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Mulheres afectadas por “fístula obstétrica” são rejeitadas e abandonadas pela familia

Muitas mulheres dos países em vias de desenvolvimento não têm acesso ao tratamento da doença devido aos custos elevados - Fotografia: Filipe Botelho

Madalena Fortunato, com lágrimas nos olhos, conta ao Jornal de Angola a história dos mais de sete anos que padeceu de “lectio magistralis”, uma doença conhecida nos meios médicos por “fístula obstétrica”.
A jovem mãe, de 34 anos, revela que começou a notar a presença da doença no seu órgão genital em 2003, quando vivia em Luanda e decidiu ter o segundo filho em casa. Não sabia, revela, que estava grávida de gémeos e nota que “o primeiro bebé nasceu bem, mas o segundo porque não estava numa posição adequada para um parto normal”. Madalena Fortunato e as pessoas que a ajudavam bem que insistiram, até compreenderem que a situação era grave.
Só depois disso é que foi levada para uma unidade sanitária. Lembra ter ido à maternidade Augusto Ngangula, em Luanda, onde foi submetida a uma intervenção cirúrgica e o outro bebé, graças a Deus, também nasceu bem. Mas tarde, Madalena começou a observar um corrimento de urina, mas sem sentir nada. “Urinava-me toda e não sentia absolutamente nada”.
O tempo foi passando e a cura deste mal tardava a chegar. Pior que tudo, viu o marido partir, abandonando-a com três filhos. Ele acreditava em forças ocultas. A sua roupa cheirava mal e muita gente chamava-a de feiticeira.
Como Madalena Fortunato, muitas mulheres padeciam e outras ainda padecem desta doença. Lucau Luila, 45 anos, mãe de sete filhos, é uma delas. Viveu cerca de 14 anos com a doença e também foi abandonada pelo marido aos 29 anos. Lucau Luila disse que tentou o tratamento nos hospitais e nos terapeutas tradicionais em várias partes do país e na República Democrática do Congo, mas sem sucesso. Em desespero, diz mesmo que já tentou suicidar-se por vergonha. “Fiquei cerca de quatro anos sem poder sair de casa.
O meu marido já não se relacionava comigo. Chegou a pensar que era a única mulher que sofria deste mal. Fiquei deprimida e chorava todos os dias”, disse.
Madalena Fortunato, Lucau Luila e outras 94 mulheres estão curadas hoje. Depois de percorrerem quase todo o país, encontraram tratamento e cura da doença na maternidade Rainha Santa Isabel, no município da Damba, província do Uíge.

Felizes por lhes ter sido devolvida a dignidade, apelam às mulheres vítimas de fístula obstétrica a buscarem a cura naquela unidade sanitária da província.

Pobreza dificulta tratamento

A representante do Fundo das Nações Unidas para a População em Angola (UNFPA), Kourtoum Nacro, disse ao Jornal de Angola que a descoberta da cura da doença já existe há muitos anos em países desenvolvidos, como nos Estados Unidos da América, na Europa e Ásia. Muitas mulheres dos países em vias de desenvolvimento, referiu, não têm acesso ao tratamento da doença devido aos custos elevados e à falta de unidades especializadas no tratamento da fístula obstétrica. “Nas zonas mais pobres de África, Ásia e América do Sul, há milhares de mulheres a sofrer com a fístula obstétrica”, referiu a responsável, que notou que os custos para o seu tratamento chegam aos 300 dólares, uma quantia fora do alcance de muitas famílias pobres.
A representante do UNFPA em Angola lembrou que, em 2010, o SG das Nações Unidas, Ban Ki-moon, solicitou cerca de 750 milhões de dólares até 2015 para suportar as despesas com o tratamento de 3,5 milhões de mulheres que padecem da doença. Nacro sublinhou que na maioria dos países pobres, a mulher é a que menos recursos financeiros tem e daí a incapacidade em pagar as suas cirurgias.

Fonte: JA

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