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Grande tenacidade em Cesária Évora

O continente africano ainda chora a perca de uma das suas divas, um dos seus mais destacados ícones: Cesária Évora, a “musa dos pés descalços”. Os seus dotes artísticos, durante décadas, constituíram um dos maiores orgulhos africanos. A sua forte personalidade africana um exemplo a ser seguido pela juventude, sobretudo na forma tenaz como soube resistir aos acenos milionários que lhe eram lançados da Europa. De Portugal e Franca, sobretudo.
A “africanidade” que defendeu como poucos e a sua indomável “teimosia” em se expressar em crioulo fizeram desta cabo-verdiana um dos grandes orgulhos lusófonos, sendo uma suas mais exímias representantes no contexto musical internacional.
Na hora da sua morte, a dor extravasou fronteiras e galgou continentes dando expressão à imagem que sempre teve: “Embaixadora Internacional de Cabo Verde no mundo”. Lá longe, nas terras do Mindelo, onde nasceu há 70 anos, foi também o local por ela escolhido para morrer, pois desde há muito que os médicos lhe haviam diagnosticado sérios e dificilmente solúveis problemas respiratórios e um teimoso edema pulmonar.
Os problemas de saúde de Cesária Évora começaram a agravar-se em 2010, quando depois de uma complicada operação ao coração, feita num hospital de Paris, decidiu anunciar a sua retirada dos palcos tendo optado por regressar ao “seu” Mindelo para passar os últimos anos de vida.
Ao longo da sua carreira profissional, que infelizmente começou demasiado tarde (anos 60), a cantora destacou por valorizar a morna dando-lhe uma entoação especial; que ela própria considerava ser uma mistura da percussão do Oeste de África, com os fados portugueses e “temperados” com um pouco de ritmo brasileiro.  Não obstante o facto de ter saído pela primeira vez de Cabo Verde já com 45 anos de idade, Cesária Évora, acompanhada apenas de uma guitarra, percorreu desde os 16 anos as diferentes ilhas di seu país, actuando em pequenos bares a troco de pouco dinheiro.
Foi pois com 45 anos de idade e graças à sua decisão de ter viajado para Portugal para gravar algumas canções prontamente dedicadas às mulheres de Cabo Verde, que o mundo “descobriu” o talento de Cesária Évora.
Estupefacta com o talento de cantora, o resto da Europa abriu-lhe as portas, instalando-se em Paris onde entre 1988 e 1992 gravou quatro álbuns. A partir de então a fama internacional do seu nome calcorreou o resto do mundo sendo ainda hoje recordados com saudade os espetáculos que deu no Brasil e no Canadá, para já não falarmos dos concertos na Europa e na “sua” África.

O sucesso e a importância de Cesária Évora foi tão grande e importante para Cabo Verde que o próprio governo resolveu distingui-la há pouco anos dando-lhe o direito de possuir um passaporte diplomático, uma vez que passava a maior parte do seu tempo a oferecer concertos pela Europa, África e América.
Contrariamente ao que se poderia pensar, e não obstante o facto da diáspora cabo-verdiana ser imensa e estar espalhada pelos cinco continentes, o sucesso de Cesária Évora foi a nível multilateral e intercontinental pelo que o seu desaparecimento físico, apesar de ser uma perca irreparável para África também o é para o mundo.
O seu exemplo de tenacidade e de salvaguarda dos valores africanos fizeram dela um exemplo que a nossa juventude não deve hesitar em seguir pelo que representa de afirmação e de salvaguarda dos valores do continente.
Homenagear Cesária Évora mais não é, afinal, do que homenagear o próprio continente africano de forma a reforçar o apelo no sentido de que a nossa juventude saiba ser capaz de pegar no seu exemplo e de dar continuidade ao seu trabalho de revelação do que de melhor África tem.
Numa altura em que o continente africano continua a lutar por obter um lugar na liderança partilhada de algumas das principais organizações internacionais, não será de mais tomarmos o exemplo de Cesária Évora e afirmarmos o nosso orgulho em sermos filhos de um continente que nada deve aos que se julgam no direito de impor regras, normas e costumes.
Regras, normas e costumes esses que Cesária Évora sempre ignorou assumindo-se, tão somente, como uma simples filha de África que teve a sorte de nascer num pais que se chama Cabo Verde e que teve a visão e a sensibilidade de lhe reconhecer o valor que ela efectivamente teve.
Para a posteridade ficam os inúmeros registos gravados de todos os seus imensos sucessos e o exemplo de uma trajectória de vida que ultrapassa as fronteiras da própria morte. Saibamos, pois, ser dignos do exemplo da “Diva dos pés descalços” para projectarmos cada vez mais alto os patamares que balizam o Mundo Africano.

 

Roger Godwin

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Reuters

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