Memória de Outubro assombra Rússia de Putin

Vladimir Ilyich Ulyanov, conhecido como Lenine (1870-1924), durante um discurso em Moscovo (DR)

O centenário da revolução que teve tão grande impacto na Rússia e no mundo parece ter colocado um dilema sério à Rússia de Vladimir Putin. Outubro e o passado soviético continuam ainda a dividir a sociedade russa.

John Reed chamou-lhe, numa reportagem célebre, “os dez dias que mudaram o mundo”. E o historiador Eric Hobsbawm faz data da tomada do poder pelos bolcheviques, a 7 de outubro de 1917, um momento fundador, tão crucial para os destinos do séc. XX como o foi 1789 para o séc. XIX.

Por todo o mundo historiadores, académicos, políticos e militantes de todas as causas continuam a debater apaixonadamente os mais diversos ângulos dos acontecimentos de 1917 – da efémera experiência de fevereiro ao sonho libertário dos sovietes, das condições e do alcance da tomada do poder pelos bolcheviques ao papel do próprio leninismo, da guerra civil e da intervenção estrangeira na deriva estalinista – e dos seus efeitos nos destinos da União Soviética, do comunismo e do sonho da Revolução.

E, no entanto, na pátria da Revolução, o 100 .º aniversário de Outubro está a ser assinalado de uma forma surpreendentemente discreta. Numa Rússia em que a história é convocada a um papel político de primeira linha, os responsáveis do Kremlin abstiveram-se de formular uma versão oficial dos acontecimentos de 1917. O debate público sobre a memória de 1917 tem-se limitado aos círculos intelectuais. A nível dos media, os cem anos da revolução apenas inspiraram algumas iniciativas como uma polémica série transmitida no Canal 1 da televisão oficial russa e centrada na figura de Leon Trotski ou uma série de montagens num portal online organizadas pelo jornalista Mikhail Zygar que dá vida a políticos, artistas e intelectuais do período da revolução. A própria televisão de Estado tem dedicado pouco espaço à memória e ao debate do significado e da herança do ano de 1917.

O 100.º aniversário da Revolução será um dia discreto quanto a manifestações públicas. Só o Partido Comunista Russo dará largo destaque ao aniversário assumindo a bandeira e a herança da revolução numa série de comícios e manifestações em Moscovo e por toda a Rússia.

A memória de Outubro

O Dia da Revolução era das datas mais assinaladas no calendário soviético. O impulso revolucionário de Outubro era já um eco, longínquo mas, num plano meramente retórico e iconográfico que fosse, os ideais da revolução continuavam a inspirar o discurso oficial. Para os soviéticos era o mais popular feriado do ano, o dia em que todos se saudavam com Sprazdnikom! (boa festa!).

Um quarto de século depois do colapso da URSS, a memória de Outubro continua muito presente na paisagem russa, mas com expressões por vezes desconcertantes. O último czar e a sua família foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa em 2000, mas uma estação de metro de Moscovo continua a ter o nome de Piotr Voikov, o responsável pela execução da família imperial. Em 1991, o monumento a Felix Dzerjinski, o fundador da Tcheka, foi apeado do seu pedestal em Moscovo e Leninegrado recuperou o seu nome imperial, São Petersburgo. Mas continua a haver ruas Lenin, Marx, Komsomol (Juventude Soviética), e Ditadura do Proletariado por toda a Rússia. Moscovo tem um cinema Outubro e uma Praça da Revolução.

Na sociedade russa, as opiniões sobre os acontecimentos de Outubro de 1917 dividem-se. Uma sondagem conduzida pelo instituto Levada Centre em abril último apurou que 48% dos russos viam a Revolução de Outubro como um acontecimento positivo, enquanto 31% a avaliavam de forma negativa e 21% hesitavam na resposta. O papel de Lenine na história merece uma apreciação positiva de 53% dos russos, contra apenas 27% com uma visão desfavorável.

