Sebastião António Martins autografa “André Kassinda – Um Angolano, Um Ideal, Uma Vida”.

Sebastião Martins (DR)

“André Kassinda – Um Angolano, Um Ideal, Uma Vida” é o título da mais recente obra do antigo ministro do Interior, Sebastião António Martins, que vai ser lançada na próxima Sexta-feira, no Mausoléu Dr. António Agostinho Neto, em Luanda. O autor procurou com o livro descobrir quem era o seu progenitor, que ele não chegou a conhecer na sua infância. Mais pormenores na conversa que se segue.

Antes de mais parabéns por esta nova publicação. Este seu novo livro é muito diferente do último: «Labirintos Mundiais: As Revoluções Pós-Modernas e os Caminhos da Incerteza Global». São formatos muito diferentes, pois não?

Sim, totalmente. O livro «Labirintos Mundiais: As Revoluções Pós-Modernas e os Caminhos da Incerteza Global» derivou da minha dissertação de mestrado. O contexto da publicação era outro, mais académico ou, se preferirmos, mais formal. Neste livro, «André Kassinda – Um Angolano, Um Ideal, Uma Vida », a formalidade transformou-se em afectuosidade. Foram os laços emocionais que deram o mote à publicação.

Pode explicar-nos melhor que laços são esses?

Ora bem, André Martins Kassinda além de ter sido um nacionalista angolano, que lutou pela independência da nossa nação, é meu pai. Este facto não é um «pormenor», é antes uma condicionante permanente na investigação. Ou seja, o que quero dizer é que raramente consegui analisar o assunto, o objecto em estudo, como o método académico lhe chama, sem um distanciamento emocional. Neste sentido, foi muito importante ter como apoio uma equipa de investigação que me fazia descer aos factos. Ajudaram-me a não esquecer que além de um pai, havia um revolucionário, contextualizado por um período histórico muito particular: o da luta pela liberdade de Angola. Foi um processo de conhecimento muito interessante.

E calculo que muito trabalhoso…

Sim, sem dúvida. Muito trabalhoso. Foi necessário partir do zero. Quando comecei este trabalho, sabia muito pouco sobre o meu pai.

E porque decidiu fazer este livro?

Provavelmente pelo que lhe acabei de dizer: por quase nada saber do meu pai. Desde criança que perguntava quem ele era, onde estava ou o porquê de nunca o ter conhecido… Sei lá, fazia perguntas naturais, de uma criança que estranhava a ausência permanente de uma figura essencial, a de um pai. No entanto, por muito insistente que fosse, as respostas eram sempre escassas. Hoje percebo perfeitamente porquê… Na altura não se podia falar, muito menos os familiares dos «nacionalistas perigosos ». Foi esta vontade de querer saber, associada à ausência de informação, que me deram o propósito inabalável para este livro. Descobrir André Kassinda não significava apenas descobrir a história do meu país, significava, também, descobrir a minha história, o meu passado. Conhecer o Kassinda, era como me conhecer melhor.

E onde conseguiu encontrar informações sobre André Martins Kassinda?

Em muitos locais e em muitas pessoas… Em vários arquivos nacionais e internacionais, nos livros da nossa História e nas pessoas que um dia conheceram o meu pai e que ainda estão vivas. Não tem ideia da incansabilidade destas pessoas. Nem tenho palavras para lhes agradecer… Abriram-me as portas das suas casas e quando a conversa acabava, não davam o seu contributo por terminado, telefonavam-me, dias, semanas ou até meses mais tarde, para me revelarem novas lembranças, ou novas pistas que me pudessem ajudar a prosseguir. Foi comovente para mim.

antonioE agora, com o livro concluído, acha que já conhece André Martins Kassinda?Ou melhor já conhece o seu pai?

Sabe, eu termino o livro exactamente com essa questão. Coloco-a a mim próprio. Questiono-me se já conheço o meu pai, André Martins Kassinda. A resposta que dei naquelas páginas é a mesma que dou aqui: creio cada vez mais que sim… É certo que muitos pormenores ficaram por descobrir, mas a sua imagem é cada vez mais nítida para mim.

Então conte-nos, como é ele para si?

Ora bem… Por onde hei-de começar? Talvez pelo início, não é? André Martins Kassinda nasceu, em 10 de Outubro de 1936, em Nova Lisboa (Huambo). Antigo seminarista, em 1950 regressou à Quibala com a família. Aqui, quando tinha perto de 18 anos, foi catequista numa missão católica. As missões católicas dependiam dos rapazes com um nível de escolaridade considerável para ajudarem a dar aulas. Foi assim que o meu pai se tornou professor e diziam que era um professor muito exigente. Preocupava- se tanto com a instrução dos alunos que para o garantir não hesitava em ser severo.

