Legionella “é um outro tipo de incêndios”, o risco sempre esteve lá

(DR)

O presidente do Sindicato Nacional dos Técnicos Superiores das Áreas de Diagnóstico e Terapêutica, falou com o Notícias ao Minuto sobre o surto de legionella em Lisboa e esclareceu que a greve dos técnicos de diagnóstico e terapêutica não tem qualquer impacto na prestação de cuidados aos doentes infetados.

Almerindo Rego descreve este novo surto de legionella como “uma situação grave que está acontecer novamente no país”. Recordando o caso de Vila Franca de Xira, que eclodiu em novembro de 2014, provocando 12 mortes entre as 375 pessoas infetadas, o presidente do Sindicato dos Técnicos de Diagnóstico e Terapêutica sublinha que já no passado alertou para as carências de prevenção nesta área da saúde pública.

Começando por dizer que estes casos “têm uma origem grave e estrutural”, que tem a ver “mais uma vez, ao que parece, com as torres de refrigeração e com a qualidade da água com que são alimentadas”, o sindicalista aponta duas questões que contribuem para o agravamento do risco.

“Nós não concordamos minimamente que o controlo destas torres de refrigeração seja feito através de empresas privadas. Achamos que tem de ser através de serviços públicos da área da saúde ambiental. Em segundo lugar, muito provavelmente, todo o estrangulamento financeiro que se vai vivendo neste país em múltiplas áreas – e a Saúde é uma delas – é um mau conselheiro para que se acautelem este tipo de situações”, afirma.

No entender de Almerindo Rego, “toda esta área de prevenção carece de uma reforma profunda, que do nosso ponto de vista continua por fazer”.

Todos nós sabemos que há incêndios. Foi preciso acontecer uma catástrofe este ano para se acordar para aquilo que é necessário fazer. A questão da saúde pública é um pouco assim
“Um ou dois casos é normal, porque não conseguimos erradicar a legionella, até em nossa casa a podemos contrair”, esclarece, indicando, no entanto, que surtos com esta dimensão são indicativos de um problema profundo ao nível da prevenção.

“Todos nós sabemos que há incêndios. Ao que parece, foi preciso acontecer uma catástrofe este ano para se acordar para aquilo que é necessário fazer. A questão da saúde pública é um pouco assim, por vezes vai andando, sem acontecer nada porque não se vê, não se cheira, não se palpa, mas o risco está lá. Depois temos a eclosão de uma crise, temos as autoridades todas aflitas a tentar perceber. Não precisam de perceber, o problema esteve sempre no mesmo sítio”, faz sobressair.

O sindicalista destaca que se vive “um ano muito seco”, que afeta a qualidade das águas e que cria “uma fonte de risco acrescida que requer, obrigatoriamente, uma vigilância acrescida”.

Os técnicos de diagnóstico e terapêutica estão, desde a última quinta-feira, numa greve por tempo indeterminado. Conforme sublinha o presidente do Sindicato dos Técnicos de Diagnóstico e Terapêutica, “a esmagadora maioria dos serviços de radiologia, análise, cardiopneumologia e farmácia estão a 100%”, incluindo hospitais como o Egas Moniz, para onde foram reencaminhados muitos dos infetados com legionella neste surto.

Estão em greve, sim, mas estão a trabalhar para assegurar a prestação dos cuidados
“Nenhum dos doentes afetados pela legionella deixam de ser acompanhados pelos meus colegas, seja na área das análises clínicas, seja na área da saúde ambiental, que são dois setores que neste momento estão mais empenhados”, garante o sindicalista.

“Quando eu digo a 100%, ou seja, estando todos de greve, há uma percentagem que está acordada com os hospitais que têm de assegurar os serviços mínimos. Estão em greve, sim, mas estão a trabalhar para assegurar a prestação dos cuidados”, diz, destacando que esta percentagem “pode chegar a uma taxa de até 25% de todo o pessoal”.

“Há profissões que estão ligadas diretamente à prestação de cuidados com o caráter de urgente ou emergente e essas têm uma cobertura mínima de 25% nos serviços mínimos”, assegura Almerindo Rego.

“Um hospital tem todos os riscos de uma empresa”

Quando questionado sobre se poderá voltar a acontecer um surto numa unidade de saúde, onde as pessoas estão mais vulneráveis, Almerindo Rego alerta para o facto de “um hospital ter todos os riscos de uma empresa”.

“É grave acontecer num hospital porque é mais visível, mas isto nos últimos anos tem sido recorrente”, afirma, recordando um caso numa empresa na Maia, no ano passado, o caso de Vila Franca de Xira, em 2014, e até um hotel no Porto, “que esteve encerrado algum tempo”.

“Em matéria de vigilância epidemiológica nós estamos a falhar”, sustenta, sublinhado que “isto é um outro tipo de incêndios, um outro tipo de desastres, mas estes desastres são possíveis”.

Almerindo Rego ressalva, porém, que ainda não se pode dizer com toda a certeza que a origem são as torres de refrigeração porque “não há ainda nenhum estudo que nos possa dizer em definitivo qual é a origem” mas que “tudo indica” para que seja este o caso. (Notícias ao Minuto)

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