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Testagem contribui para reduzir a doença

Inaugurado em 2004, o Hospital Esperança, em Luanda, unidade de saúde vocacionada para o atendimento e tratamento de pessoas portadoras do Vírus de Imunodeficiência Humana (VIH), tornou-se uma esperança de vida para milhares de pacientes seropositivos. Os últimos dados apontam para uma média mensal de 58 por cento de novos casos positivos de mulheres e 42 por cento em relação aos homens. A reportagem do Jornal de Angola percorreu o interior do hospital e verificou que, apesar do espaço exíguo e das dificuldades, a solidariedade está presente. Da conversa com o director da instituição ficou o aviso: “É urgente aumentar a consciência dos cidadãos para a testagem voluntária”.
Apesar de abrir as portas por volta das 8h00, cerca de uma hora antes, o elevado número de pacientes que se encontram no lado de fora, à frente do acesso à porta principal, indicia um dia de intenso trabalho para os funcionários.
É sempre assim, de segunda a sexta-feira, assegura Anabela, uma das enfermeiras de serviço. Dezenas de homens e mulheres, maioritariamente jovens, afluem, sem receios, àquele hospital em busca de ajuda para atenuar o seu sofrimento. Aos poucos, a consciência de que é possível viver saudável durante largos anos com o Vírus de Imunodeficiência Humana (VIH) instala-se nas pessoas.
Assim que a porta principal se abre, a dinâmica de atendimento da equipa médica permite um controlo das pessoas que entram e saem da sala onde é feita a triagem. A ordem de chegada é respeitada e à medida que o tempo avança o ambiente de agitação diminui.
Entre os pacientes impera o respeito e a solidariedade pela dor de cada um. Sentada à espera de ser atendida, encontramos a jovem J.P. Seropositiva há quatro anos, tem poucas razões de queixa desde que iniciou o tratamento. Ao contrário de muitos que descobriram ser seropositivos, ela não tem dúvidas quanto à origem da infecção.  “Fui contaminada pelo meu namorado”, acusa. Como consequência, a vida de J.P sofreu uma reviravolta. Devido aos comentários maliciosos leva uma vida reservada. Quase não sai de casa e evita ambientes que antes lhe eram familiares. Ao Jornal de Angola fez um pedido: “Gostava que destacassem a figura da doutora Mateta, que neste momento está fora do país, mas enquanto aqui esteve a trabalhar fez muito para elevar a auto-estima dos seropositivos”.
No Hospital Esperança todas as pessoas que vivem com VIH-SIDA têm direito a acesso gratuito e tratamento com anti-retrovirais. Apesar das dificuldades existentes no atendimento, a vontade em ajudar é mais forte. O médico Milton Veiga, que dirige a instituição, refere que têm disponíveis serviços de aconselhamento, de adesão, testagem voluntária de VIH, psicoterapia, enfermagem, exames de diagnóstico, pronto atendimento médico e consultas de rotina. A infecção por VIH e a adesão à testagem traduz-se num aumento diário, o que leva Milton Veiga a dizer que a componente de prevenção carece de índices de controlo desejado. A consciência das pessoas, disse, amadureceu e os serviços têm de estar em condições de satisfazer a procura.
“Há uma consciência das pessoas quanto à importância de conhecerem o seu estado serológico e de poderem chegar ao hospital e fazerem um teste voluntário”, reafirmou.

Ansiedade e esperança

O aglomerado de pessoas em busca de ajuda médica que ali se verifica indica que os seropositivos têm vindo a ganhar coragem para assumir a sua condição de vida.  N.S é seropositiva e levou meses a procurar ajuda médica, depois de o teste ao HIV ter revelado a sua nova condição de vida. Até ganhar coragem para enfrentar o mundo, viveu dias de angústia. Hoje, devidamente informada, vê a doença com outros olhos. As constantes idas ao hospital devolveram-lhe a esperança de viver. Tem sido quase sempre assim com a maioria dos pacientes.
O Hospital Esperança tem também a particularidade de apadrinhar boas relações de amizade e inclusive relações afectivas. N.S confessa que está grávida de um mês do namorado, que também é seropositivo. Os dois conheceram-se nas sessões de psicoterapia e o nascimento da criança é aguardado com muita ansiedade.
Milton Veiga explica que o número significativamente maior de mulheres em relação aos homens demonstra a tendência delas para aceitarem os serviços, e “isso transporta a feminilidade da infecção”.
“A nossa experiência permite-nos perceber que as mulheres possuem uma facilidade maior em aceder aos serviços de tratamento de VIH-SIDA. Elas têm várias fontes, por exemplo, através das consultas de pré-natal que exigem o teste”, disse.
A própria componente biológica da mulher e a ausência de pudores em assumir o seu estado serológico, diz o médico, opõem-se à inibição do homem.

Estigma e discriminação

A maior parte das pessoas que vive com o VIH enfrentam uma série de obstáculos sociais que, não poucas vezes, as leva a pensar em desistir de procurar ajuda. Mas aqueles que desistem acabam por ver piorado o seu estado de saúde física e até mental. Esse não é o caso de M.J, doméstica. Viúva e mãe de três filhos, aos 47 anos continua a lutar contra os males decorrentes de uma doença cuja origem desconhece. Mas, as desconfianças habitam a sua mente. Segundo revelou, teve conhecimento que é seropositiva por mero acaso: um dia decidiu fazer a testagem voluntária por influência de uma amiga. Em dado momento, o seu rosto encheu-se de tristeza e não conteve as lágrimas.
“São poucas as pessoas que conseguem conviver normalmente com um seropositivo e por isso não tem sido fácil suportar a discriminação, por vezes silenciosa, de que somos alvo”, lamentou.
Para Milton Veiga, a discriminação é uma realidade muito marcante em Angola e acaba por ser um dos factores de inibição das pessoas que deviam conhecer o seu estado serológico e no compromisso das pessoas com a sua condição.
O médico fala da necessidade de se reduzir o estigma a nível social para se obterem ganhos na redução e controlo da infecção. Além de considerar fundamental o apoio da família na melhoria da condição de saúde das pessoas que vivem com o VIH, assegura que isso assume uma importância muito forte na recuperação e integração social do paciente.
“O olhar para um seropositivo ainda é um olhar malicioso do ponto de vista das relações humanas e de aceitação familiar. A informação direccionada pode pôr termo a esse comportamento ”, disse.

Educação sexual inibida

Apesar da realidade demonstrar que não se pode negligenciar qualquer forma de contágio, a via sexual continua a ser a que mais se destaca, admite o director do Hospital Esperança.
Em Angola, explica, a nossa educação sexual ainda é muito inibida, com muitas formas de interpretação deficientes, o que por vezes também choca com factores culturais. Por isso, “é importante ter a coragem de abordar a sexualidade do ponto de vista da saúde e do conhecimento básico a nível das escolas, creches e de outros sectores da sociedade”.
Milton Veiga realça a necessidade de mais informação e de contar com jornalistas especializados na doença, além do recurso às línguas nacionais para a difusão da mensagem. “É preciso que nas línguas nacionais se introduzam os termos ligados ao VIH e se consigam atingir aqueles estratos da sociedade que carecem desta componente comunicacional”, sugeriu.

 

 

Adalberto Ceita

Fonte: Jornal de Angola
Fotografia: Kindala Manuel

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