Milhares de famílias na rota de calamidades

(EPA)

MILHARES de agregados familiares das cidades de Maputo e Matola e vila de Boane verão as suas residências e pátios inundados nesta época chuvosa por renitência em continuar a viver em zonas impróprias e também pela incapacidade dos municípios em os retirar daqueles locais ou travar a ocorrência de novas construções.

O fenómeno não é de hoje. Este repete-se anualmente, embora entre duas épocas chuvosas assista-se a algumas acções tímidas de retirada de um e outro agregado ou embargo de novas construções.

Várias razões são apontadas para que os três municípios acima mencionados tenham hoje comunidades a viver em áreas inadequadas, mas destaca-se a falta de cautela dos cidadãos em avaliar as condições nos lugares onde se instalam e a demora dos Governos municipais em agir para evitar que a terra urbana seja tomada de forma desregrada.

Na cidade de Maputo, os bairros mais críticos são Hulene “B”, próximo da lixeira, Maxaquene, Inhagoia, Magoanine e Luís Cabral. Só no Hulene “B”, os dados oficiais apontam para a permanência, neste momento, de cerca de 300 famílias que se preparam para as inundações.

Na Matola, a lista é vasta e abrange as zonas de Nkobe, Ndlavela, Matola-Gare, Km 15, Liberdade, Matola “A”, entre outros.

Quanto a Boane, as autoridades estimam em 1700 as famílias que vivem em lugares susceptíveis de serem afectados pelas enchentes de água das chuvas, que já começaram, embora ainda de forma ténue.

Ao que apuramos semana passada durante uma visita de trabalho de uma brigada do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), as três autarquias vem realizando algum trabalho tendente a evitar o sofrimento dos munícipes, mas é dado adquirido que vai haver sofrimento. As famílias serão apanhadas nas bacias e/ou corredores da água.

As 1700 famílias de Boane vivem na localidade de Gueguegue, na vila municipal.

Mas há outros milhares de agregados, já da localidade Eduardo Mondlane, que se encontram expostos a vendavais, que igualmente são esperados neste período que se estende até Março do próximo ano.

O Conselho Municipal local conhece o problema e garante estar a movimentar-se para mitigar os efeitos da natureza, mas as soluções levarão ainda algum tempo, cabendo a cada família organizar-se com meios próprios.

Falando durante a visita da brigada do INGC, o vereador de Urbanização em Boane disse que para o caso de Gueguegue, a solução é o reassentamento na zona alta de Chitevele.

Actualmente, de acordo com Rodrigues Macuácua, decorre o parcelamento e atribuições de terrenos concretamente na comunidade de Nwakombo. Há ainda que limpar as ruas e instalar paulatinamente serviços básicos.

Contudo, a transferência das famílias, que precisará de apoios em materiais de construção, só poderá ser concluída entre Junho e Julho do próximo ano.

Já para o caso de Eduardo Mondlane, o município liderado por Jacinto Loureiro vai começar com a distribuição de mudas de árvores já grandes pelo que acredita-se que possam reduzir o impacto de ventos, que em Fevereiro do ano passado mataram sete pessoas e destruíram milhares de casas e demais infra-estruturas.

Trata-se de pinheiros, casuarinas, eucaliptos e acácias que estão a ser multiplicadas numa parceria do município com o Instituto Agrário de Boane. Macuácua disse que a distribuição já arrancou, mas espera-se a queda das chuvas para intensificação uma vez ser impossível contar com a água do Rio Umbeluzi para a rega devido a estiagem.

Na Matola, onde já se mapearam as zonas de risco, cidadãos e empresas ignoram as placas indicativas do perigo e erguem infra-estruturas.

Esporadicamente, o município faz demolições, mas as construções continuam, não se sabendo ao certo quando é que este “braço de ferro” cessará.

A vereadora de Saúde, Género e Acção Social na Matola, Paula Jacude, levou a delegação à Tchumene 1, onde a autarquia acaba de destruir casas de 42 famílias que viviam à beira do rio. Actualmente decorre o reassentamento nas imediações da nova fábrica da Coca-Cola, mas o processo está longe de ser pacífico. As famílias queixam-se de abandono por parte do Governo, que não lhes ajuda a se instalarem no novo bairro e nem água fornece.

Não obstante as demolições feitas junto de uma área nobre no Tchumene, Matola assiste impavidamente o florescer de um bairro clandestino junto a Portagem de Maputo, numa área sem as mínimas condições de habitabilidade nem saneamento do meio.

Paula Jacude diz que as famílias já deviam estar a viver em Boane, mas recusam-se a sair.

Em bairros como Nkobe, Liberdade e outros, os problemas são ainda maiores. Trata-se de zonas parceladas pela autarquia e que numa primeira fase pareciam óptimas para habitação, mas que nos últimos anos revelam ser autenticas bacias e/ou corredores de água.

Durante a época chuvosa a água nos quintais chega aos joelhos e mesmo na parte seca do ano a humidade nunca desaparece.

Armindo Alfiado Tai, secretário do Hulene “B”, disse que haviam contabilizado mais de 600 agregados na baixa do bairro. Pelo menos 262 foram já transferidos para Marracuene, mas o processo emperrou.

Por sua vez, Yolanda Manuel, vereadora de Saúde e Acção Social na capital, disse não haver um horizonte temporal para a conclusão da retirada das famílias devido a conjuntura económica em que o país se encontra.

Garantiu ser desejo da autarquia com 130 anos concluir o reassentamento “o mais urgente possível”, mas não se sabe quando concretamente.

Queixas das vítimas

Tantoa acção das autoridades em retirar as pessoas das zonas de risco como a demora em agir gera queixas.

Em Hulene “B”, David Carlos disse que o Conselho Municipal nada faz para os reassentar em zona segura. Há anos, alguns vizinhos foram retirados do bairro, mas de repente o processo parou ainda com famílias na água.

A situação foi corroborada por Anacleta Agostinho, que desde 2015 vive na casa de uma tia junto a um caniçal. Também disse estar na expectativa de ser reinstalada num novo bairro, mas o desejo demora realizar-se.

Já no Tchumene, Cândida Cumbe, cuja casa de dois quartos, sala e varanda foi deitada abaixo pelo município, deplorou a forma como o reassentamento decorre.

“Não negamos sair daqui, mas falta-nos carro para transportar-nos à nova zona. Dói ver entulho do que era minha casa”, lamentou.

Arsénio Romão, outro afectado pelas demolições, acrescentou o facto de a transferência vier a resultar na perda do ano lectivo por parte das crianças. Deplorou o abandono ao qual estão votados pelo município, que nunca mais aloca camião para levar o resta das suas casas para o novo bairro.

mais actuação

Rui Costa, chefe da brigada do INGC que visitou Maputo, disse que a ideia era avaliar o grau de prontidão dos municípios face a previsão de inundações urbanas e vendavais.

Sensibilizar as comunidades a abandonarem as áreas de risco foi outro foco da missão, que abrangeu Maputo, Matola e Boane.

Mostrou-se satisfeito pelo trabalho realizado, mas disse aproximar-se a hora em que as autoridades terão que ser mais duras para evitar contínuas construções em zonas de risco pois o fenómeno acarreta custos elevados demais.

Apelou a todos os agregados que vivem em bairros susceptíveis de inundar a abandoná-los agora, sob pena de perderem os seus bens que juntaram com sacrifício.

Arquitecto de formação, Costa recomendou melhorias nos moldes de construção, garantindo que parte significativa dos danos gerados nas infra-estruturas por vendavais é gerada por atropelos de regras básicas e uso de materiais inadequados. (Jornal de Notícias MZ)

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