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Tragédia greco-romana

A crise económica tem deixado um rasto de destruição na política europeia. Em Fevereiro, o então primeiro-ministro irlandês, Brian Cowen, foi derrotado nas eleições locais. Em Março, José Sócrates renunciou ao cargo de primeiro-ministro de Portugal. No mês passado, foi a vez do vizinho espanhol José Luis Rodríguez Zapatero ter sido substituído por Mariano Rajoy. Antes disso, a vítima tinha sido George Papandreou — o controverso primeiro-ministro grego, que lançou a ideia peregrina de um referendo popular para votar o pacote de ajuda ao seu país. A estratégia revelou-se desastrosa e Papandreou acabou por nem sequer ter o apoio do seu próprio partido. Para o seu lugar foi nomeado o “tecnocrata” Lucas Papademos, ex-vice-governador do Banco Central Europeu (BCE).
Novos gladiadores: Tal como os gregos, os sindicatos italianos também não querem 
ouvir falar em mais austeridade

O seguinte na linha de tiro havia sido o italiano Silvio Berlusconi, o mais polémico de todos. A queda do império do antigo “barão dos media” começou no dia 8 de Novembro, quando Berlusconi foi humilhado na votação sobre os gastos do ano passado. A prestação de contas foi aprovada com 321 abstenções, um sinal claro que o primeiro-ministro italiano já não tinha a maioria no Parlamento. Depois de se reunir com o presidente Giorgio Napolitano, “Il Cavaliere”, tal como Berlusconi era chamado em Itália, decidiu renunciar ao cargo após o Parlamento votar o pacote de austeridade prometido à União Europeia, que inclui privatizações, a reforma da segurança social e das leis do trabalho. Tal como na Grécia para o seu lugar foi chamado um “tecnocrata”: Mario Monti, que foi Comissário Europeu de 1995 a 2004.

Embora a Grécia hoje simbolize tudo o que está errado na zona do euro, a sua queda não pode ser comparada à de um eventual (e temido) calote italiano. Não deixa de ser trágico que os dois países-berço da civilização europeia sejam agora aqueles que, por razões diferentes, mais ameaçam a ruína do projecto euro.

A economia da Itália equivale à soma do PIB de Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia. “Um calote italiano seria como um novo momento Lehman Brothers para o mundo”, alertam os analistas

Historicamente, a dívida da Itália sempre foi alta. Hoje, equivalente a 121% do PIB, sendo a segunda maior da Europa, depois da grega. Até ao ano passado, o endividamento excessivo era considerado mais um símbolo do país — tal como a pizza napolitana ou os canais de Veneza. Perante o agravamento da crise na periferia da Europa, os mercados estão cada vez mais avessos ao risco.

Desde que a Grécia (que já havia sido socorrida pelo Fundo Monetário Internacional em Maio de 2010) voltou a pedir uma moratória, grande parte dos investidores iniciou uma corrida para se livrar dos papéis da Itália, um país que, além da dívida galopante, carrega o estigma do crescimento lento e da confusão política. Desde Agosto que o BCE, agora comandado por Mario Draghi, comprou o equivalente a 70 mil milhões de euros em títulos da dívida italiana. Mas isso não foi suficiente para acalmar os investidores. A título de exemplo, o banco francês BNP Paribas informou os seus clientes que já vendeu 40% do seu stock em papéis italianos. Outros investidores que ainda aceitam comprar os títulos estão a exigir juros cada vez mais altos. No fecho desta edição, a taxa chegou a 6,77% ao ano, o nível mais elevado desde a criação do euro, em 1998.

Um vulcão em risco de erupção
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Il cavaliere Berlusconi: colegas europeus consideravam-o um irresponsável. 
Deixou legado difícil 
a Mario Monti

Muitos temem que a dívida do país onde jaz o famoso vulcão se torne impagável, algo que poderia produzir um verdadeiro terramoto financeiro. É que nesse caso a crise grega seria um mero tremor de terra. Recorde-se que a Itália e a Grécia têm economias de dimensão e sofisticação diferentes. A Itália é a segunda maior potência industrial da Europa, depois da Alemanha, tem o terceiro maior PIB da zona euro e o oitavo maior do mundo. As riquezas produzidas no país são equivalentes à soma das de Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia. Como a Itália não é a Grécia, os efeitos de uma moratória italiana também seriam de outra categoria. Para muitos analistas, a própria sobrevivência do euro estaria, então, em perigo. “Um calote da Itália seria, com certeza, como um novo momento Lehman Brothers na economia mundial”, diz Barry Eichengreen, professor de Economia na Universidade da Califórnia. “Seria algo próximo ao fim do mundo. Por isso é algo que precisa de ser evitado de qualquer maneira”, diz Mauro Guillén, director do centro de negócios internacionais da escola de administração Wharton, da Universidade da Pensilvânia.

O que torna a situação especialmente dramática é a falta de confiança do mercado na capacidade dos políticos italianos em enfrentarem a resistência dos sindicatos e colocarem em prática o plano de austeridade prometido à União Europeia. Por outras palavras, muitos duvidam que o país comece a reduzir o seu nível de endividamento no curto prazo. “O Japão tem uma dívida elevada, mas ainda é um porto seguro, porque tem credibilidade entre os investidores. Esse não é o caso da Itália”, diz o italiano Alessandro Magnoli Bocchi, economista do Banco Mundial.

Talvez agora com a saída de Berlusconi, (o primeiro-ministro que estava há mais tempo no poder desde o pós-guerra), e a entrada de Mario Monti, a sensação seja diferente. No final de Outubro, no encerramento de uma cúpula europeia, o Presidente francês Nicolas Sarkozy foi questionado se havia  falado com Berlusconi sobre as reformas na Itália. E se ele, Sarkozy, tinha certeza de que Berlusconi o tinha ouvido. Num gesto raríssimo entre líderes europeus, Sarkozy olhou para a primeira-ministra alemã, Angela Merkel e os dois, cúmplices, deram um sorriso irónico.   Hoje, a maneira como tratam Monti  (que acumula a pasta das Finanças com a de primeiro-ministro) é visivelmente diferente.

“Os políticos e o mercado viam Berlusconi como um irresponsável. Mario Monti, pelo contrário, tem um passado irrepreensível”, disse à EXAME o italiano Giovanni Sartori, que, aos 87 anos, é um dos mais respeitados analistas do país. A esperança é tal que os italianos já lhe chamam “Super Mario”. Com ele o passeio dos italianos pela beira do abismo parece ter acabado e o grand finale pode não ser trágico.

 

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Por: Luciene Antunes e Mariana Segala

 

Fonte: Exame

Foto: Exame

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