Em 1958/59, deixa a família na Quibala e parte em direcção a Luanda. Aqui, tem uma vida pacata: viveu no Prenda, trabalhou na Sociedade Técnica e Industrial de Construção LDA. (Tecnil) e foi dactilógrafo no Serviço de Geologia e Minas. No entanto, a sua vida só viria a mudar na madrugada de 4 de Fevereiro de 1961. Nesta data partiu rumo ao recém-independente Congo-Léopoldville. Aliou-se às forças de Holden Roberto e da União das Populações de Angola (UPA).

Porém, foi a cisão com este partido que iniciou o percurso político pelo qual se viria a destacar, procurando sempre oferecer uma alternativa à luta pessoal de Holden. Após a sua dissidência com a UPA, em 05 de Agosto de 1962, criou o Comité Preparatório do Congresso Popular (CPCP); em 06 de Novembro de 1962, criou a União Geral dos Trabalhadores de Angola (UGTA); em 1963 concebeu a União Nacional Angolana (UNA) e em 01 de Abril de 1965, o Conselho do Povo Angolano (CPA). Além destes, Kassinda divulgava as suas ideias por intermédio de conferências e de organizações internacionais. Em Maio de 1962, em Wineba (Gana), participou na Conferência dos Combatentes da Liberdade.

Em Junho, do mesmo ano, em Accra participou na Conferência Internacional de Paz, “O Mundo Sem a Bomba!. E em 02 de Dezembro de 1965 esteve presente na Quarta Comissão da ONU prestando considerações sobre a sua visão «revolucionária», da luta pela independência de Angola. André Kassinda defendeu sempre a transparência, o diálogo e o entendimento com as diferentes forças nacionalistas. Era um homem, dizem as senhoras que o conheceram na época, bonito, vistoso, vaidoso, ( saio a ele….risos)… mas agora a sério, a sua força de expressão, ou se preferirmos a sua linguagem corporal, parecia mostrar um homem forte em decisão e em convicção.

E na verdade, sem medo das ameaças daqueles a quem fazia frente, manteve até ao fim o seu carácter pacifista e dedicou a sua vida à causa angolana em que acreditava. Reunia o outro a si, pela identificação de fins comuns. Afastava Holden, quem julgava impróprio à empatia que não garantisse o seu privilégio individual. E não desistiu de o combater. Foi preso quatro vezes e, ainda ainda assim, manteve-se firme na afronta. Certamente, teria a percepção de que cada prisão poderia ser a última. No entanto, continuou próximo do «inimigo», não fugiu. Era um verdadeiro cristão, que mesmo tendo a face direita ferida, dava a esquerda em troca. Foi um homem muito corajoso.

Sente o passado de Kassinda como um legado para si?

Eu, tal como o meu pai, fui educado segundo os valores cristãos. Portanto, respondendo à sua pergunta: sinto esse legado porque me reconheço nele.

O que mais o impressionou na história de André Martins Kassinda?

Não consigo eleger o acontecimento que mais me impressionou, porque foi uma investigação longa, foi um processo lento, íamos sabendo dos factos aos poucos. Mas, talvez, a situação mais marcante para mim foi quando vi pela primeira vez a entrevista que o meu pai deu para a Télévision Française. É a única entrevista que encontramos até ao momento. Poder vê-lo, ouvi- lo, foi muito comovente. Para mim e para os meus familiares. Lembro-me que os reuni para vermos a entrevista juntos, não imagina a choradeira… Foi um momento muito intenso para todos. Mas fiquei muito surpreendido, pela positiva… Era um homem muito vistoso, muito eloquente e muito calmo. Sabe, naquele momento senti ainda mais orgulho de ser seu filho.

Vai continuar a investigar a vida do seu pai? Ou já está satisfeito com a imagem que tem dele?

Vou continuar, claro. Como lhe disse, ainda existem algumas pontas soltas. Vou procurar resolvê-las e quem sabe se não virei a saber muito mais sobre André Kassinda, se não ficarei ainda mais surpreendido. Veremos…

Esperemos que sim, Dr. Sebastião Martins. Além do «projecto» Kassinda está a trabalhar em mais alguma temática?

Sim, neste momento ando ocupado com a tese de doutoramento. Estou a frequentar o doutoramento em Ciência Política no ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas) na Universidade de Lisboa, já terminei a fase curricular e agora estou na dissertação. Está a ser desenvolvida na área da Segurança. É uma área que me interessa muito. Está a ser muito desafiante. (O País)

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