Mas numa sondagem de dezembro de 2016 da radio Ekho Moskvy sobre a revolução de fevereiro de 1917, apenas 47% dos inquiridos aprovaram o derrube de Nicolau II, contra 53%. Outras sondagens revelam ao mesmo tempo que o número dos que acreditam que os primeiros anos após 1917 trouxeram “mais mal do que bem” aumenta consistentemente, crescendo dez pontos percentuais ente 1984 (38%) e 2016 (48%).

As gerações de cidadãos que alimentam ainda uma memória romântica da revolução ou alguma nostalgia do período soviético vão sendo vencidas pelos anos, e, para os mais jovens, Outubro é uma memória longínqua.

A “história milenar” da Rússia

A história, a interpretação do passado e a manipulação da memória transformaram-se numa arma política na Rússia de Putin. O regime elaborou uma narrativa oficial da história pátria que celebra séculos de grandeza da Rússia ao sabor das grandes campanhas bélicas do passado (incluindo a ocupação da Crimeia em 2014), das biografias de líderes políticos e militares, e em que os russos são convidados a reconhecer um destino nacional e um motivo de identidade, de coesão e de orgulho.

O próprio Putin teve um papel crucial na elaboração desta visão oficial da “história milenar” da Rússia. Foi ele que determinou como os russos deviam ver acontecimentos como a transferência da Crimeia para a Ucrânia por Nikita Krutchov, o Pacto Molotov-Ribbentrop ou a importância de figuras como Piotr Stolypin, primeiro-ministro do império no início do séc. XX (1906-1911) que procurou conter o impulso revolucionário através de uma série de reformas.

Mesmo figuras de um passado distante foram convocadas para esta narrativa, como Vladimir, o Grande, o príncipe de Kiev que adotou o cristianismo em 988, a quem foi erguido uma estátua junto ao Kremlin em 2016 – o que gerou polémica com a Ucrânia. Foi mesmo erigido um monumento a Ivan, o Terrível, uma figura cruel mas que marca a expansão do território russo no séc. XVI.

Uma narrativa em que não há lugar para derrotas, dúvidas ou episódios críticos. Aspetos dramáticos, e que continuam a dividir a sociedade russa, como as purgas de Estaline ou o Gulag. O regime permitiu a construção no centro de Moscovo de um monumento para comemorar as vítimas da repressão estalinista, mas parece apostado em dissuadir formas mais vigorosas de desestalinização. O Memorial, organização que perpetua a memória das vítimas do estalinismo, foi chamada “agente estrangeiro” pelo governo russo.

A vitória na Grande Guerra Patriótica contra a Alemanha nazi é cada vez mais o momento eleito pelo regime para celebrar a grandeza da Rússia e a unidade. O 7 de Novembro de 2016 foi assinalado com uma recriação da parada militar realizada na Praça Vermelha em novembro de 1941, após a qual as tropas marcharam diretamente para a frente.

“A elite russa nacionalizou a memória histórica” – diz Andrei Kolesnikov, do Carnegie Center Moscow. “E instalou a ideia de que quem põe em causa o sistema político russo está a minar a vitória partilhada do país.”

Putin e a Revolução

O centenário da Revolução parece ter colocado um problema dilemático ao regime de Vladimir Putin: como enquadrar a Revolução de Outubro nesta narrativa oficial da história russa. A Revolução de Outubro foi o berço da URSS, garantiu de algum modo o espaço do defunto império russo e lançou os alicerces das conquistas sociais, militares e científicas soviéticas que o país continua a reivindicar. Mas a própria ideia de “revolução” joga mal com um regime que faz da estabilidade política e coesão social um dos seus baluartes.

As poucas ocasiões em que Putin se referiu especificamente à Revolução de Outubro sugerem que o presidente russo olha para os acontecimentos de 1917 com marcada reserva. No discurso sobre o Estado da Federação, de dezembro, o presidente russo alertou contra os perigos dos levantamentos políticos. “Conhecemos bem as consequências que essas grandes convulsões trazem. Infelizmente, o nosso país passou por muitas dessas convulsões e as suas consequências no século XX”, disse Putin.

