Presidente cabo-verdiano desmente primeiro-ministro de Israel

O Presidente cabo-verdiano, Jorge Carlos Fonseca, desmentiu o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, sobre o “apoio total” de Cabo Verde a Israel nas votações nas Nações Unidas e noutras instâncias internacionais (DR)

Um comunicado da Presidência da República de Cabo Verde explica que o desmentido de Jorge Carlos Fonseca tem a ver com uma informação divulgada segunda-feira por Netanyahu, na sua conta pessoal no Twitter, segundo a qual o estadista cabo-verdiano deu garantias deste apoio ao líder israelita.

Reagindo a esta notícia veiculada quarta-feira por diversos órgãos nacionais e internacionais de comunicação social, o chefe de Estado cabo-verdiano esclareceu ter tido um encontro de trabalho com Netanyahu, durante uma cimeira da Comunidade dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), realizada em Monróvia (Libéria), em junho último.

Neste encontro, lê-se no comunicado, tomou parte a esmagadora maioria dos chefes de Estado a que se juntou, como convidado especial, o primeiro-ministro israelita.

Nessa reunião, a que também assistiram o ministro da presidência do Conselho de Ministros e a conselheira diplomática do Presidente de Cabo Verde, foram abordadas diversas questões relacionadas com a cooperação entre os dois países, como a agricultura, as energias renováveis, o turismo, a segurança entre outros.

Na mesma ocasião, reiterou-se o interesse mútuo de reforçar esses laços.

No entanto, Jorge Carlos Fonseca desmente ter-se tratado de “aspectos específicos da ação da diplomacia cabo-verdiana, como processos de votação em diferentes instâncias internacionais, bem como mecanismos para sua concretização através dos representantes de Cabo Verde”.

“Estes assuntos não foram abordados, muito menos discutidos, uma vez que implicam uma articulação entre os dois órgãos de soberania, nomeadamente a Presidência da República e o Governo, de acordo com as competências de cada um deles”, disse.

O comunicado sublinha ainda que o Presidente da República “atribui maior importância às relações internacionais de Cabo Verde, consideradas como um instrumento fundamental para a afirmação e o desenvolvimento do país”.

Por isso, ele diz entender que as relações internacionais do país “têm de ser balizadas pelos valores que enformam o Estado de Cabo Verde e pelos interesses superiores da Nação, plasmados na Constituição da República”.

Numa publicação datada de quarta-feira última, Benjamin Netanyahu escreveu que o chefe de Estado cabo-verdiano lhe tinha prometido que “Cabo Verde não mais irá votar” contra Israel, seja qual for o assunto em análise na Assembleia Geral das Nações Unidas e noutras instâncias internacionais.

A informação, retomada depois pela imprensa israelita, que faz grande eco desse anúncio, que seria “uma reviravolta cabo-verdiana face a Israel nas questões internacionais”, foi também divulgada, em primeira mão, pelo jornal online cabo-verdiano “Santiago Magazine”.

O facto de ela não ter merecido, num primeiro momento, qualquer comentário quer da Presidência da República, quer do Governo, que define a política externa do país, levantou algum ceticismo quanto à sua veracidade.

Entretanto, diplomatas citados pela imprensa local manifestaram estranheza façe a uma decisão que, caso viesse a confirmar-se, constituiria, sem dúvida, uma reviravolta na política externa moderada pela qual Cabo Verde se tem pautado desde a sua independência.

A seu ver, a política expansionista levada a cabo por Netanyahu em território palestino, contra o Direito internacional, tem sido muito criticada e objeto de sanções por parte das Nações Unidas.

O próprio jornal israelita “Jerusalem Post” recorda que, geralmente, Cabo Verde tem votado contra Israel nas assembleias-gerais da Organização das Nações Unidas (ONU), embora às vezes o país tenha também optado por se abster em algumas questões relacionadas com o Estado hebreu.

“Por exemplo, Cabo Verde não estava presente no voto da Assembleia Geral em 2009, que aceitou o Relatório Goldstone, que acusava Israel de crimes de guerra em Gaza (território palestino) durante a Operação Plomo Fundido.

O país absteve-se na votação da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) em 2011 para aceitar a Palestina como um Estado-Membro de pleno direito e foi contra Israel em 2012, quando votou a favor da concessão aos Palestinos do estatuto de um Estado observador não-membro na ONU”, relata o “Jerusalem Post”. Panapress (África 21)

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