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Recolha de plástico e garrafas dá dinheiro

Apanhar garrafas de plástico ou de vidro é uma actividade que muitas mulheres adoptaram para sustentar as famílias. Nos locais onde existem lixeiras, lá andam elas à procura de plástico e vidro que depois vendem em armazéns especializados ou revenderem o “vasilhame” recuperado do lixo.

O dia estava bem quente e um menino que aparentava ter nove anos, aproximava-se com um enorme saco de serapilheira. Rodrigo Maria estava acompanhado da mãe Vera Maria. Os dois estavam concentrados na tarefa de recolher garrafas e bidões abandonados numa lixeira nas imediações da FTU, na Estrada de Catete.

Rodrigo Maria é um menino corajoso. Revolve o lixo sem qualquer protecção. Quanto mais bidões e garrafas vazias recolher naquela montanha de lixo, mais
dinheiro rende o negócio de sua mãe. Assim é o quotidiano de Rodrigo Maria e de outras crianças, uns voluntariamente e outros por imposição dos pais. Têm de trabalhar para ajudar nas despesas da casa. Na zona da FTU há dezenas de mulheres a recolher bidões e garrafas de plástico ou vidro.

Muitas andam de porta em porta a saber se não há vasilhame de tara perdida para recolher. É melhor apanhar as garrafas, garrafões e bidões nas casas do que na lixeira. Vera Maria já tem mais de 40 anos.
Tornou-se chefe de família muito cedo, após a morte do marido. Tem oito filhos e sobrevive do que apanha no lixo. Ela própria diz que exerce a profissão de “apanhadora de garrafas”.

Mas há quem lhes chame “catadoras” de lixo. Andam de lixeira em lixeira a “catar” os resíduos que ainda têm algum valor e que a sociedade de consumo rejeita. Vera Maria explicou à nossa reportagem que é “apanhadora” há seis anos: “recolho os bidões de água mineral para vender bebida alcoólicas caseiras e as garrafas de vidro para vender petróleo”.

Este não é um grande negócio, continuou, mas dá para sustentar a família. “Os bidões de cinco litros dão muita ajuda, principalmente para nós. Somos muitas mulheres neste ofício, já não conseguimos fazer trabalhos domésticos na casa das pessoas porque é pesado, caminhamos para a velhice. E como as mulheres arranjam sempre uma forma de sobreviver, está foi a que encontramos”, disse Vera Maria.
O trabalho de apanhar garrafas é feito por mulheres com idade superior a 40 anos, que anteriormente eram trabalhadoras domésticas. Hoje, sem força, encontraram nesta actividade um meio para “as panelas não entrarem de férias” e a barriga ficar a dar horas.

Chico Garrafa

Na área da FTU há muita gente a “catar” garrafas e garrafões nas pequenas e grandes lixeiras. Normalmente actuam de noite, depois do comércio informal “fechar as portas”. A recolha de garrafas e garrafões de vidro ou plástico não tem limites.

Tanto poder ser feita na Baixa como nos bairros periféricos de Luanda. Onde há gente, há lixo, por isso, as “apanhadoras” encontram sempre mercadoria. Ao fim do dia, é fácil encontrar bidões de cinco litros de água mineral, garrafas de todos os tamanhos em vidro ou plástico, às portas das lojas, dos armazéns, das cantinas ou nas “bancas” dos mercados informais.

Um “catador” que trabalha na zona da Ilha do Cabo ganhou o nome de Chico Garrafa. Ele acorda às cinco da manhã para recolhar as garrafas de água mineral nas lanchonetes, bares e restaurantes. Vende cada garrafa pequenasde água mineral a dez kwanzas e as grandes a 50 kwanzas.

“Tenho 68 anos. Não tenho idade nem força para trabalhar. Vi neste ofício um meio de subsistência. Sou amigo dos chefes de cozinha de quase todas as casas nocturnas aqui na Ilha e peço-lhes para não deitarem as garrafas para o lixo. Logo amanhece vou com um dos meus filhos recolher a mercadoria e muito vasilhame acabo por vendê-lo às mulheres que negoceiam em combustível”. Chico Garrafa revelou à nossa reportagem que num mês faz 20 a 30 mil kwanzas, devido ao número de garrafas que recolhe na Ilha do Cabo.

Muitas mulheres vão à Funda comprar o maruvo para revender. Estas também compram o vazilhame. A comerciante Susana Feliciano, de 26 anos revela o circuito comercial: “nós compramos maruvo na Funda. Lá as pessoas já reservam o recipiente que trazemos cheio”.

Questionada se as garrafas estão em condições de higiene para receber bebidas, Susana Feliciano respeondeu: “nós temos o cuidado de lavar bem as garrafas. Só depois é que cengarrafamos o maruvo. E ainda não tivemos reclamações de pessoas que tenham ficado doentes por causa das garrafas”, disse acrescentado que há uma grande procura de maruvo no mercado.

Donas do lixo

As mulheres que “catam” garrafas, garrafões e bidões de vidro ou de plástico nas lixeiras estão familiarizadas com o “ambiente”. Elas giram a montanha de lixo e cada uma ocupa uma área para procurar o seu tesouro.
Ana Domingos cortou um dedo ao puxar um garrafão de vidro que tinha o gargalo partido. Estava difícil puxar para cima a protecção em plástico do garrafão e tirar o vidro. “Isto não é nada. Já vivemos coisas piores. Precisamos de trabalhar para poder dar de comer às nossas crianças”, disse Ana Domingos.

Para além do combustível que revende, Ana Domingos também vende garrafas a outros vendedores de bebidas. “Recolho centenas de garrafas, lavo-as bem em casa e depois revendo nos meus clientes. Desse trabalho consigo tirar o dinheiro para uma refeição por dia para a família”.

As mulheres “apanhadoras” de garrafas e outros recipientes não têm jornadas definidas de trabalho. Elas labutam até que consigam recolher um determinado número que na venda permite obter o mínimo necessário para sustentar a família. Elas trabalham com o lixo mas nunca inteferem com o trabalho das equipas de limpeza urbana.
A nossa equipa re reportagem.

interpelou um dos carros de limpeza de Luanda que trabalhava na zona dos Congoleses para saber se as “apanhdoras” têm provocado algum incomodo e a resposta foi clara: “são nossas mães e não podemos impedir que façam o trabalho delas. muitas vezes temos até ajudado a separar os bidões para elas. Mas outras vezes somos obrigados a impedi-las de aceder ao lixo porque podem contrair doenças”.

Sem medo do perigo

O que para uns dá nojo, para outros é visto como trabalho. Apesar do cheiro nauseabundo há muita gente a recolher o que para muitos já não tem valor. A venda de recipientes de plástico ou vidro permite a essas pessoas sobreviver.

Nas lixeiras as “apanhadoras” encontram garrafas de cerveja, de água, de sumo, de vinho e outros líquidos. Ana Domingos reconheceu que as “apanhadoras” e sobretudo as crianças correm o risco de contrair doenças porque se expõem ao lixo.

“Muitas de nós já apanharam infecções neste trabalho. Uma das nossas colegas até morreu. Sabemos que ao trazer os nossos filhos também colocamos em perigo a vida deles, por isso prefiro que o meu filho só carregue os sacos. Eu entro no lixo para procurar as garrafas”.

Fonte: Jornal de Angola

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