Ruas de Luanda enchem-se de flores por causa do Dia dos Finados

UM DOS CEMITÉRIOS DE LUANDA (FOTO: FRANCISCO MIUDO)

O Dia dos Finados, que se assinala amanhã, 2, transformou as ruas de Luanda num autêntico viveiro de flores, já que a data é aproveitada para se dedicar maior atenção aos túmulos e campas de parentes já falecidos.

Vendedoras ambulantes mobilizam-se para o comércio de plantas nas diversas artérias da cidade de Luanda, com as flores adequadas para se embelezarem campas, enquanto outros cidadãos se preocupam em pesquisar preços para poderem adquirir o produto no dia exacto, reservado para homenagear os entes queridos.

Ana Maria Tomás, 32 anos de idade, vende flores nas imediações do Cemitério do Alto das Cruzes, e diz que nesta altura do ano o negócio é rentável. “A expectativa é muito boa para esse ano, estamos bastante optimistas. Hoje o movimento está bom. Vou ter muito lucro do negócio de flores”, disse a vendedora ao Novo Jornal Online.

“A cada ano a expectativa é de aumento de vendas, e para este ano não é diferente, espero vender mais flores”, reforçou.

A azáfama explica-se porque amanhã, Dia dos Finados, muitas pessoas visitam cemitérios e enfeitam os túmulos dos familiares.

“A tradição também favorece o comércio informal, que costuma investir na venda de flores e outros produtos”, aponta o economista Domingos Tiago Saldanha.

Para Mayala Pedro, líder da igreja Acção Cristã no Mundo, o hábito de levar flores ao cemitério para homenagear os mortos simboliza, além de um belo presente, uma forma de expressar carinho e gratidão por alguém que, de certa forma, marcou as nossas vidas.

“As coroas de flores são usadas em funerais desde antigamente, e representam o círculo de vida eterna”, referiu.

“Por esse motivo, é comum que as pessoas visitem os seus parentes e amigos nos cemitérios, levando consigo flores. Essa iniciativa aumenta significativamente no Dia dos Finados e fomenta o comércio”, acrescentou.

“Neste cemitério do Camama estão sepultados oito parentes e gasto mais de 12.000 Kwanzas para comprar flores e depositar nas campas”, contabilizou o funcionário público Ramos Santos.

Excepção a esta regra é a dona de casa Maria Kifuba, que acaba de enterrar o marido no cemitério de Mulenvos, e, por isso, ainda não está preparada para se juntar às “romarias”.

“Não tenho coragem para voltar ao cemitério amanhã”, confessou, entre lágrimas Maria Kifuba.

Ritual que se repete ano após ano

As portas do cemitério de Santa Ana, que se abrem por norma às 7h, são um destino habitual para muitos.

“Antes do Dia de Finados, a minha família sempre vem fazer a limpeza e organiza tanto a sepultura da família como as dos arredores, porque não é viável arrumar só o nosso e deixar os túmulos vizinhos sujos. Assim no dia só vamos fazer as homenagens”, contou Antónia Nzumba, de 56 anos de idade.

Já Eva Neto, de 47 anos de idade, relatou que frequenta o cemitério há 15 anos, pois aqui está sepultado o seu primogénito. “Quando chega o dia 2 de Novembro, o meu coração “quebra”. Titi, o meu primogénito, nunca mais aparecerá”, lamenta.

A par com as homenagens, o movimento de pessoas à procura de flores nos arredores dos cemitérios de Luanda intensificou-se nas últimas horas.

Nesta correria, alguns clientes ouvidos pelo Novo Jornal Online reclamam dos preços, que dizem disparar nesta altura do ano, informação desmentida pelas vendedoras.

Segundo informações recolhidas no local, cada arranjo custa entre os 1.000 e os 15 mil Kwanzas, valores que, garante quem vende, não variam com a proximidade do Dia dos Finados.

Com ou sem alteração no tarifário, a doméstica Ermelinda José Cadi chora sem flores a perda de três filhos durante a epidemia de febre-amarela que assolou o país no ano passado.

“Vou ao cemitério apenas para fazer limpeza nas três sepulturas, porque não tenho dinheiro para flores”, lamentou.

Ao mesmo tempo que se discutem preços, ouvem-se críticas sobre o alegado esquecimento a que os finados são votados no resto do ano.

“Todos os dias devem ser recordados, porque fizeram parte das nossas famílias, e conviveram connosco”, defendeu ao Novo Jornal Online, Adriana Neto Sango.

Para cumprir o ritual, Afonso Abreu João vai ao cemitério onde está enterrado o filho, Armindo Afonso, enfeitando o seu túmulo com flores, para além de acender velas e celebrar uma missa em memória daqueles que deixaram o mundo dos vivos.

“O Dia dos Finados é uma data na qual as famílias lembram os falecidos. A morte é o cessar definitivo da vida, que pode acontecer por diferentes motivos, como doenças, acidentes ou violência”, lembrou.

Na semana em que se assinala o Dia dos Finados, o Governo Provincial de Luanda anunciou a construção de quatro novos cemitérios nos municípios de Cacuaco, Icolo e Bengo, Belas e Viana.

Segundo o director de cemitérios e morgues, Filipe Mahapi, os planos decorrem do crescimento demográfico verificado na província, principalmente nas zonas periféricas da capital. (Novo Jornal Online)

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