Ex-traficante: ‘Muitos bandidos não sabiam nem como se trava a arma

(Arquivo) PMs em acção. (Foto: JusTocantins)

Gerente da maconha do tráfico de drogas de uma favela em Realengo até 2013, o ex-traficante X, de 32 anos, resolveu dar uma entrevista ao EXTRA para falar sobre o clima na cidade. Depois de ficar preso por dois anos e hoje trabalhando como balconista num comércio perto de onde era traficante, ele revela como funcionava a estrutura do crime organizado.

Como você classifica o que acontece no Rio ?

O Rio está em guerra há anos. Não é de agora que isso começou. A mídia só vendendo desgraças e a internet na mão de todos ajudaram a divulgar mais a calamidade vivida no estado. Porque há anos vivemos essas guerras entre facções, guerra entre o governo e o tráfico e uma guerra entre o governo e o governo. O Rio está perdido, e não sei dizer se o crime está mais organizado do que o governo ou se está organizado com o governo. Fato é que já está fora de controle e tentam abafar. Não entendo como uma comunidade cercada pela Força Nacional consegue arrastar três carretas roubadas para seu interior pelos bandidos. A guerra no Rio já está em todos os lugares.

Como o tráfico é estruturado ?

Existe uma hierarquia. Dentro das facções, existem vários cargos, e seria possível fazer comparação com as patentes militares, sendo que se mudam alguns nomes. É bem complexo.

Qual é a maior despesa do tráfico?

O custo mais alto está nas compras de fuzis. Cada um custa, em média, R$ 55 mil.

Quantos tinham na sua favela?

Tinha uma média de 40 fuzis, mas a comunidade é relativamente pequena.

Existe algum tipo de treinamento para que os garotos que trabalham no tráfico utilizem os armamentos?

Muitas vezes, os bandidos que portavam um fuzil não sabiam nem como se trava e destrava a arma. Não sabiam desmontar para fazer uma limpeza. Eles, simplesmente, tinham a doideira no sangue. Falavam que não tinham medo e que iriam “meter bala”. Agora, é claro que alguns recebem treinamento de manuseio e até instrução de tiro.

Mas quem dá essa instrução?

As pessoas que deveriam combater o tráfico. Mas também tem muitos bandidos que já dão baixa no Exército e entram direto para o crime.

De que maneira esses armamentos chegam às comunidades?

(Risos) Acho que tudo começa na fronteira. Meu caro, nas favelas não há refinaria nem plantações de maconha nem papoula, não há uma fábrica da Imbel, Colt, H&K, Glock, Kalashinikov, Bereta, Taurus, Ruger, entre outras fábricas de armas. Então, alguém traz. E essas pessoas, muitas vezes, são as mesmas que deveriam proibir. Alguém facilita essas entradas. Vejo na TV apreensões de drogas e armas nas rodovias. Mas para mim é só um cala-boca, porque o que é apreendido não é nem um terço do que passa na calada.

De que maneira você conseguiu sair dessa vida?

Consegui enxergar além da favela, pedidos da família, vi o mundo gigantesco que existe fora daqui e as possibilidades. Na verdade, o chefe chamava a minha atenção todo o tempo, dizendo: “Isso não é vida pra você, olha como eu vivo, não saio daqui, vivo me escondendo, não posso ver minha família nem curtir uma praia, apesar de estar tão perto, ela está longe”. Depois que saí da prisão, vi que era o momento de me libertar. (Jornal Extra)

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