Terça-feira, Fevereiro 7, 2023
10.5 C
Lisboa

Espírito natalício dá lugar a consumismo sem regras

É larga a fronteira que separa a forma como é celebrado o Natal hoje, comparado com o do passado. A diferença para quem sempre viveu a data a preceito está à vista. Os “cânones” para celebração do Natal apelam à partilha, caridade, paz e amor mas, actualmente, a tendência é olhar para data na perspectiva comercial. “Quando era criança, o Natal era vivido num espírito de partilha e era sentido desde bem cedo. Desde a tarde de 24, a família se juntava à volta da mesa para a consoada, o que dava um sentido de união ao dia que se arrastava agradavelmente até à hora da Missa do Galo”, lembrou o psicólogo, Celestino Piedade.
O calor sempre presente dos afectos era a tónica dos dias de festas em que a virtude, espírito de sacrifício e união da Sagrada Família, eram apresentados como modelo para todas as famílias. “Aprendíamos que Jesus estava do lado dos desfavorecidos, desde o primeiro momento da sua vida, e era perseguido pelos poderosos”, lembrou também e acrescentou: “Não há erro algum em consumir. O erro está no facto das pessoas se focarem muito nisso e esquecerem-se do essencial, que é o verdadeiro espírito do Natal”.
Segundo o pastor da Igreja Tocoísta,António Domingos Cabral, o Natal, enquanto um marco cristão foi instituído com o nascimento de Cristo. As igrejas honram com louvores e cânticos o nascimento do menino, que nasceu para o amor e fraternidade. “É necessário viver os valores do amor e da fraternidade não só nesta data mas no resto dos dias. O Natal deve servir para reflectirmos”, referiu.
O Natal é o dia da família. Quando nasce um bebé, há todo um movimento de carinho, amor e atenção da família a ele.
O Natal, referiu o pastor, é um dia em que a família devia se propor a reflectir sobre os seus valores essenciais e perspectivar o futuro. “Com o advento da globalização, a evolução da sociedade e industrialização, a verdadeira natureza do dia 25 tende a ser posta de parte, dando lugar a um consumismo grosseiro”, realçou.
O pastor foca a sua mensagem para a necessidade da família, enquanto núcleo da sociedade, e também núcleo da Igreja, incutir nos seus filhos, os verdadeiros valores do patriotismo e da religião e afirma que ela deve ser fonte de vivência da paz e não do conflito, do amor e não do ódio, da concórdia e não da discórdia.
“Queremos mostrar os caminhos da paz, acabar com a violência no seio da família e ensinar valores patrióticos às crianças”, sublinhou.

Se a comemoração do Natal tem sofrido mudanças (negativas ou positivas), no modo como é celebrado hoje, o pastor da Igreja Tocoísta considera que a globalização quer ignorar os elementos essenciais que sempre nortearam a data. “Ignorando estes elementos, relega-se para plano secundário, aquilo que é o Natal. Há uma clara concentração das pessoas para o frívolo, que em muitos casos, reside na excessiva concentração à fartura”, notou o religioso.
Mas isso, sublinhou, não resolve o problema da harmonia e da paz. “As famílias devem olhar para o que é realmente necessário para evitar desperdícios. Independentemente da globalização, é preciso buscar o essencial e isso significa não esquecer nem marginalizar o próximo”, frisou. Enquanto Igreja, disse, “tentamos consciencializar as pessoas que o fundamental não é tanto olhar para questões relacionadas com consumo”.
Nas grandes ou pequenas cidades, precisou, paira no ar um espírito de competição. Até nas crianças quer-se saber quem tem o maior e melhor brinquedo e quem recebe mais prendas. Não há presépios, mas sim, enormes árvores de Natal, competindo para ver qual é a maior e mais bem iluminada e olvida-se o facto de Jesus ter tido um nascimento humilde, numa manjedoura pouco iluminada e menos bonita. Tudo são luzes e cor por todo o lado, o que apela a uma beleza que tem mais de superficial que de profundo. O frenesim e a corrida às compras, de um lado para outro, são “brutais”, que se torna “parco”, o tempo para afectos uns com os outros.

