com a captura e morte do ditador. As mesmas milícias que se formaram para derrubar Khadafi põem agora em causa o futuro.

“Há um ano, os líbios arriscaram a sua própria vida para reclamar justiça. Hoje, as suas esperanças são ameaçadas por milícias armadas sem lei que pisam os direitos humanos com toda a impunidade”, afirmou Donatella Rovera, conselheira especial da Amnistia para as crises e conflitos, na apresentação do relatório.

O número real de milícias existentes em todo o país é desconhecido. Um relatório do “think tank” International Crisis Group diz que tanto podem ser 100 como 300 – no mínimo, há 125 mil líbios armados, organizados por cidades ou bairros. Em princípio, todos deveriam responder ao Conselho Nacional de Transição, formado durante a guerra para organizar a oposição (e que continuará no poder até às eleições de Junho), mas afirmam obedecer apenas aos seus comandantes locais.

O grande fracasso do CNT é precisamente o desarmamento destes grupos. Na ausência de um verdadeiro Exército nacional, a segurança das próprias instalações de Estado continua a ser assegurada por estes homens, que não raras vezes se envolvem em confrontos mortíferos. O novo Exército deveria ser formado a partir das milícias, mas só 10% dos combatentes aceitaram integrá-lo.

No início da semana, representantes de cerca de 100 milícias do Ocidente do país anunciaram ter formado uma federação para prevenir o combate entre grupos. Mas os líderes destes grupos não reconhecem o CNT: “Não nos revoltámos contra Khadafi, mas contra um regime corrupto. Não vamos baixar as nossas armas enquanto não tivermos a certeza de que a revolução vai no caminho certo”, afirmou numa conferência de imprensa Ibrahim al-Madani, comandante de uma das brigadas que se uniu à nova federação.

O líder desta federação, o coronel Mokhtar Fernana, disse à Associated Press que o CNT “está a tentar sequestrar a revolução” e acusou as novas autoridades de aceitarem homens que defenderam o regime nas novas forças de segurança – que deveriam integrar todas as milícias.

Tortura e pilhagens

Donatella Rovera apelou à realização de inquéritos aos “graves abusos”, incluindo “crimes de guerra contra alegados partidários de Muammar Khadafi”, cometidos por estes grupos. Segundo a Amnistia, muitas “pessoas foram detidas ilegalmente e torturadas, por vezes até à morte”.

“A maior parte das milícias na Líbia está fora de controlo e a impunidade generalizada de que gozam só encoraja mais violência e perpetua a instabilidade e a insegurança no país”, disse Rovera.

A Amnistia fala em particular dos casos de “refugiados africanos tomados por alvo [por suspeitas de que combateram por Khadafi] e contra os quais foram cometidas represálias” e “casos de vinganças que significaram o deslocamento forçado de comunidades inteiras”. O relatório cita os habitantes de Tawergha, a sul de Misurata, no Ocidente do país.

Tawergha foi usada como base para as forças de Khadafi que a partir daí atacavam Misurata. Segundo a Human Rights Watch, os rebeldes de Misurata pilharam e destruíram as casas dos habitantes e desencadearam uma campanha de ataques e detenções arbitrárias. Quem vivia em Tawergha está agora em campos de refugiados na região.

Entre Janeiro e Fevereiro, os delegados da Amnistia visitaram 11 centros de detenção controlados por ex-rebeldes e ouviram dos presos descrições de “tortura e maus-tratos”. “Estes prisioneiros mostraram ferimentos resultado de maus-tratos recentes”, descreve o relatório, e muitos disseram ter confessado assassínios que não cometeram “só para pôr fim à tortura”. “Pelo menos 12 pessoas detidas por milícias morreram desde Setembro, depois de terem sido torturadas.”

Fonte: Públuco

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