Movimento do Protectorado Lunda Tchokwe: “Em Angola nunca haverá eleições livres.”

José Mateus Zecamutchima (DW)

José Mateus Zecamutchima afirma que os manifestantes do Movimento do Protectorado Lunda Tchokwe, detidos no sábado passado (29.07), não foram libertados. Lembra ainda que nenhum partido fala sobre o “destino das Lundas”.

No sábado passado (29.07) uma manifestação do Movimento do Protectorado Lunda Tchokwe – que exigia autonomia, o fim das prisões arbitrárias e a libertação de militantes – foi reprimida pela polícia angolana. Trinta e oito pessoas foram detidas, das quais 18 em Capenda Camulemba e 20 em Cafunfo. Outras sete ficaram feridas.

Em comunicado, o Comité Politico do Movimento do Protectorado Lunda Tchokwe denunciou “a brutalidade e uso excessivo de força com disparos de AKM47 e lançamento de granadas de gás lacrimogéneo pela polícia nacional e forças armadas de Angola”.

Em entrevista à DW África, o presidente do Movimento do Protectorado Lunda Tchokwe, José Mateus Zecamutchima, relata os acontecimentos e afirma que “nunca vão existir eleições livres e transparentes ou isentas” em Angola. O responsável frisa ainda o facto de, mais uma vez, nenhum dos partidos candidatos ao poder se ter pronunciado sobre “qual o destino a dar às Lundas”.

DW África: O que aconteceu na manifestação do passado fim de semana?

José Mateus Zecamutchima (JMZ): No sábado, dia 29, saimos em manifestações pacificas, o que resultou, exatamente, em 38 companheiros que estão, neste momento, nas cadeias na localidade de Capenda Camulemba e no município do Cuango. Nessa manifestação, a polícia usou armas e fez lançamento de granadas, o que resultou também em sete companheiros feridos graves.

DW África: E o que é que as autoridades alegam? Quais as razões para tais detenções?

JMZ: Até ao momento, não ouvimos as autoridades angolanas alegarem quais são os motivos. As manifestações estão muito bem patentes na Constituição angolana e as autoridades nunca negaram a nossa saída à rua. Quando saímos, automaticamente, eles reprimem, prendem e disparam. Até agora, não sabemos de nada.

DW África: Vocês dispõem de qualquer informação sobre o estado de saúde dos detidos?

JMZ: A polícia está a torturar os nossos companheiros nas cadeias. Não estão a permitir que as famílias levem comida à unidade policial. Temos pessoas com 65 anos de idade, pessoas mais velhas, camponeses cansados.

DW África: A questão da autonomia do Movimento Protectorado Lunda Tchokwe não está na agenda dos partidos nesta campanha…

JMZ: Lamentavelmente já tivemos encontros com todos os partidos da oposição e também com o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), Partido de Renovação Social (PRS), Convergência Ampla de Salvação de Angola – Coligação Eleitoral (CASA-CE) e o MPLA continuam a ignorar o processo da Lunda, nenhum partido angolano que vai às eleições se pronunciou sobre qual o destino a dar às Lundas. Se os partidos não querem nada com as Lundas não estamos a ver porque é que os Lundas tem que ir ao voto.

DW África: O que esperam concretamente dos partidos?

JMZ: Esperamos alguma melhoria. Parece–me que em Angola só se respeita aqueles povos que se revezam por via armada e não aqueles que lutam pelos seus direitos de forma pacifica. Mas, dentro da Lunda, os povos já disseram que querem os seus direitos legítimos, a sua auto–determinação, até porque o Movimento continua a exigir autonomia, enquanto as populações querem independência.

DW África: A campanha eleitoral para as eleições de 23 de agosto já começou. Acha que há condições para umas eleições livres nas Lundas?

JMZ: Em Angola nunca vão existir eleições livres e transparentes ou isentas. O que assistimos em 2008 e 2012 é a mesma coisa que vai acontecer em 2017. O povo da Lunda foi obrigado e coagido para fazer o registo eleitoral. Os governantes sabem que o povo está cansado deste regime e cansado também dos outros partidos angolanos.

DW África: Quais os problemas concretos nestas eleições, em termos de transparência?

JMZ: A Lunda foi sempre renegada e posta em segundo plano ou mesmo em ultimo plano e o povo, neste momento, não esta disposto a ser humilhado e explorado. Nas Lundas, 90% da população jovem não tem emprego. Não existem fábricas, estradas ou comunicações. O povo vive de subsistência, os jovens quando “se fazem ao garimpo” são mortos. Com estas condições o povo estaria disponível para ir votar? Não há condições. (DW)

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