Unidades policiais devem estar mais próximas dos cidadãos

Ministro do Interior e o governador provincial de Luanda ouviram as preocupações da população (Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro)

Houve mais de 30 intervenções entre homens e mulheres e quase todos versaram sobre o fenómeno da criminalidade que tem deixado muitos cidadãos com os nervos à flor da pele e sem grandes soluções, diante da investida impiedosa dos marginais com maior frequência pela calada da noite.

Cenas de violações sexuais, assaltos à mão-armada, roubo de viaturas e motorizadas, de telefones, têm sido cometidos com frequência, acções muitas vezes facilitadas devido a deficiente iluminação pública e pouca presença dos homens da farda azul nas ruas da capital com maior incidência de noite.

Houve mesmo quem não poupasse a língua e chamasse os polícias de corruptos, por alguns deles optarem pela cobrança de valores monetários quando são interpelados na via pública, principalmente por automobilistas.

O munícipe Matias Feliciano falou sobre o comportamento menos ético de muitos agentes e oficiais da Polícia Nacional afectos à Unidade de Trânsito, que depois de interpelarem os cidadãos, que supostamente tenham cometido uma infracção, levam os documentos para casa, obrigando a que o automobilista, com maior incidência para os taxistas, andem atrás de si para reaver a documentação.

Matias Feliciano, taxista, frisou que tem passado por situações do género, chegando mesmo a apontar o dedo à cumplicidade dos chefes, a julgar pelas reclamações apresentadas às chefias quer em Viana, Mutamba, Cacuaco e Maianga, onde teve casos de documentos apreendidos.
Isaías Calunga secretário provincial do Conselho da Juventude de Luanda, levantou a problemática do fraco policiamento nas escolas e nas comunidades. O conselho defende mais espaços de lazer para a diversão dos jovens e o apoio ao programa Diálogo Juvenil.

O Conselho da Juventude propõe-se trabalhar em colaboração com os órgãos do Ministério do Interior na prevenção de crimes nas comunidades e passar a realizar actividades conjuntas com a Polícia Nacional visando mentalizar os jovens para a prevenção dos delitos.

O brigadeiro na reforma Júlio de Carvalho “Luchazes” defendeu no encontro a existência de um quarto ramo nas Forças Armadas Angolanas, de modo a que a juventude possa ser enquadrada. Ou seja, os jovens saem de casa e são inseridos nas FAA, onde durante dois anos aprendiam regras sobre regime patriótico e também uma profissão. Depois passam para a vida civil com aptidões que os levem a pensar pouco no crime.

Outra contribuição prende-se com a iluminação pública no interior dos bairros, a reparação das vias terciárias, e a existência de uma
Polícia à paisana, visando a recolha das informações para apoiar os órgãos operativos.

Para o brigadeiro na reserva, a imigração ilegal aliada às deficientes condições sociais por que passam muitos jovens, concorrem para a
criminalidade. A rigidez na punição dos infractores pode ainda contribuir para a redução dos delitos criminais no país, aflorou Júlio Luchazes.

Para Francisco Naval, todas as administrações devem em conjunto com as comunidades tudo fazer para prevenir o crime, cujos números não são muito alarmantes se comparados com outros países. Francisco Naval defendeu a realização de encontros com as comunidades onde a critica e as soluções para os problemas devem ser também apontadas para melhor solução dos problemas.

O encontro esteve bastante concorrido e todos os cidadãos queriam dar a sua opinião sobre segurança pública que nos últimos tempos tem tirado o sono a muito boa gente, em vários bairros de Luanda. Um desses cidadãos é Francisco Adão “Tata”, residente no distrito urbano do Sambizanga. O munícipe disse que a ocupação dos jovens em actividades socialmente úteis é uma das soluções para a redução da criminalidade.

“Muitos jovens foram delinquentes e, por já terem cumprido pena de prisão, encontram-se em liberdade.”
Em situação normal, sustentou Francisco Adão “Tata”, deviam ocupar os tempos livres com trabalho de modo a sustentarem a família. O
emprego não precisa ser aquele no qual se ganha muito dinheiro. “Se a Administração Distrital criar uma equipa que vele pelo saneamento básico e mensalmente for remunerado, há grandes probabilidades dessa pessoa deixar de agredir um cidadãos inocentes”, explicou Francisco Adão “Tata”.

