Jovens engenheiros pagos para não fazerem (quase) nada

(DR)

Tal como os clubes de futebol não querem perder os melhores jogadores para os rivais, as grandes empresas tecnológicas fazem de tudo para evitar a fuga de talentos. E isso criou uma nova tendência no mercado de trabalho: jovens (maioritariamente engenheiros) recebem salários invejáveis a troco de muito pouco trabalho.

“Rest and Vest” é o nome desta prática, cada vez mais usada sobretudo em Silicon Valley, nos EUA, onde estão sediadas algumas das maiores tecnológicas do mundo, como a Google, Facebook, Apple e Intel.

O que se espera destes jovens talentos é disponibilidade máxima e lealdade para com a empresa. Ou seja, até que o projecto que têm entre mãos atinja o máximo potencial, eles não terão mais nada a ocupar-lhes o tempo – e a cabeça. É a melhor forma dos chamados “coasters” se tornarem praticamente ‘imunes’ às investidas dos rivais, que os querem contratar.

Outro exemplo: ao identificarem uma startup promissora, pagam aos anteriores proprietários salários generosos para que fiquem em casa ou a ‘passear’ pelo escritório enquanto vêem a empresa crescer com a entrada de novos investidores.

O dia a dia de um “coaster” São poucos os que gostam de ser associados a esta prática. Porém, houve um “coaster” que aceitou falar ao Business Insider. Meddy Medina fundou a startup Outreach (de software que ajuda as empresas a controlar as vendas), que rapidamente foi comprada pela Microsoft. Quando se concretizou o negócio, Meddy, que ainda estava na faculdade, decidiu entregar por completo a empresa ao novo proprietário.

No entanto, a Microsoft ofereceu-lhe um salário reforçado a troco de pouco trabalho. Primeiro, queriam mantê-lo por perto para ensinar novos engenheiros a trabalharem com o software da Outreach e depois também para refrear a vontade deste jovem talento de iniciar um novo projecto.

Durante meses, as suas responsabilidades resumiram-se ao preenchimento de ‘papelada’ e a questões burocráticas relacionadas com os novos funcionários. “Os meus dias começavam às 11h da manhã e tinha longas pausas para almoçar. Eles [Microsoft] não queriam que eu fizesse mais nada, porque tudo o que eu viesse a fazer ia acabar por ser gerido por outra pessoa.

Mas a minha presença era necessária enquanto houvesse novas pessoas para formar”, recorda Meddy Medina. Para ele, o objectivo principal do “Rest and Vest” é “manter um talento por perto, sem deixar que a concorrência chegue até ele”. “É uma prática defensiva”, considera. “A maioria dos meus colegas trabalha apenas quatro horas por dia” Outro exemplo é a Google. Nos seus escritórios há os chamados “empregados institucionais”, que sabem todos os passos a dar para atingir determinado objectivo da empresa – seja em termos práticos, como o funcionamento de software, ou teóricos, como os cálculos para alcançar um valor específico de receita.

“A maioria dos meus colegas [“empregados institucionais”] trabalha quatro horas por dia. São engenheiros seniores que não trabalham assim tanto, mas conhecem o sistema da Google por inteiro e sabem como pô-lo a funcionar”, conta ao Business Insider outra engenheira, sob anonimato. Estes funcionários “não trabalham para serem promovidos, até porque não querem ser promovidos. Se o departamento deles não gostar do que estão a fazer, acabam por alocá-los a outra parte da empresa”, acrescenta.

O truque é tornar-se indispensável Um “coaster” não tem necessariamente de ser o dono de uma empresa que foi adquirida por outra maior. Ele pode ser também o ‘trabalhador prodígio’ que qualquer organização quer ter. No caso do Facebook, por exemplo, estes funcionários recebem como ‘obrigado’ um bónus financeiro que pode chegar a valer mais que alguns meses de ordenado. Nos gabinetes de Mark Zuckerberg, este sinal de agradecimento chama-se “equidade discricionária”, que consiste na entrega de uma quantidade de acções restritas da empresa e que podem valer centenas ou até milhares de dólares.

É descrito, segundo um engenheiro (em anonimato) que já o recebeu, como “um obrigado pelo trabalho bem feito” e que também ajuda a manter o trabalhador, uma vez que esse bónus “vai aumentando com o tempo” e que, no caso do Facebook, é assinado pelo próprio Zuckerberg. Apesar da empresa não ter aceitado comentar, é sabido que, nos escritórios da rede social mais famosa do mundo, são pedidas longas horas de trabalho por dia até que o objectivo seja atingido.

Como identificá-los?

Sendo grande parte das empresas tecnológicas sediadas em Silicon Valley, a maioria dos seus funcionários são engenheiros, mas há uns melhores que outros. Os “engenheiros x10” são descritos como capazes de ser dez vezes mais eficiente do que os outros – fazem numa hora o mesmo trabalho do que os outros em dez. São também, por norma, os mais conhecedores do sistema informático utilizado pela empresa. “As pessoas que já estão há determinado tempo na empresa, habitualmente trazem uma mais-valia rara de encontrar igual.

São eles que sabem localizar o foco do problema de qualquer projecto e podem ser chamadas à ultima da hora para resolver um bug que mais ninguém é capaz”, explica um antigo engenheiro que trabalhou no Facebook e chegou a ser abrangido pelo “Rest and Vest”. “Havia um rapaz no Facebook que não trabalhava muito, mas quando o site ia abaixo, ele encontrava o problema que mais ninguém conseguia”, exemplifica.

Da realidade à ficção A prática do “Rest and Vest” tem sido cada vez mais descrita na ficção. Exemplo disso é a série “Silicon Valley“, da produtora HBO, que relata o dia a dia de Richard Hendricks, um jovem engenheiro que luta para criar a sua própria empresa em Silicon Valley. Em alguns momentos da série, outros jovens empreendedores passam dias em terraços sem muito para fazer, o que levantou dúvidas aos espectadores – quem seriam e o que fariam?.

Daí até começarem as discussões em fóruns online como o Reddit ou o Quora foi um passo. E publicações como o Business Insider procuraram testemunhos que comprovassem a veracidade da série. A verdade é que há jovens engenheiros, na maioria, que estão a ser pagos a peso de ouro para não fazerem (quase) nada. (Dinheiro Vivo)

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