“Quando olhamos para as lições de há um século, vemos quão ambíguos foram os resultados e como houve consequências tanto negativas como positivas desses acontecimentos” – afirmou. “Temos de nos perguntar se não teria sido possível avançar, não através da revolução mas de uma evolução, sem destruir o Estado e arruinar o destino de milhões, através de um progresso passo a passo.” Numa palavra, a Rússia “não necessitava de uma revolução global”.

Pontos nos ii, Putin considerou que o 100.º aniversário das revoluções de fevereiro e de outubro de 1917 “será um grande momento para olhar para trás e rever as causas e a natureza dessas revoluções na Rússia”, mas lembrando sempre ao mesmo tempo que “somos um só povo e temos apenas uma Rússia”.

Numa palavra, o presidente apelou a uma atitude de “respeito” e a “uma análise objetiva e honesta” da “história comum do pais”, mas abstendo-se de formular uma leitura definitiva dos acontecimentos de 1917. O Kremlin remeteu a questão do centenário à esfera académica nomeando um comité oficial com a missão de organizar seminários, conferências e outros eventos.

Os fantasmas de 1917

De algum modo 1917 destoa da versão da história russa do Kremlin como uma longa e unificada marcha para um estatuto e um lugar no mundo que Putin tanto se tem esforçado para devolver ao país. Por outro lado, assinalava o The Guardian, há uma incómoda falta de figuras “heroicas” na revolução – nem o czar deposto, Nicolau II, nem Kerenski, a figura central no governo provisório, nem o próprio Lenine reúnem condições de cumprir o papel de alguém com quem a atual liderança se possa identificar.

Mas o embaraço mais sério que o centenário de Outubro terá colocado ao Kremlin passará ainda pelo potencial de discórdia que a memória de 1917 encerra ainda. Andrei Kolesnikov recorda que a própria ideia de devolver a propriedade da Catedral de Santo Isaac à Igreja Ortodoxa, avançada pelo Estado em janeiro deste ano, como gesto de reconciliação a posteriori entre Vermelhos e Brancos, deparou com viva resistência em São Petersburgo, acabando por gerar mais divisões do que o almejado pedrão mútuo.

As divisões acerca de Outubro de 1917 e do passado soviético poderão assim explicar a relutância do regime em assumir uma posição clara sobre o centenário e terão desaconselhado grandes celebrações. Curiosamente, o Kremlin decretou há dez anos um novo feriado, o Dia da Unidade Nacional, a 4 de novembro – apenas a três dias do aniversário da Revolução -, que jogará decerto melhor com a narrativa oficial.

Historiadores como Orlando Figes insistem no carácter especificamente russo da tomada do poder pelos bolcheviques e veem uma linha de continuidade – uma “herança de séculos de escravatura e poder autocrático que manteve o povo comum impotente e passivo” – nos regimes que atravessaram a história russa até ao presente.

Uma forma, polémica sem dúvida, de sublinhar a importância que a Revolução de Outubro continua a ter para compreender o presente e muitos dilemas da Rússia. Em Moscovo, há mesmo quem arrisque que Putin e os seus devem estar impacientes para ver este centenário pelas costas.

A Revolução de Outubro e as suas consequências continuarão ainda durante muito tempo a alimentar apaixonada polémica. Se, para uns, Outubro representa ainda a própria essência da utopia revolucionária, o centenário da Revolução tem inspirado a outros análises que insistem em extrair de 1917 uma grelha de leitura do presente, e em particular da Rússia de Putin. Para uns e outros, Outubro continua a ser uma referência absoluta. Como diria ainda Figes, “os fantasmas de 1917 ainda não dormiram o seu último sono”.
(Diário de Notícias)

por Carlos Santos pereira

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