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Kyanvo Muana Uta o poder tradicional

Alto Zaza

No Alto Zaza ouve-se ao longe o som do mondo, um instrumento musical tradicional. Timidamente um grupo de jovens dirige-se à nganda, palácio de Muana Uta, a máxima autoridade tradicional. Próximo da porta, o administrador comunal adjunto do Alto Zaza, Jorge Kamâmbua, que acompanha a equipa de reportagem do Jornal de Angola, adverte: “se formos autorizados a entrar, ninguém faz qualquer gesto sem o meu sinal”.
Entrámos na “nganda do kyanvu” (casa do rei) e lá dentro estão 20 pessoas em pé. Passámos por uma espécie de labirinto e depois de transpormos várias portas encontrámos Kyanvo Muana Uta Kabamba, sentado na sua poltrona de madeira. A cadeira está forrada de peles de onça e hiena. A autoridade tradicional estava rodeada de 12 kilolas, representantes das 12 tribos da região, trajados de huconzos.
Dentro da nganda, o som da marimba associou-se ao do mondo. Os dois instrumentos produziam um ritmo musical muito agradável, que obrigou um dos kilolas a saltar da cadeira para apresentar a “unsanga”, dança exibida pelos kilolas na presença do chefe enquanto evocam os ancestrais e desejam boas vindas aos visitantes.
Ao sinal de Muana Uta, entregaram-nos um prato com cola, sal e uma galinha. “Pronto, somos bem-vindos” segredou Jorge Kamâmbua, que depois explicou o motivo da viagem. Com um sorriso discreto, Muana Uta autorizou os jornalistas a realizarem o trabalho na sua comunidade.
É na comuna do Alto Zaza, município do Quimbele, norte da província do Uíge, que encontramos o antigo reino de Muana Uta Kabamba. A comuna tem uma população de 17.112 habitantes, distribuídos por três regedorias e 52 aldeias. Os habitantes são maioritariamente camponeses que se dedicam à produção da mandioca, amendoim, batata-doce, feijão, pevides e gergelim.

Símbolos do passado

O Muana Uta apresenta-se publicamente com vários símbolos que identificam o seu poder. Na cabeça, usa uma coroa feita de missangas, serapilheiras e vários mpunguis (chifres), uma pulseira feita de tripas de cabras atada aos pés, muconzo (enxota moscas), uma catana de dois gumes e traja uma pele de hiena.
Reside numa casa de pau a pique com os seus guardas, o chefe dos kikolas e várias mulheres. A primeira mulher tem o título de Nkaka Muadi Hinda. O chefe visita as suas mulheres mediante um calendário previamente organizado.
Os guardas que protegem a casa vigiam discretamente as suas mulheres. Em caso de adultério, a mulher é expulsa do convívio. O amante é detido durante dois meses durante os quais trabalha para Muana Uta e é obrigado a pagar uma multa. Muana Uta faz as suas refeições sozinho. Enquanto come ninguém deve falar nem produzir qualquer som além do mondo. Depois da refeição, as sobras devem ser enterradas.
Durante as viagens, Muana Uta é acompanhado pelos seus conselheiros e a sua banda musical. Quando chega a uma aldeia onde resolve pernoitar, a comunidade faz uma cama nova.

António Charles

António Charles é o verdadeiro nome de Muana Uta. Depois de ser eleito apresentou às comunidades os ideais que vão orientar a sua actividade.
Muana Uta confessou ao Jornal de Angola que os seus antecessores não tiveram a tranquilidade para dirigir bem os interesses das comunidades, “por isso sobre mim recai grande responsabilidade. Quero ajudar as autoridades do Estado a atraírem bens e serviços para esta comunidade rural, conservar os locais com valor histórico, símbolos e ritos tradicionais”.
O palácio de Muana Uta foi construído na sede comunal do Alto Zaza, que dista 60 quilómetros do município do Quimbele. O acesso à localidade é dificultado pelo mau estado da via. “A comuna tem 52 aldeias, temos aqui 15 escolas feitas de capim e não temos água potável. O posto de saúde nunca funcionou desde a sua inauguração, isto torna a vida das populações muito complicada”, lamentou o chefe tradicional.
Muana Uta Kabamba é uma instituição política comunitária tradicional, restaurada oficialmente pelo estado angolano no primeiro Encontro Nacional Sobre Autoridades Tradicionais em Angola, realizado em Luanda, em Março de 2002.

Muata Kyanvo

O antigo reino Muana Uta Kabamba foi formado por descendes do reino Bayaka.
Segundo a lenda, o reino foi fundado pelo filho mais velho de Muata Kyanvo (fundador do império Lunda). Muana Uta Kabamba foi afastado da corte do Rei Muata Kyanvo, seu pai, para evitar um conflito com os seus irmãos, Nawesi, Nsimba Nkumbi, Muanga, Mayoyo e Ikomba, que o acusavam de feiticeiro.
Muata Kyanvo deu alguns símbolos do poder ao filho e aconselhou-o a transpor o rio Cuango, para na outra margem criar o seu próprio reino. Muana Uta obedeceu e instalou-se na região do Mapumbu, actual município dos Buengas, mais foi no Alto Zaza que construiu a sua sede.
Alguns anos depois, Ibula, o filho de sua irmã Nawesi foi recebido por Muana Uta sem ressentimentos. A chegada do sobrinho coincidiu com a penetração portuguesa na região, que solicitaram a Muana Uta terrenos para construir o posto administrativo. O soberano indicou-lhes a zona do Cuango que passou a chamar-se Posto Kabamba, tendo orientado o seu sobrinho para que o representasse junto das autoridades portuguesas, porque a nganda (palácio real) não podia ficar junto dos estrangeiros.
Devido ao florescimento económico da região, os outros sobrinhos de Kianvu Muana Uta também resolveram instalar-se na região. Com o falecimento de Kyanvu Muana Uta criou-se grande confusão, os seus sobrinhos entenderam acabar com o nome do tio, Muana Uta Kabamba, e entronizaram no poder Mbua Yemba, um dos filhos de Nawesi, que também teve a responsabilidade de trocar o nome do reino, passando a chamar-se Reino Mbua Yemba. O posto administrativo de Kabamba também recebeu um novo nome: Kuango Kalumbo.

A nova autoridade

António Charles foi eleito no dia 25 de Junho passado, pelos 12 kilolas, que representam as 12 famílias mais importantes e 120 sobas que participam na administração da região.
O novo chefe concorreu com outro descendente directo de Muana Uta e obteve 129 votos a seu favor e três contra. O sucessor de Kilomesso Kiala Mawenga é professor de profissão e tem 49 anos.
O anterior chefe, que faleceu no ano passado, governou durante 32 anos, de Agosto de 1978 a Novembro de 2010. Kilomesso Kiala Mawenga realizou várias viagens pelo país e ao estrangeiro.

 

Nicodemos Paulo |Uíge

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Jornal de Angola

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