Compulsão obsessiva às compras

O Psicólogo Celestino Piedade considera o Natal como uma grande festa e que deve ser vivida não só por cristãos mas sobretudo por pagãos, numa altura em que a tendência, dos tempos actuais, é paganizar o Natal com mais compras, mais bebida e mais divertimento.
Celestino Piedade afirmou que neste tempo, as pessoas vivem aquilo a que a psicologia chama de compulsão obsessiva pelas compras, isto é, conforme explicou, “fazem-se tantas compras até de coisas desnecessárias”.
Como consequência, realçou, “depois das festividades ficam sem nada para comer nem dinheiro para comprar, vivendo simplesmente a lembrança dos dias que jamais voltam”.  “É preciso comprar o necessário e ter um espírito de poupança para não haver arrependimento e stress pós natalício”, adverte o psicólogo, afirmando que a euforia das festas muitas das vezes faz com que as pessoas excedam o consumo de álcool e consequentemente a velocidade nas vias rodoviárias, o que se tem repercutido em acidentes, que em tempo de Natal têm aumentado o número de sinistralidades nas vias rodoviárias.
Por isso, recomenda, que em tempo de Natal deve ter-se em conta o equilíbrio emocional a fim de que a festa não seja amarga.
Se é fundamental que se tenha um equilíbrio emocional na quadra festiva, Celestino Piedade apela para a necessidade de cada pessoa reflectir no drama da vida da pessoa que sofre sem pão nem tecto, abrindo-se à caridade, já que o Natal deve ser visto como sentido de partilha com aqueles que nada têm.
“Não se chore o drama da novela ou do filme, chore-se o drama da pessoa real que sofre, ajudando-a para que nasça a sua esperança de vida com a vinda de Cristo”, aconselha o psicólogo.  Apesar da frenética corrida dos tempos actuais na busca de um lugar ao sol, o Diácono da Igreja Evangélica Baptista de Angola, Fernando António afirmou que existem muitos cristãos que vivem o dia de Natal com o espírito de originalidade. “Cristo vem trazer a paz.
As igrejas continuam a celebrar com o mesmo espírito dos tempos idos, o dia do Natal. Uma e outra coisa deve ter mudado na forma de o celebrar, um pouco por força das circunstâncias”, sublinhou o diácono.
Com o advento da globalização, as coisas mudaram muito e isso reflecte-se no modo como as pessoas agem e reagem diante das situações da vida, onde o Natal é claramente um dos aspectos que vive hoje profundas alterações.
“O Natal não significa fartar-se de comida. Todos os dias comemos. Por isso, deve ser comemorado com a devida importância que o dia tem e evitar os excessos”, alerta e ao mesmo tempo aconselha: “Não adianta comprar alimentos em demasia para de seguida deitar-se quantidades que chocam e ferem os que nada podem fazer sobre a sua situação de miséria e privação, ou seja, para os que não têm sequer, algo para comer”.
O Diácono diz que a alegria e comer caminham lado a lado. “Não há nada de estranho nisso, pois estamos bem quando nos alimentamos mas o Natal deve significar mas, ou seja, este dia deve ser “transcendental”, o que deve significar o reforço dos nossos laços com o Criador”, precisou.
Assim, apelou o diácono, “não nos esqueçamos que o Natal não se resume a bonitas decorações e a presentes, pois a sua essência está no festejo do nascimento daquele que deu a sua vida por nós, Jesus Cristo”, lembrou.
O cristão de hoje, argumentou, deve ser como que “um pequeno Cristo”, que deve nortear a vida por ideais que encerrem valores como amor, caridade e fé.

Dimensão espiritual

Se há quem viva o Natal mais na perspectiva de consumo, há quem aproveita a data para reflectir no projecto da vida espiritual.
“Nos anos 80 haviam enormes filas à porta das lojas, pois existiam poucas. Hoje o mesmo não acontece, na medida em que há muito mais lojas e supermercados, o que tornou a corrida às compras mais evidente, levando as pessoas a esquecerem-se um pouco de viver o Natal tal como é”, disse à nossa reportagem, Agostinho Gaspar.
Agostinho Gaspar disse que, nesta data, procura dar primazia à vida espiritual, pois entende que a riqueza da vida reside na espiritualidade e nos laços com Deus.
Isabel Vicente, funcionária pública diz que o Natal de hoje é bem diferente do passado. As pessoas, afirmou, estão mais preocupadas em comprar. “Gasta-se muito a ponto de ficar-se sem nenhum na “algibeira, porque quiseram passar apenas um dia com pompa e circunstancias”, salientou.
Acrescentou que “O Natal não é isso. É bem diferente e as pessoas deviam olhar mais para o aniversariante, o menino Jesus Cristo. Há um claro relegar para segundo plano aquilo que a espiritualidade e a razão última da data”.
“Acho que hoje existem muitas pessoas indiferentes à data. Há aqueles que não consomem excessivamente mas também não se dedicam a vida espiritual. Vêem o Natal como um dia qualquer. Eu, particularmente, vejo o dia como normal. O que faço, é ir à igreja e não exagero em compras nem consumos”, referiu Solange Veríssimo.  Já para o jovem Gomes Paulo, o fundamental, no meio disso tudo, é a união de todas as famílias, com realce para a união de toda a família angolana.

João Dias
Fonte: Jornal de Angola
Fotografia: Domingos Cadência

POSTAR COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

- Publicidade -spot_img

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Rei Felipe VI já em Luanda

À sua chegada, Felipe VI e esposa foram recebidos pelo ministro das Relações Exteriores, Téte António, e o embaixador...

Artigos Relacionados

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
  • https://spaudio.servers.pt/8004/stream
  • Radio Calema
  • Radio Calema