A criação de actividades desportivas e culturais como acontece na Igreja Católica da Capela do Bom Pastor no Sambizanga, com mais apoio das autoridades na formação dos jovens pode contribuir para reduzir o cometimento de crimes. Francisco Adão “Tata” é de opinião de que deve haver uma maior aposta na formação profissional dos jovens do Sambizanga e não só, aliado à distribuição de kits profissionais para que os jovens possam encontrar formas de mitigar a problemática do desemprego, que assola muitos lares.

Na comunidade do Sambizanga, diariamente, a partir das seis horas da manhã, grupo de marginais, entre os quais, “os marijuanas”, que actuam junto da escola 24, na Casa Mimoso, tiram o sossego das populações, com confusão com garrafas, denunciou o munícipe que criticou a actuação da Polícia Nacional que alega falta de efectivos. Essa situação limita a circulação pelo bairro. “Depois das 20h00 é um risco circular por algumas zonas do Sambizanga sob pena de se ser assaltado, em caso de resistência os meliantes chegam a matar.”
Os meliantes ficam concentrados com maior frequência na Mitsubishi, na entrada da rua das Panelas, na Betão Zaire.

A vez das mulheres

Muitas mulheres deram o seu contributo e sugestões válidas para a problemática da criminalidade e da segurança pública em Luanda.
Amélia Kiteculo, residente no distrito urbano do Rangel, disse que a venda de drogas e a realização de assaltos a mão armadas, bem como as rixas entre grupos, são praticados por jovens do bairro. “Os vendedores de drogas são moradores no Rangel e estão devidamente identificados”, disse. A cidadã frisou que muitas mães têm filhos gatunos e quando são detidos pela Polícia dirigem-se às esquadras onde pagam para soltar os filhos.“Quem vende liamba e rouba os transeuntes são jovens do bairro conhecidos da comunidade”, sustentou.

Domingas Francisco, vendedora do mercado da BCA, criticou a actuação da Polícia Nacional por chegar quase sempre de forma tardia ao local do acontecimento.

Pediu, por isso, uma maior celeridade da Policia Nacional sempre que um cidadão é assaltado, tendo exemplificado casos de assaltos em pleno dia envolvendo grupos de jovens que chegam a tirar a vida de cidadãs indefesas, como ocorreu coma duas colegas do mercado.
Inocência de Oliveira é estudante universitária e mostrou-se preocupada com a segurança nocturna dos estudantes. Para ela, sair e regressar a casa em paz é fruto de muitos sacrifício devido aos jovens mal-intencionados que realizam assaltos, levando telefones e dinheiro. Inocência pediu uma maior atenção da corporação aos estudantes nocturnos de modo a reduzir os assaltos na sua escola assim como na comunidade do Cazenga, área onde vive.

Janety Simão e Suzana Francisco, ambas com 18 anos, também pretendem ver reduzida a criminalidade praticada por jovens que circulam de motorizada nas ruas da cidade.

Ambas reconheceram e valorizaram o importante papel desempenhado pela Polícia Nacional na solução de muitos problemas ligados aos assaltos em residências e na via pública.

Segurança participativa

O segundo-comandante-geral da Polícia Nacional, comissário-chefe Paulo de Almeida, considera que nos dias que correm, no mundo moderno, não há segurança sem participação da sociedade. Qualquer país que pretende defender-se tem de contar com os membros da sociedade. Os cidadãos devem velar pela própria segurança de modo a prevenir o crime e este encontro de auscultação vai promover o despertar para aquilo que é a missão da Polícia Nacional.

Paulo de Almeida defendeu um maior empenho da população na prevenção da criminalidade que aflige todos os cidadãos de Luanda.
Paulo de Almeida considerou que a situação criminal não é alta, considerou, por isso não deve haver razões para os cidadãos ficarem preocupados, apesar do registo da ocorrência de crimes violentos, alguns muito mediatizados.

O policiamento de proximidade tem algumas formas de proceder e Paulo de Almeida exemplificou o facto de haver patrulhamento nas escolas e a reunião com as autoridades tradicionais como exemplo de policiamento de proximidade.

