Mbanza Congo: Cidade Património da Humanidade longe de estar preparada para receber turistas

Com cerca de 173 mil habitantes, Mbanza Congo foi a capital do antigo Reino do Congo, com origens no século XIII e designou-se, por via da presença portuguesa no país, São Salvador do Congo até à independência, em 1975. (Foto: Sandra Bernardo)

É dia de deixar para trás a bruma da cidade, um dos seus mais encantadores patrimónios. Imaterial, mas também da humanidade. E indestrutível, ao contrário daquele que foi edificado pelos colonos portugueses e que concorre para que Mbanza Congo seja a primeira cidade de Angola a receber o distinto certificado da UNESCO.

A confirmação da cidade de Mbanza Congo como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO é, porém, ainda desconhecida por muitos dos que vivem na cidade. Mesmo dos que lá nasceram e que nunca de lá saíram, sequer para ver o mar, que corre a não mais de 300 quilómetros de distância.

O Novo Jornal Online falou com várias pessoas que confirmaram desconhecer o quanto se tornou conhecida a sua cidade. É o caso de Albertina Santos, estudante do ensino do segundo ciclo na cidade de Mbanza Congo, que nunca tal ouviu dizer: “Ouço falar de Património Mundial da Humanidade, mas não tenho mas detalhes sobre o assunto”.

O professor do primeiro ciclo, Arnaldo Pindi, defende a realização de uma campanha de esclarecimento, a nível da província, para informar as pessoas da importância deste “galardão”.

“Esse trabalho já deveria ter sido feito há muito tempo. Não é justo, até pessoas bem esclarecidas desconhecem este assunto tão importante”, protestou.

Na opinião do professor, “da mesma maneira que realizaram as campanhas eleitorais, também podem fazê-lo com a divulgação dessa importante notícia”.

Na povoação de Kinsimba, município do Tomboco, encontrámos Antónia Makaia, uma camponesa de 56 anos. Essa não era, de todo, a sua principal preocupação: “Não sei o que é isso. Para nós, o mais importante é que o Governo resolva os nossos problemas de saúde, educação, alimentação… O resto é com eles”.

A “saúde”, ou melhor o estado da saúde em Mbanza Congo, levou-nos até ao hospital, última paragem da equipa do Novo Jornal Online na cidade. Está prometido, desde 2014, o novo Hospital Geral da província do Zaire, cujas obras estavam, segundo uma notícia da Angop, datada de Fevereiro de 2016, “já a 80 porcento” (à data da notícia).

“Com uma capacidade para 400 camas, 18 laboratórios de especialidades, nove blocos operatórios e diversas estruturas acopladas, o novo Hospital Geral da província do Zaire (…) prepara-se para ser, a partir de 2017, o principal destino de pessoas que procuram por serviços de saúde a nível da região norte e noroeste de Angola”.

A Angop citava o director provincial das obras públicas do Zaire, que explicava que o hospital estava a ser erguido em Mbanza Congo, “em função da sua localização, próximo da província do Uíge e do Bengo, da vizinha República Democrática do Congo, onde muitos cidadãos nacionais angolanos acorrem diariamente em busca de tratamento médico”.

O director tinha já, na altura, os olhos postos no futuro, tendo em vista a eleição de Mbanza Congo como património da humanidade.

A notícia falava ainda de um enorme “gigante erguendo-se no Zaire”. A equipa do Novo Jornal Online procurou o dito gigante e encontrou o edifício ainda com os mesmos 80 por cento de construção referidos na notícia de Fevereiro de 2016.

O Novo Jornal Online falou com uma fonte do Governo da Província, que não quis ser identificada e nos disse que o hospital está em construção mas não há data prevista para a sua inauguração. “As obras estiveram estagnadas, a responsabilidade, que era do Governo Provincial do Zaire, passou para o Governo Central”.

