A carta de Desmond Tutu a Aung San Suu Kyi: “O seu silêncio tem um preço demasiado alto”

A conselheira de Estado tida como a verdadeira líder de Myanmar, que foi laureada com o Nobel da Paz em 1991, continua a defender o Exército e a forma como o seu governo está a gerir a crise social e política no estado de Rakhine, onde continuam a amontoar-se denúncias de crimes contra a humanidade e genocídio da minoria muçulmana Rohingya (O bispo sul-africano, laureado com o Nobel da Paz em 1984, visitou Suu Kyi em 2013 SOE THAN WIN)

Desmond Tutu, o arcebispo da África do Sul que foi laureado com o Nobel da Paz em 1984 pelo seu trabalho contra o Apartheid, enviou uma carta a Aung San Suu Kyi a pedir-lhe que acabe com a violência estatal e militar contra a minoria muçulmana Rohingya, perante o crescente número de acusações de crimes contra a humanidade e suspeitas de genocídio no estado de Rakhine, no norte de Myanmar (antiga Birmânia) e depois de quase 150 mil membros da etnia terem fugido para o Bangladesh nas últimas duas semanas.

Na missiva, Tutu diz que não pode continuar calado perante os “horrores em curso” e a “limpeza étnica” dos Rohingya em Rakhine, que o levaram a tomar a decisão de criticar publicamente uma mulher que admira e que considera como “uma irmã adorada”. Apesar de a primeira conselheira de Estado de Myanmar, tida como a verdadeira líder do país desde 2016, continuar a defender a forma como o seu governo está a responder à crescente crise política, social e humanitária, o arcebispo de 85 anos pede-lhe que intervenha.

“Estou velho, decrépito e na reforma, mas quebro assim o meu voto de silêncio sobre questões públicas por causa desta profunda tristeza”, diz Tutu na carta enviada a Suu Kyi, também ela laureada com o Nobel da Paz em 1991 pelo seu ativismo contra a Junta Militar que governou Myanmar com mão de ferro durante mais de meio século, desde 1962 — e que manteve a atual líder em prisão domiciliária durante 15 anos, entre 1989 e 2010, com um interregno entre 1995 e 2000.

Na missiva, publicada no Facebook, o sul-africano acrescenta: “Durante anos mantive uma fotografia sua na minha secretária para não me esquecer da injustiça que sofreu e dos sacrifícios que aguentou por causa do seu amor ao povo de Myanmar. Foi um símbolo de justiça e a sua emergência na vida pública [com as eleições de 2015] dissipou as nossas preocupações sobre a violência que continua a ser perpetrada contra os membros [da etnia] Rohingya. Mas o que alguns classificamcomo ‘limpeza étnica’ e outros como ‘genocídio lento’ persiste — e está a acelerar. É incongruente que um símbolo de justiça lidere um país assim. Se o preço político da sua ascensão ao mais alto gabinete público de Myanmar é o seu silêncio, o preço é seguramente demasiado alto.”

Tutu não é o primeiro Nobel a criticar publicamente Aung San Suu Kyi, exigindo-lhe que faça mais para garantir a proteção da minoria muçulmana que, ao longo de décadas, nunca teve direitos nem nacionalidade reconhecidos em Myanmar, numa campanha de repressão e perseguição que, no final do ano passado, conduziu à emergência de um grupo de rebeldes treinado e financiado pela Arábia Saudita que está a pegar em armas para se defender.

Na segunda-feira, Malala Yousafzai, a mais jovem laureada Nobel, disse que “o mundo está à espera” que Suu Kyi faça qualquer coisa para acabar com a situação insustentável dos Rohingya. “De cada vez que vejo as notícias, o meu coração parte-se”, escreveu a activista paquistanesa no Twitter. “Nos últimos anos, condenei repetidamente este tratamento trágico e vergonhoso [dos membros da etnia muçulmana]. Continuo à espera que a minha parceira Nobel Aung San Suu Kyi faça o mesmo.”

Note-se que, no final de 2016, no rescaldo do primeiro ataque pelo autoproclamado Exército Arakan de Salvação Rohingya (HaY) e da morte de sete soldados, um grupo de mais de uma dúzia de laureados Nobel, entre eles Malala e Tutu, já tinha enviado uma carta ao Conselho de Segurança da ONU alertando-o para a “limpeza étnica” em curso no norte da antiga Birmânia.

Na passada terça-feira, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterrres, juntou a sua voz à crescente lista de críticos, sublinhando que as “operações de limpeza” em Rakhine (como são classificadas pelos militares em resposta a recentes ataques do autoproclamado Exército Arakan de Salvação Rohingya) “arriscam” transformar-se na limpeza étnica dos Rohingya e pedindo que seja reconhecida nacionalidade aos que integram a minoria, cerca de 1,1 milhões de pessoas que vivem concentradas no estado do norte.

No site Change.org, uma petição que exige a retirada do Nobel da Paz a Aung San Suu Kyi ultrapassou as 380 mil assinaturas esta sexta-feira. Esta quinta-feira, a líder de facto de Myanmar proferiu as suas primeiras declarações públicas desde o início da nova incursão militar em Rakhine no final de agosto. “É pouco razoável esperar que resolvamos este problema em 18 meses”, disse ao canal Asian News International, citando o período que passou desde a sua ascensão ao poder. “A situação em Rakhine tem sido assim durante muitas décadas, remonta à era pré-colonial” — Myanmar foi uma colónia da coroa britânica entre 1824 e 1948, quando ganhou independência.

Segundo cálculos da ONU, nas próximas semanas as operações do Tatmadaw (Exército) em Rakhine poderão conduzir à deslocação forçada de até 300 mil Rohingya no Bangladesh. Os militares, que antes de abandonarem o poder aprovaram uma lei para impedir que Suu Kyi fosse eleita Presidente e que continuam a controlar vários ministérios, entre eles o do Interior, defendem as ações como integradas no combate ao “terrorismo. O governo diz que cerca de 400 pessoas já morreram nas duas últimas semanas, com funcionários da ONU no terreno a dizerem que o balanço de vítimas pode ultrapassar as mil — tem sido impossível verificar de forma independente estes dados porque o Executivo de Suu Kyi tem impedido o acesso de equipas humanitárias a Rakhine, numa altura em que ONG locais como a Arakan Project acusam o Exército de estar a queimar os corpos dos Rohingya para apagar as provas de genocídio.

Na carta aberta publicada por Tutu esta sexta-feira, o arcebispo diz que é altura de Aung San Suu Kyi intervir para acabar com a perseguição e repressão da minoria étnica. “Enquanto assistimos a este horror em curso, rezamos para que seja novamente corajosa e resiliente. Rezamos para que fale publicamente em nome da justiça, dos Direitos Humanos e da união do seu povo. Rezamos para que intervenha nesta crise em escalada e para que guie o seu povo de volta ao caminho da justiça.” (Jornal Expresso)

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