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Carnaval do Brasil ao ritmo do semba

Sambista brasileiro Martinho da Vila durante a sua participação no ano passado na escola de samba Unidos Vila Isabel

Martinho da Vila, presidente de honra e membro da Ala de Compositores do grupo Unidos da Vila Isabel, disse ontem ao Jornal de Angola, que o seu grupo, na próxima edição do Carnaval do Rio de Janeiro, vai desfilar com um enredo sobre Angola, onde vai estar em destaque o casamento entre o semba e samba. O cantor e compositor brasileiro apresentou o projecto à ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva. Volta a Luanda no próximo mês a convite da União dos Escritores Angolanos para falar de música, poesia e literatura. Martinho da Vila anunciou que vai convidar alguns artistas e intelectuais angolanos para participarem no desfile da Unidos de Vila Isabel, inclusive o Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

Jornal de Angola – Qual foi o motivo da sua viagem a Luanda?

Martinho da Vila – Vim falar com a ministra da Cultura, Rosa da Cruz e Silva, para fazer uma explanação sobre o enredo que a escola de samba Unidos da Vila Isabel vai apresentar no próximo Carnaval, cujo título é “O Canto Livre de Angola”.  Para que sejamos bem sucedidos, o que será bom para os nossos países, é necessária a participação oficial e particular em termos de patrocínios. Um bom resultado deste projecto é importante para criar mais intercâmbio entre músicos angolanos e brasileiros.

JA – Que informações tem sobre a música angolana?


MV – Tenho muita informação, mas sei pouco sobre o momento actual. Os primeiros músicos angolanos que foram ao Brasil fui eu quem levou. Já trabalhei com extremos como o Bonga e o Dog Murras.

JA – Qual foi o seu percurso artístico?

MV – Actuei pela primeira vez num festival de música da TV Record, em 1967, o mesmo que revelou Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo e muitos outros. Falar da minha trajectória até hoje é impossível em poucas palavras.

JA – Escreve livros e compõe músicas nos mais variados ritmos. De onde vem o gosto pela diversidade?

MV – Gosto da diversidade mas não sei de onde vem o gosto. Acho perfeitamente normal um actor cantar, uma actriz representar, um sambista escrever livros, um erudito fazer música popular, um compositor pop criar uma ópera e todos fazerem outras coisas como pintar, esculpir, produzir, realizar filmes…

JA – Com a introdução de novos ritmos e novas tendências na música mundial, ainda há lugar para o samba de qualidade e de raiz no Brasil?

MV – Sambas de qualidade musical e poética continuam a ser produzidos no Brasil. Chico, João Bosco, Arlindo Cruz, Roque Ferreira, Nelson Rufino, Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e alguns outros estão sempre a produzir bons trabalhos. O mais tradicional de todos é o Paulinho da Viola.

JA – O actual processo de produção e gravação influenciaram a sua carreira?

MV – Influenciar creio que não, mas eu sempre usei a tecnologia a meu favor.

JA – Sei que Martinho da Vila é um homem do Carnaval. Como classifica a sua participação nas escolas de samba?

MV – Há compositores de música popular que não são do Carnaval e autores de samba de enredo que não fazem outro tipo de música. Eu sou eclético. Muitos sambas enredos meus foram cantados em desfiles e a minha participação diversificada. Sou presidente de honra da Unidos de Vila Isabel mas, essencialmente, sou membro da Ala de Compositores.

JA – Como foi a sua experiência de  actor, no filme “A Magia do Samba”?

MV – Não deixei a música para ser actor. A “Magia do Samba” é um filme inglês onde eu faço uma auto-representação e desenvolvi parte da banda sonora.

JA – Como tem sido a sua carreira fora do Brasil?

MV – Quem quiser viver de música tem de trabalhar com afinco e abraçar o profissionalismo, tanto no Brasil como em Angola. A minha carreira no Brasil e fora é muito activa. Este mês eu actuo em Salvador da Baía e no Rock in Rio. Dia 11 vou a Paris gravar com a cantora Nana Mouskouri. No início de Outubro canto em Portugal e Inglaterra. Há outras propostas internacionais em andamento.

JA – Os novos músicos têm cuidado com a Língua Portuguesa na elaboração das suas canções?

MV – Os compositores devem ter uma preocupação permanente com a Língua Portuguesa e aprimorar as suas letras. Os cantores, além de darem prioridade à poesia, devem procurar temas com riqueza melódica.

JA – As suas músicas ajudaram a mudar as mentalidades no Brasil?

MV – Não devo falar da importância da minha música. É dever dos estudiosos, críticos, pensadores.

JA – A Música Popular Brasileira ainda defende a modernização dentro do tradicionalismo?

MV – Sou visto como representante da Música Popular Brasileira, estivo muito abrangente que persiste e se expande. Procuro manter a essência da tradição, sem arcaísmo, mas evitando o modismo.

JA – Ainda é necessário defender o afro nas músicas, apesar da cada vez crescente globalização?

MV – Alguns dos meus antepassados foram africanos escravizados. Todo o mal tem algo de bom e a escravatura propiciou o sentimento de irmandade entre o povo brasileiro e o angolano. Os brasileiros oriundos de África foram muito importantes na construção do Brasil, influenciaram na cultura e em particular na música. O som afro faz parte da globalização.

JA – Qual é a sua opinião sobre os elos culturais entre os países lusófonos?

MV – A CPLP caminha a passos lentos, mas avança. O que mais pode unir os países lusófonos  é a cultura artística e literária.

JA – É fácil viver da música no Brasil?

MV – Não é fácil viver de música em lugar algum, porém é mais viável nos países desenvolvidos, por terem a actividade musical profissionalizada.

 

António Bequengue e Adriano de Melo

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Reuters

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