Molho de «Peito alto» intragável para «camaradas»

Higino Carneiro - Primeiro secretário do MPLA Luanda (Foto: Angop)

Depois do tremendo susto que foram os resultados conseguidos em Luanda, é voz corrente nos corredores do «Kremlin» não existir ânimo entre os «camaradas» e mesmo em Higino Carneiro para a continuidade deste à frente dos destinos da capital do país, um território até então inexpugnável para o MPLA, mas onde desde 2012 tem vindo a perder terreno à vista desarmada.

É entendimento no seio da «Grande Família» que Higino Carneiro (HC) terá falhado clamorosamente no trabalho de casa, por não ter conseguido descobrir uma fórmula mágica para convocar os votos necessários para o partido e, com isso, ofuscar a Oposição. Antes pelo contrário: viu-se uma Oposição a ganhar musculatura bastante em terrenos até então proibidos, sinal de que o partido declarado vencedor nas últimas eleições tem vindo a perder espaço e ver aumentada alguma impopularidade em recintos políticos tidos como seus feudos.

Os «camaradas» esperavam muito mais do «general» que governa a capital angolana. Afinal, entrou triunfante pela porta grande de Luanda, como quem chegou, viu e poderia vencer folgadamente. E ao entrar para a «cidade grande» fê-lo com o rótulo de um quase «messias», capaz de desfeitear a Oposição da «ousadia» de ter conseguido ‘roubar’ um lugar dos cinco em disputa em Luanda.

Aliás, quando deu entrada no «Palácio da Mutamba» feito salvador, apresentando-se como a única pessoa capaz de trucidar os «assanhados» do «lado de lá», Carneiro teve luz-verde dos seus camaradas para criar o seu próprio «dream team», com integrantes que na sua óptica garantiriam o resgate da hegemonia vermelha, preta e amarela na maior praça eleitoral do país.

E conseguiu: colocou as peças que achava certas para o seu puzzle, com as quais acreditava montar uma equipa imbatível, perfeitamente oleada para uma goleada de cinco e fazer esquecer o resultado de 4-1 de 2012.

Quem assim pensou enganou-se redondamente: Luanda deu, uma vez mais, uma lição de que doravante só os nomes não contam. Ou melhor, que os tempos são outros e que as fórmulas mágicas do passado já caíram em desuso para uma população cada vez mais heterogénea, que deixou de olhar apenas para a cor dos olhos e para a retórica e passou, isto sim, a exigir mais do que apenas promessas de melhorias.

«Higino veio para Luanda com a fama de que bastava só chegar para resolver tudo, mas acabou por sucumbir nos enormes problemas que a capital apresenta todos os dias», referiu uma fonte do MPLA.

Por outras palavras, «Peito Alto» provou do mesmo veneno que os seus antecessores. Aliás, comportou-se pior que os anteriores governadores de Luanda. Nunca um outro governador da capital angolana conheceu pior saldo do que o seu consulado em período eleitoral – extremamente negativo no entender dos seus companheiros de partido.

Ademais, vale dizer que Higino trouxe para a capital uma mão cheia de nada. Tudo quanto foi inaugurado durante a campanha eleitoral – viadutos, pontecos, pedonais e outros – está inscrito no pacote das obras de responsabilidade central, daí que se limitou apenas a ladear e oferecer a tesoura para o corte da fita da praxe.

«Não foi capaz de atacar zonas de Luanda onde a Oposição goza neste momento de grande simpatia. Há muito que se sabe que Cacuaco e Viana cresceram de forma exponencial, com gente com inclinações para a Oposição, sobretudo a UNITA, mas mesmo assim não soube jogar na antecipação», acrescentou a mesma fonte partidária.

Curiosamente, para além de uma juventude cada vez mais contestatária às políticas da governação, os dois municípios (Cacuaco e Viana) acabaram por baralhar as contas dos «camaradas» em Luanda. Até mesmo as presenças de Carlos Cavuquila e Jeremias Dumbo – as apostas de HC para inverter o rumo dos acontecimentos nas duas circunscrições – revelaram-se autênticas setas desafiadas.

«Com aquilo que o homem prometeu, ninguém no partido acreditava que voltaríamos a perder lugar em Luanda. E agora vejam só: logo-logo dois lugares! Nunca se viu isso. O camarada Higino falhou mesmo…», lamentou a fonte que temos vindo a citar.

Dificilmente o «regedor de Calulu» permanecerá como principal inquilino do Palácio da Mutamba, se depender da vontade do novo «senhor» da Colina de São José que, dizem as fontes, terá franzido a testa com o «presente envenenado» vindo de Luanda. (Correio Angolense)

por José dos Santos

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