Para Paulo de Almeida, um buraco na estrada, a falta de iluminação pública, são questões de segurança pública, assim como os bairros mal estruturados, e chamou a atenção para a intervenção de cada departamento ministerial.

Polícia de noite

Ao contrário do desejo manifestado pelo ministro do Interior em ver policias a realizarem patrulhamento com maior frequência de noite, o segundo-comandante-geral Paulo de Almeida, considera ser esta uma vontade política.
Acrescentou que os esforços para a realização de um policiamento de noite são três vezes maiores em relação ao efectuado de dia.Paulo de Almeida frisou que a corporação precisa de meios técnicos para garantir um trabalho eficiente de noite, começando pela organização policial.

Segurança com unidades próximas dos cidadãos

Para o comissário-chefe Paulo de Almeida, as unidades policiais devem estar próximas dos cidadãos, para que estes, ao recorrerem aos serviços da Polícia Nacional, percam menos tempo e possam ver o seu problema resolvido.

Paulo de Almeida admitiu que a segurança é cara, pelo que defendeu mais investimentos na Polícia Nacional.
Paulo de Almeida referiu que existe vontade do Executivo em investir mais na segurança, mas devido à problemática da crise financeira, esse desejo foi travado, realçando o esforço para se ultrapassar a situação.

Sacrifícios

Diante das críticas feitas por alguns participantes devido ao comportamento de alguns agentes da Polícia Nacional, o ministro do Interior, Ângelo da Veiga disse que muitos policias e agentes do Serviço de Investigação Criminal têm sido expulsos da corporação por conduta indecorosa.

O ministro disse que a Polícia Nacional, apesar de algumas insuficiências, tem feito tudo para combater a criminalidade, com grandes sacrifícios. O ministro exemplificou que no período entre 2013 a 2016, cerca de 70 polícias foram mortos quando cumpriam o seu dever em prol da segurança e tranquilidade públicas.

Muitos ficaram feridos e sem capacidade de recuperação para a vida activa.
O ministro pediu maior ponderação aos agentes da ordem no uso das armas de fogo e citou o caso do intendente do Serviço de Investigação Criminal que na quinta–feira matou a tiro a cidadã Maria Pereira de 54 anos, devido a uma discussão.
O ministro pediu aos cidadãos para denunciarem polícias corruptos pelo número 117, sem necessidade de deixar a sua identificação.

Superlotação nas cadeias com dias contados

No país estão a ser construídas 11 cadeias e que vão permitir desafogar a superlotação. O ministro do Interior afirmou que, com a vigilância adoptada pela Inspecção da Administração do Estado, muitos dirigentes vão parar a estes estabelecimentos penitenciários, caso
se apropriarem do dinheiro do Estado.

O ministro aconselhou os jovens a procurarem dedicar-se a actividades socialmente útil e ganharem a vida com mais responsabilidade e sem pressa. Muitos crimes violentos que ocorrem no país são cometidos por estrangeiros. Estes seleccionam as vítimas, maioritariamente senhoras. O ministro citou vários exemplos de crimes violentos cometidos por estrangeiros como o caso dos cidadãos nigerianos já detidos por acções violentas.

A criminalidade em Luanda não é alta, disse o ministro, que defendeu maior investimento no policiamento de proximidade. Os comandantes municipais devem redobrar esforços junto da comunidade no sentido de encontrarem as soluções adequadas para dar resposta as preocupações dos cidadãos relacionadas com a segurança pública.

O ministro pediu maior denúncia dos munícipes para com os vizinhos, amigos que se dedicam a actividades marginais no sentido de se inverter o quadro da criminalidade.

O ministro explicou que muitos cidadãos que cometem crimes são menores pelo que são detidos e soltos, situação que leva muitas vezes os cidadãos a não denunciarem alguns crimes.

O ministro criticou também a atitude de muitas seitas religiosas que em sua opinião estão mais interessadas em extorquir dinheiro do pacato cidadão. A cidade cosmopolita de Luanda é uma urbe com uma superfície de 18.826 quilómetros quadrados e uma população de sete milhões de habitantes, com nove municípios. (Jornal de Angola)

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