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Suspensos por um fio de luz

Cidade do Huambo

Um aspecto chama a atenção aos visitantes da cidade do Huambo. As ruas não estão esburacadas. E mais curioso ficará o viajante vindo de Luanda, onde a pressão automóvel, das deficientes redes de saneamento e as chuvas transformaram o abre e fecha buracos no asfalto num jogo do gato e do rato.

Já se o visitante souber que o Huambo se propõe à qualidade de capital ecológica de Angola, o verde mortiço dos espaços ajardinados poderá merecer também algumas interrogações. Mas a resposta é simples, o Huambo está ainda a renovar a sua rede de distribuição de água e a vivacidade dos seus jardins resulta muito da água das

Se o visitante souber que o Huambo se propõe à qualidade de capital ecológica de Angola, o verde mortiço dos espaços ajardinados poderá merecer também algumas interrogações.

chuvas. Nestes dias, depois do cacimbo e em que se espera que S. Pedro abra as torneiras dos céus a qualquer altura, há como que um intervalo. Já não é cacimbo, mas também não vem água lá de cima. Os esforços para a rega manual não resultam na exuberância que se espera de uma cidade que teima em ser ecológica. Mesmo assim, comparando com o que se vê pelo resto do país, é sempre uma alegria a existência de espaços que merecem o nome de jardim.

Chuva é poupança

Se chove demasiado em época imprópria pode ser mau, que o digam os produtores de feijão da periferia da cidade. Na última época quatro dias de chuva intensa deitaram abaixo produções que já faziam sonhar os seus donos. Calhou que algum anjo se esqueceu de fechar as torneiras mesmo nos dias que antecediam a colheita. Daí que o preço do feijão poderá disparar nos próximos dias. Está já em 150 kwanzas o quilo. Bom para quem ainda colheu bem. Mau para quem terá de comprar mais caro um produto que costuma ser barato por estas terras.

As chuvas costumam, de facto, a ser uma espécie de índice dos preços no planalto central. Num ano de boa chuva a produção é regular e o alimento de produção local está garantido a bom preço. E é também fonte de rendimento para quem tem excedentes para vender aos compradores que chegam de Luanda, principalmente.

Finalmente comboio

Depois de inaugurada, com grande pompa, a circulação dos comboios do Caminho de Ferro de Benguela, isto em Agosto, nesta Quarta-feira, 21 de Setembro, data dos 99 anos da cidade, finalmente chegou a primeira
composição comercial, transportando passageiros e mercadorias. Mas a exultação é agora mais contida, pelo menos para os candidatos a passageiros. É que, para já, numa primeira fase cuja extensão não foi adiantada pela direcção da empresa, as viagens acontecerão uma vez por semana. os que podem menos continuarão assim a não poupar, tendo que embarcar em autocarros inter-provinciais e em candongueiros.

O maior problema está nos pequenos comerciantes, confessamente ansiosos por pagar menos por cada kibuto. Já quem pode, e isso é muito bom, porque apaga a centralidade territorial do Huambo, pode bem ir à banhos em Benguela. Numa viagem calma, duas horas e meia a três horas fazem inveja aos banhistas que queiram sair de alguns pontos de Luanda paras as praias de … Luanda.

Os comerciantes da rua do comércio, por exemplo, muitos deles estrangeiros e habituados aos negócios, mesmo sem simpatia para a câmara fotográfica, lá vão dizendo que uma viagem semanal é mesmo um ganho muito grande. É que numa viagem podem transportar o que se fazia em seis meses usando camiões. E melhor, o preço é incomparávelmente mais baixo. E alertam: há que reforçar as capacidades do porto do Lobito. Ou seja, o Huambo pode criar empregos no Lobito.

A ESPERANÇA

João Daniel é cidadão do Huambo e diz que o NGove, ou seja a barragem hidroeléctrica situada na vila é a chave de tudo. Toda a gente espera pela electricidade que virá da barragem, e dizem que a luz vai mudar a cidade. Por estes dias os apagões vão acontecendo a espaços. Distribuindo-se equitativamente pelos bairros da cidade.

