Mbanza Congo: Tanto passado para tão pouco presente

Com cerca de 173 mil habitantes, Mbanza Congo foi a capital do antigo Reino do Congo, com origens no século XIII e designou-se, por via da presença portuguesa no país, São Salvador do Congo até à independência, em 1975. (Foto: Sandra Bernardo)

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), declarou recentemente, por unanimidade, o centro histórico da cidade de Mbanza Congo como Património Mundial da Humanidade. Na semana em que as autoridades angolanas recebem o certificado internacional, que dá ao país um trunfo ímpar na captação de turismo internacional, o Novo Jornal Online fez-se ao caminho na tentativa de avaliar as condições que a secular cidade, situada no Zaire, a província mais a norte do país, oferece a quem a visita.

Com cerca de 173 mil habitantes, Mbanza Congo foi a capital do antigo Reino do Congo, com origens no século XIII e designou-se, por via da presença portuguesa no país, São Salvador do Congo até à independência, em 1975. Fundada antes da chegada dos portugueses, lar da dinastia que governou o Reino do Kongo, ali foi erguida a primeira Catedral católica, a primeira na África subsaariana, em 1549, pelos portugueses. O Papa João Paulo II visitou a cidade em 1992, por reconhecer a sua importância histórica na devoção cristã dos povos africanos.

Grande, grande é a viagem

São sete da manhã em Luanda. A equipa do Novo Jornal Online prepara o jeep para enfrentar aquilo que supõe serem meia-dúzia de horas de viagem. A surpresa é a estrada: recente, bem asfaltada, com os separadores visíveis, dá-nos a esperança de que a viagem será tranquila e célere. Os primeiros 200 quilómetros fazem-se bem e em boa velocidade.

Mas, como tudo o que é bom acaba depressa, eis-nos chegados a Nzeto. Esperam-nos longos quilómetros de buracos e obstáculos que só não retiram entusiasmo à empreitada porque, mesmo no cruzamento de Nzeto, começam as histórias para contar aos leitores.

Mandados parar pela polícia pela já quarta vez, o agente aborda-nos delicadamente. “Se podíamos dar boleia ao chefe, que também vai para Mbanzo Congo”. Respondemos “que sim, que podemos”, e o chefe Zé Manuel apresenta-se e entra no carro. É cordato, mas fala com resguardo e parcimónia. Oferecemos-lhe bolachas, que aceita com um agradecimento.

Ainda não tinham passado 20 minutos quando voltamos a ser mandados parar. Novo agente espreita para dentro da viatura, cumprimenta o chefe Zé Manuel, sorri e lança-nos a pergunta: “Podem também dar boleia ao nosso chefe? Ele tem de ir para Mbanza Congo, para onde foi chamado com urgência”. Mais uma vez respondemos que sim e o chefe, um homem jovial, também ele de nome Zé Manuel, entrou na viatura. A conversa discorreu sobre a cidade agora património da humanidade. Conta-nos que grande parte da população vive do comércio, da pequena agricultura de subsistência, da caça de javalis, coelhos, gazelas ou veados, mas, sobretudo, fala-nos sobre o caminho que nos espera até chegarmos à cidade. Foram, aliás, os avisos do segundo chefe da polícia que nos guiaram por trilhos esburacados e difíceis até Mbanza Congo.

Escusado será dizer também que, quando abordados por outros agentes, estes nos mandavam seguir sem demora logo que vislumbravam os nossos ilustres companheiros de viagem.

P’ró Que Der E Vier

A chegada à cidade acontece cerca das 17 horas, quase nove horas após a nossa partida de Luanda. Depois de deixarmos os dois polícias, dirigimo-nos àquele que é considerado o melhor dos dois únicos da cidade.

A simpatia do rapaz da recepção agrada-nos, pois é um bom princípio para uma cidade que tenciona receber turistas.

O hotel aparenta alguma degradação, mas a lazeira aperta e pedimos indicações sobre um bom restaurante. Responde-nos que apenas existe um digno desse nome: O “Seven”, do Grupo 7 Cunhas, inaugurado em 2013.

É lá que conhecemos o jovem Masanca Miguel Kumpuku, chefe de sala desde a inauguração do espaço.

“É o único que temos na cidade para receber turistas”, indica.

A carta é rica em propostas, mas estranhamos não haver qualquer prato de caça, tão rica na região. Os pratos são caros, a lembrar os preços de Luanda. Masanca Miguel explica que o restaurante apostou na cozinha internacional, o que nem sempre facilita a aquisição de produtos. “Vem tudo de Luanda”, diz, para justificar os preços dos pratos, que rondam os 5000 kwanzas.

Com 29 anos de idade, Masanca Miguel Kumpuku licenciou-se em história na República Democrática do Congo (RDC). Depois de ser professor durante cerca de dois anos e não conseguir colocação, optou por trabalhar no restaurante por falta de alternativa.

Conta que eram inicialmente 24 colegas. Só restam dois e os desafios são enormes.

“Trabalho para um patrão português e a sua exigência proporcionou-me conhecimento e experiência. Hoje sou uma pessoa competente e apta para atender quem quer que seja. E o meu ordenado está sempre em dia”, referiu.

Miguel considera que a cidade não está preparada para receber turistas e tece duras críticas às autoridades angolanas: “Só existe o património histórico, mais nada. Um estudante de história ou de arqueologia não terá onde comer ou onde dormir, quanto mais os turistas mais exigentes”.

“Até nós ficámos uma vez embaraçados, quando recebemos 80 turistas. Imagino o que será no futuro, quando chegarem aqui em grande quantidade”, observou.

Masanca Miguel diz que a cidade enfrenta um grande desafio nos próximos tempos, mas quer acreditar que o cenário pode mudar.

“As pessoas só falam da cidade que foi declarada como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, mas não calcularam o impacto dessa responsabilidade, tendo em conta a nossa realidade”, receou.

Na sua opinião, é preciso investir na cidade: “Mais e melhores unidades hoteleiras, mais restaurantes, mais formação”, expõe. “E uma forte aposta na cultura porque esta cidade pode viver do turismo cultural”, termina.

Deixamos o restaurante e o jovem Miguel para trás e regressamos ao hotel.

Apercebemo-nos de que foi construído com contentores logo à chegada aos quartos. Por 12 mil kwanzas, espera-nos um mau colchão, mas disso e de outras coisas lhe damos conta amanhã, leitor, que hoje o dia já vai longo e a noite já desceu sobre a cidade. (Novo Jornal Online)

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