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Miró o artista que cantou a nova Angola

No coro que entoou o Hino Nacional no acto da proclamação da independência nacional, estava o músico Gonzaga Guimarães Júnior, mais conhecido por Miró. Natural de Cassualala, província do Kwanza-Norte, Miró foi um activista político e essa actividade teve reflexos na sua música.
O desejo de aprender a tocar viola, incentivou Miró a seguir a carreira artística como músico, sendo incentivado, no início de 1974 com apenas 13 anos, por músicos como Né Gonçalves e Né Correia, seus vizinhos.
Depois de aprender a tocar viola, a ânsia por uma Angola livre, inspirou o jovem a criar uma música que retratasse a independência e a liberdade dos angolanos. E com 14 anos, Miró fez a composição da letra da canção “A independência está chegando e a terra vai se resplandecer…”.
Ele começou a compor a música três meses depois do 25 de Abril, data do golpe de estado em Portugal e, em Agosto do mesmo ano, fez a primeira gravação em cassete. Fizeram parte da produção, Né Gonçalves na viola solo, Né Correia no baixo e Miró na viola ritmo, acompanhado por três coristas. Depois de gravar a música, fazia algumas apresentações esporádicas em reuniões do MPLA e com estas actuações começou a ser mais conhecido.
Miró ficou mais conhecido em Novembro de 1974, quando Lúcio Lara visitou o Bairro Popular. Houve um grande comício, com milhares de pessoas e Miro foi convidado a cantar. Lúcio Lara gostou da letra e da melodia da música. No final de 1974, gravou a canção nos estúdios da Voz de Angola que a divulgou de seguida na sua programação. Em meados de 1975, esteve em risco de perder totalmente a visão. Dois anos depois da independência, em 1977, Gonzaga Guimarães Júnior “Miró” perdeu totalmente a visão, mas para alegria dos seus fãs, prosseguiu a sua carreira musical.

A letra e a melodia

Dois dias antes da proclamação da independencia, Miró disse que tinham sido seleccionados  jovens nas escolas e outras instituições, para participar num ensaio que depois ia apurar as vozes para fazer parte do coro que na cerimónia da proclamação da Independência ia cantar o Hino Nacional.
Ao longo do dia 10 de Novembro, contou, foram ensaiados os acertos finais. Antes da proclamação os membros do coro foram levados para um estúdio da TPA onde gravaram o Hino Nacional.
Os integrantes do coro deviam levar um lenço preto e foram convocados para o Largo 1º de Maio às 21 horas. Quando faltavam cinco minutos para as zero horas, o músico recordou que a ansiedade e a emoção tomaram conta do coro. A ansiedade desmedida traiu o grupo.
“Às zero horas, quando tentámos cantar o Hino Nacional, esquecemos a letra e a melodia. Passados cinco minutos veio de uma senhora que recordou a melodia inicial do hino, e daí todos seguimos até cantar totalmente o Hino Nacional.

Miró precisa de ajuda

Em 1999, Miró lançou o disco “Saudades”, patrocinado pelo antigo governador da província de Luanda, Aníbal Rocha.
O artista tem em carteira, há seis anos, um rico projecto discográfico com dez faixas musicais, nos estilos kizomba e semba, cantados em português e quimbundo.
O artista referiu que a gravação e lançamento da obra está condicionado por falta de verbas para concretizar o projecto. Caso apareça um patrocinador, pensa fazer as produções finais em Portugal.
Funcionário do Ministério da Cultura, Miró salientou que os músicos da sua geração, principalmente os artistas deficientes, são pouco convidados para actuarem em espectáculos, “por isso temos poucas condições financeiras para editar as nossas obras”.

Aposta nos negócios

Miró apostou no mundo dos negócios e montou uma padaria. As máquinas foram uma oferta do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, há cinco anos.
Mas a falta de energia na zona do Sanatório, onde está situada a padaria, tem impossibilitado a produção normal. O músico Miró disse que para as máquinas funcionarem, “preciso de comprar um gerador de 100 Kv mas sem ajuda não consigo”.
O músico reside há 29 anos no Bairro Neves Bendinha, na casa de uma irmã, e para além da consolidação no ramo dos negócios, ambiciona continuar os estudos em Braille que por falta de transporte interrompeu há mais de dois anos.
Foi vencedor do concurso de música prémio cidade de Luanda em 1999, organizado pela Rádio Luanda Antena Comercial “LAC” com a música de estilo kizomba com o título “Eu e ela”.



Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Kindala Manuel

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