No dia de aniversário da cidade, 21 de Setembro, o jornalista Hermenegildo Filipe animou na Rádio Mais um programa interactivo sobre o estado dos sentimentos das pessoas em relação à cidade, a queixa mais comum, aquela que impacienta, foi justamente a falta de electricidade de qualidade. Razões a sustentar os queixumes não faltaram: desde a conservação dos alimentos, estenderam-se para as questões de segurança e foram parar ao ensino nocturno.
O vice-governador Henrique Barbosa, a O PAÍS, disse que além de tudo isso a “luz” vai significar uma vida mais serena e com mais empregos. O governo local está esperançado no arranque e ampliação do parque industrial local.

Mas, apesar de todas as coisas boas, há ainda marcas atadas e que não se querem ir embora. Marcas da guerra em algumas fachadas e espaços de recreação (como o Cinema Ruacaná), com aspecto de abandonados e com ares de resignação

Enquanto se espera pela luz do NGove há entretanto quem se guie pela máxima dos homens optimistas, ter sempre a vela içada, quando o vento chegar é só navegar e vão surgindo novas cerâmicas, uma na estrada que liga a cidade à Caala e outra na estrada que leva à Luanda, mesmo na Chipipa. Há também a funcionar a Álamo, tratadora de troncos, ou postes, de madeira. A Moval, fábrica de móveis, também reabriu. Há outras indústrias, mas a que não se deixa vencer é a Cuca, que até mandou renovar o seu símbolo na pedra a que dá o nome. A “pedra Cuca” é como um farol para quem venha a entrar na cidade pelo norte. Vê-se a pedra Cuca e sabe-se que se está a entrar no Huambo. Para quem aprecie a bebida será, de certeza, sinal de que lhe espera uma dose de prazer engarrafado.

No limiar do século

Se cem anos é sinal de maturidade para uma cidade, o Huambo parece aceitar o repto. E quer mostrar-se madura mas com o rosto da juventude. Porque a grande maioria dos seus milhão e pouco de habitantes são jovens e também porque aprendeu que a jovialidade atrai. De cerca de 25 camas há coisa de sete anos, para os visitantes, a cidade descobriu que gente de fora significa ganho de dinheiro. Daí que o turismo é uma aposta governamental e uma realidade aceite e desejada pelos citadinos. Hoje passam das mil as camas disponíveis, e a atracção exercida pelas ruas lisas, pelos jardins e pelo clima habituou a gente do Huambo a conviver com forasteiros de pouca demora. Gente que vem para recarregar baterias e para uma ilusão do belo em 48 horas. E estamos a falar de uma cidade que para já tem apenas uma discoteca.E aos cem anos como deverá estar a cidade? A resposta que O PAÍS colheu nas ruas diz que todos desejam águas nas torneiras e electricidade sem interrupções. Desejam mais: querem mais formação e querem, sobretudo, mais emprego e melhores salários. Quem não o quer afinal?

Mas, apesar de todas as coisas boas, há ainda marcas atadas e que não se querem ir embora. Marcas da guerra em algumas fachadas e espaços de recreação (como o Cinema Ruacaná), com aspecto de abandonados e com ares de resignação para o caso de a reabilitação não vier a ser o caminho. Como se a cidade se quisesse esquecer de alguns dos seus ex-líbris. Ao Ruacaná soma-se o estúdio 404, o estádio do Electro e outros espaços. Para o visitante capaz de imaginar o glamour e o frenesim de tais espaços noutros tempos, se se conseguir sentar numa esplanada imaginária e tomar um refresco ao som de pedra que os pneus dos automóveis fazem numa calçada de granito, seguramente que para perpetuar o instante desejará que o comboio leve para bem longe todas as marcas más que se enraizaram na cidade. Isso talvez justifique a multidão que se faz à rua no dia em que o comboio voltou a marcar presença no planalto central. E como nos disse João Daniel, nem foi por ver o “bicho”, foi por ouvir o bicho, o apito do comboio voltou a ocupar o seu lugar no espaço da cidade. Só o Huambo sabe ao que soa aquele apito.

José Kaliengue
Fonte: O País
Foto: O País

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