Dirigimo-nos à unidade que existe, hoje, em Mbanza Congo. Segundo uma fonte hospitalar, para além do número reduzido de médicos, faltam medicamentos.

“Os médicos não têm condições para trabalhar. Falta tudo”, diz-nos também Ferraz Keba Frazão, que o Novo Jornal Online encontrou internado com o filho de quatro anos, no hospital provincial do Zaire.

Para um enfermeiro, que também pediu para não ser identificado, “os médicos já denunciaram a situação ao governo da província, mas não tiveram retorno”.

Contrariando esta informação, uma fonte da direcção provincial do Zaire, disse ao Novo Jornal Online que 28 médicos internos gerais começaram a trabalhar, em Agosto em diversas unidades sanitárias, distribuídas pelas seis sedes municipais da província do Zaire, com vista a melhorar a assistência médica e medicamentosa às populações.

De acordo com a mesma fonte, “com o enquadramento desses novos profissionais, o sector da saúde ao nível da província passa a controlar 102 médicos de diversas especialidades”.

Informou ainda que “os referidos técnicos admitidos no quadro de um concurso público realizado este ano pelo Ministério de tutela foram distribuídos pelos municípios de Mbanza Congo, Soyo, Cuimba, Tomboco, Nzeto e Nóqui”, acrescentando que “os novos quadros foram devidamente orientados pelo ministro da Saúde quanto ao trabalho que deverão exercer junto das comunidades para garantir a assistência médica e medicamentosa da população residente na periferia da província”.

Ainda segundo a mesma fonte, com a classificação da cidade como Património da Humanidade, “o sector da saúde está bem preparado para receber turistas”.

Preparámo-nos para descer a colina. Talvez o melhor desta cidade sejam mesmo as pessoas. A sua afabilidade desconcertante, o seu desejo de paz, a sua singeleza e esperança em dias melhores. Tanto património imaterial!

Um furo faz-nos interromper a viagem e parámos na aldeia de Kimuana para recauchutar o pneu da viatura que nos transportava.

Somos recebidos por um bando de crianças, livres como pardais. Curiosas como só a infância o permite. Chamam o homem que há-de salvar-nos a jornada.

Joaquim Nkoxi foi ao interior da sua casa e saiu de lá com uma geringonça para recauchutar pneus que ligou à bateria do carro onde seguíamos. A energia eléctrica ainda não chegou à aldeia. “Mas há um posto médico”, dizemos nós ao avistarmos um edifício com essa inscrição. “E uma maternidade do outro lado da estrada”.

Joaquim Nkoxi desenganou-nos imediatamente: “Não funcionam”.

“O enfermeiro abandonou o seu posto de trabalho porque não tem medicamentos”, disse, contando que, para serem assistidos, são obrigados a deslocar-se a Mbanza Congo de táxi.

“Lá a história também é a mesma”, atalhou a esposa de Joaquim, Maria Nito.

O nosso relato termina, aqui, por agora. Mas esta história de uma cidade com muito passado e pouco presente à procura de um futuro ainda só agora começou, e por isso estaremos atentos a Mbanza Congo. Aos hotéis que, garantem, estão a ser construídos, ao “gigante” que há-de ser um hospital, ao prometido aeroporto, e ao “Festicongo”, um festival cultural que juntará Angola, República Democrática do Congo, Congo Brazzaville e Gabão”, que consta entre as recomendações da UNESCO e foi prometido pela ministra da Cultura, Carolina Cerqueira.

E vamos querer saber do “desenvolvimento das indústrias culturais na região, como forma de fomento do turismo, visando a criação de emprego e renda, sobretudo para os jovens, ao surgimento das pequenas indústrias de artesanato, música, escultura, entre outras manifestações artísticas”, que, segundo a governante, “para além de fortalecerem a transmissão dos conhecimentos sobre as tradições de Mbanza Congo e ilustrar aquilo que foi a sua inscrição na Unesco, poderão também ajudar no combate à pobreza”. (Novo Jornal Online)

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