O charme inexaurível de Jane Fonda e Robert Redford

Robert Redford e Jane Fonda (ANDREA AVEZZU)

Na conferência de imprensa foram recebidos como se as muitas dezenas de jornalistas que enchiam a sala fossem fãs, em vez de profissionais: alarido, aplausos, quase toda a gente em pé. O filme que trouxeram a Veneza – “Nós, ao Anoitecer” de Ritesh Batra, uma história de amor improvável, produção de Redford para difusão na Netflix (estreia em Portugal já no dia 29) – não é de modo a causar entusiasmos, mas a sua presença no festival – e o Leão de Ouro à Carreira com que ambos foram homenageados – representa mais do que um filme.

Representa duas vidas inteiras: a de uma atriz, parte da dinastia Fonda, que nunca foi acomodada ao berço que lhe abria uma avenida, muito pelo contrário; e a de um ator que, de belo galã de uma geração, evoluiu para realizador, produtor e, sobretudo, para o visionário criador de Sundance que mudou o panorama do cinema independente – e não só americano. E representa também, não é possível não perceber, duas personalidades que sempre tiveram posições políticas liberais e desalinhadas quanto a bom comportamento. Em Veneza, Redford recusou-se a falar de política – mas ainda disse que há que olhar o futuro, ver para lá do presente onde não parece haver muita esperança. E Jane Fonda afirmou a defesa do planeta como o combate primordial, em particular no que se refere às alterações climáticas.

E o filme? Quanto ao filme, há que dizer que o que ele tem de essencial acontece logo no princípio, quando a personagem de Jane Fonda, viúva, vai a casa de um vizinho, interpretado por Robert Redford, viúvo também, e lhe diz que teve uma ideia: não quererá ele ir, de vez em quando, a casa dela – dormir com ela? E logo acrescenta: não se trata de sexo, trata-se de se terem um ao outro para conversar. As noites são difíceis de adormecer quando se está só.

O que daqui para a frente vai acontecer é mais ou menos previsível, tanto mais que ambos têm filhos adultos, vivem numa cidade pequena onde todos se conhecem, as pessoas falam. Mas são livres, e portanto… Ritesh Batra conduz o barco com elegância, todavia tudo se apoia na dupla de atores. Talvez nem haja muita ‘química’ entre ambos, mas é tão delicioso vê-los representar entre o charme e a ironia que o filme escorre tão bem quanto um velho cognac ao fim da noite. (Jornal Expresso)

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