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A morte anunciada das velhas profissões

Garcia Pedro, 35 anos, é sapateiro há 16. O ofício há muito perdeu o valor de outras épocas, devido ao crescimento da indústria de calçado e à sua comercialização em larga escala, mas muitos desses remendeiros continuam bater solas e cozer cabedal.
A reportagem do Jornal de Angola encontrou Garcia junto do Comando de Divisão de Polícia Nacional do Sambizanga, sentado à porta da sua sapataria, com o olhar fixo no horizonte, com saudades dos velhos tempos, em que o negócio era muito rentável.
Entre as saudades dos velhos tempos e as lamentações de hoje, explica que, hoje, a profissão de sapateiro “é um autêntico sacrifício, face à falta de materiais”.
“Vontade de fazermos mais não nos falta, mas não temos por onde começar”, diz Garcia Pedro, também conhecido por Cazuza, que se iniciou na profissão em 1995, no antigo mercado do Roque Santeiro.
Cazuza emprega seis pessoas, entre mestres e ajudantes, que no dia-a-dia enfrentam muitas dificuldades para poderem trabalhar.
Por isso e perante o risco iminente de a profissão desaparecer, muitos foram os jovens da sua oficina que acabaram por desistir e procurar ocupações mais rentáveis.
Para rentabilizar o seu negócio, Cazuza tenciona pedir crédito bancário, embora reconheça ser difícil obtê-lo devido à burocracia. “Pretendemos, pelo menos, 10 mil dólares. Caso esse dinheiro seja disponibilizado, deixaríamos de apenas consertar sapatos e passaríamos também a fabricar”, disse.

A falta de capital, segundo disse, impossibilita a compra de solas secas e borracha, capas para calçado homem e mulher, cabedal, com diferentes cores e qualidade, fivelas, botões rápidos, furadores para os cintos, protectores de sapatos e artigos e utensílios para a profissão.

Custos do material

Amílcar José, outro sapateiro, diz que o material utilizado é, em maioria, adquirido no mercado paralelo, em que uma caixa de fivelas de calçado custa quatro mil kwanzas. O cabedal é vendido em rolos, cujo peso não sou especificar, mas custa acima dos 40 mil kwanzas.
Apesar das dificuldades, que vão desde a falta de matéria-prima, condições de trabalho e dívidas dos clientes, eles continuam a realizar o seu ofício, como coser, colar, colocar solas novas, ou mesmo furar cintos, a fim de ganharem, por dia, entre mil e dois mil kwanzas.
Amílcar explica que para a aplicação de uma sola seca num par de sapatos cobram quatro mil kwanzas, enquanto a sola de borracha custa 2.500 mil kwanzas.
A costura varia entre 500 e mil kwanzas, a colocação de fivelas ou botões rápidos custa 300 kwanzas.
As únicas máquinas que usam para a costura de sapatos estão avariadas. Amílcar José disse que o dinheiro que ganha não é suficiente para cobrir as despesas familiares.
Os materiais que possuem foram adquiridos graças à contribuição dos seus familiar.
Baptista Salomé, 56 anos, também sapateiro, conserta sapatos defronte ao Comando da Polícia do Sambizanga, local que, por ser muito movimentada, lhe permite angariar mais clientes.
Os artesãos, na sua maioria deficientes físicos, dizem que o ofício está ameaçado de extinção, porque os jovens não o querem abraçar, achando que é para os mais velhos e deficientes.

Pronto-a-vestir

Fernando Alberto Ceita, 47 anos, alfaiate de profissão, explica que as roupas confeccionadas pelos alfaiates são pouco procuradas, na medida em que as pessoas preferem, hoje, roupas de pronto-a-vestir importadas, facto que têm deixado preocupado os costureiros nacionais.
Ceita confecciona roupas de vários estilos, como trajes africanos, fatos para senhoras, camisas, batas escolares, saias e, de vez em quando, faz diminuição de tamanhos e aplicação de botões e fechos.
“Trabalho nisso quase todos os dias”, diz Fernando Alberto Ceita, acrescentando que a entrega das encomendas depende muito do estilo da roupa que o cliente escolher. “A confecção de um fato por exemplo, demora, em média, uma semana”, realçou Fernando Ceita.
Os preços praticados pelos costureiros oscilam entre os cinco e os sete mil kwanzas.
“O pouco dinheiro que conseguimos adquirir serve para sustentar a família, manter a máquina funcional e economizar 20 mil kwanzas por mês”, disse.

Os clientes

A jovem Marlene Gouveia é cliente assídua de uma das boutiques da cidade que vende roupas provenientes do Brasil e Taiwan.
Considera altos os preços praticados nesses locais, o que força as pessoas com poucas posses a recorrer aos préstimos das costureiras.
Outros jovens e adultos afirmaram que já não existe o hábito de comprar tecidos e mandar confeccionar qualquer tipo de roupa, a julgar pelo número de boutiques a venderem roupas de moda, provenientes da Europa e da Ásia. Mateus Muhongo, professor e residente no bairro Nocal, manifestou ao Jornal de Angola a sua preocupação face ao desaparecimento de determinadas profissões.
Antigamente, não havia dificuldades para encontrar profissionais que ajudassem a resolver de forma rápida os problemas, como sapateiros, alfaiates, marceneiros e carpinteiros, referiu.
Hoje, as pessoas têm de dar muitas voltas para encontrar um artista destas profissões. “Tenho três fatos por reparar e procuro por alfaiates no meu bairro, mas não encontro nenhum”, disse, acrescentando que, como saída, os amigos aconselharam-no a adquirir fatos novos, apesar de considerar que os mesmos ainda são recuperáveis.
“Há coisas que podemos recuperar, mas a ânsia de usar tudo o que seja novo é complicada”, referiu.
Mateus Muhongo disse que muitas ocupações profissionais estão a desaparecer pelo facto das pessoas não darem valor e de não procurarem os préstimos desses profissionais. O aumento do comércio de roupa e calçado usados nos principais mercados de Luanda, com destaque para o Asa Branca, Panguila, Kicolo, Kwanzas e Catinton, estão a criar dificuldades aos alfaiates e sapateiros, uma vez que a população opta por produtos acabados.

Baixos preços dos artigos desencorajam a população

Os baixos preços praticados para os artigos usados fazem com que a população perca o interesse nos serviços dos alfaiates e sapateiros, pondo em risco a existência dessas profissões.
Preocupados com a situação, esses profissionais solicitam ao Executivo a cedência de micro-crédito, para manter firme a sua actividade e garantir o sustento das famílias, porque os trabalhos de alfaiataria e sapataria se resumem a pequenos arranjos de costura e colagem.
Para colmatar a carência da falta de materiais para a sua actividade, recomendam o relançamento das indústrias têxteis e de curtume, para permitir a execução de obras com qualidade e a baixo custo. É a evolução, à qual sobrevivem apenas os profissionais mais aptos.

Fula Martins

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Jornal de Angola

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