Ficou o legado do grande ícone da guitarra

Zé Keno, guitarrista e coo-fundador do agrupamento jovens do prenda (Foto: Joaquina Bento)

Zé Keno, o emblemático guitarrista dos “Jovens do Prenda”, é um nome que marcou de forma indelével a história da Música Popular Angolana. Em 1953, com apenas três anos de idade, saiu de Mucasa, município da província de Malange, com a mãe e soltou aos dezoito anos os primeiros acordes da sua guitarra.

A criatividade plena e o desempenho de um fraseado musical com laivos de improvisação jazzística, são alguns dos atributos de um guitarrista que afirmou de forma convicta e resoluta, ter sido influenciado pelos guitarristas Duia, Marito Arcanjo e Dr. Nicó, incluindo as divisões rítmicas de José Maria, Nino Ndongo e Liceu Vieira Dias, guitarristas do conjunto Ngola Ritmos. Zé Keno deixa às gerações vindouras, o lirismo das suas harmonias, a singularidade de uma afinação única no género e um cunho, inequivocamente pessoal, de dialogar com a sonoridade das cordas.

Quando contava apenas dezoito anos, José João Manuel já extraía da sua guitarra, acordes musicais que encantavam a juventude da sua época. Zé Keno era um jovem que assistia, interessado, o desfile dos grandes nomes da Música Popular Angolana no Salão do Passos, um espaço de entretenimento, localizado no Bairro Prenda.

José Pequeno ou Kedy, pseudónimos com o qual gravou dois singles a solo que incluiam os temas “Filho doente”, “Tokito” e “Jipambo”, nasceu em Mucasa, província de Malange, no dia 15 de Dezembro de 1950. Filho de João Manuel Soito e de Júlia André Sebastião, Zé Keno é sobrevivente de uma família de quatro irmãos e começou a sua exuberante carreira em 1968, no agrupamento os “Sembas”, como guitarra solo, com Sansão, vocal, e Gama, viola baixo, no antigo Bairro Margoso, local onde se situa, actualmente, a Clínica do Prenda, em Luanda.

Zé Keno passou pelos “Jovens do Catambor”, formação que teve duração efémera, e integrou uma das primeiras formações dos “Jovens dos Prenda” logo após a sua mudança para o Bairro Prenda. Figura carismática do agrupamento “Jovens do Prenda”, Zé Keno teve uma passagem fugaz pelos “Águias Reais” e “África Show”, tendo sido o legítimo autor dos grandes solos do espólio discográfico deixado pelos “Merengues”, no seu período áureo com Carlitos Vieira Dias, guitarra baixo, que, à época, era o seu supervisor musical.

De notar que, muito antes da dissolução dos “Jovens do Catambor”, Zé Keno tinha sido convidado a integrar este grupo, convite que, por razões pessoais, então declinara. Com a concretização, efectiva, da referida dissolução, Zé Keno aceitou o repto com uma única condição, levar consigo Gama, viola baixo, Sansão, vocal, Didi, vocal, Augusto, vocal e dikanza, Inácio, tambor baixo, e Chico Montenegro, tambor solo, antigos companheiros dos “Sembas”, formando, assim, a primeira e mais sólida formação dos “Jovens do Prenda”. Nesta altura dirigia o grupo o empresário Juca, um entusiasta e incondicional admirador do conjunto.

Num quintal contíguo ao local onde ensaiavam os “Jovens do Prenda”, trabalhava, com acentuada incipiência, o grupo “Estrela da Maianga”, formado por Antoninho, guitarra, António do Fumo, vocal e dikanza, e Kangongo, tambor. O desenvolvimento rápido e seguro dos “Jovens do Prenda” atraiu o Kangongo e o António do Fumo, duas figuras que acabaram por emprestar ao grupo maior elasticidade artística, sobretudo ao nível da composição. Daí foi o sucesso, com paragens frequentes no Braguês, um famoso salão de bailes do bairro Sambizanga, “Kudissanga kuá makamba” e Sporting do Rangel.

“Nunca o disse, para evitar atitudes presunçosas dentro do grupo, mas a verdade é que a pessoa que mais admirei, ao longo do nosso trabalho, foi o cantor Tony do Fumo. Era um artista nato, com excelente dotes vocais e detentor de uma forma de compôr, fora de série, e me emocionava, enquanto guitarrista”, lembrou Zé Keno, referindo-se, de igual modo, ao Baião, guitarra solo e ritmo, e Luís Neto Augusto, vocal, de forma nostálgica. Do último refere que era um exímio intérprete, e que soube ultrapassar, até aos limites do possível, os grandes momentos de crise dos “Jovens do Prenda”.

Merengues

Em 1973, problemas de índole interna provocaram o afastamento de Zé Keno dos “Jovens do Prenda”. Surgiu então a CDA, Companhia de Discos de Angola, com o conjunto “Merengues”, um grupo criado, especialmente, para gravações em estúdio, cuja formação inicial integrava o Zé Keno, viola solo e voz, Gregório Mulato, voz e bongós, Zeca Tirilene, viola ritmo, Joãozinho Morgado, tambores, Carlitos Vieira Dias, viola baixo, e Vate Costa, voz e chocalho, o conjunto os “Merengues foi um dos agrupamentos mais coesos e profissionais da sua época.

Os “Merengues”, com Zé

Keno na guitarra solo, gravou importantes temas de referência, das quais destacamos a canção “Monami Uegia”, do compositor Cirus Cordeiro da Mata, e acompanhou a gravação de três álbuns referenciais da história da Música Popular Angolana: “Independência”, 1974, de Teta lando, “Mutudi ua ufolo”, 1975, de David Zé, Angola Ano I”, 1975, de Carlos Lamartine, incluindo o sucesso, “Bartolomeu”, de Prado Paím, Disco de Ouro, em 1974, citamos apenas as gravações que julgamos, historicamente incontornáveis.

O primeiro disco dos “Jovens do Prenda”, inclui o tema “Mamã”, da autoria de Zé Keno que deveria ser Papá, segundo o autor, interpretado por António do Fumo, uma canção em homenagem ao falecido padrasto de Zé Keno homem que o criou desde tenra idade.Em 2013, Zé Keno lançou o CD “Patos fora” numa tentativa de actualização de sucessos do passado com os temas “Patos Fora”, “Filho doente”, “Pangueyami”, “Pôr do sol”, “Ubeka”, “Mamã”, “Desespero” e “Nova cooperação”.

Pormenores do enigma de uma afinação revolucionária

Criador de uma afinação sui generis, diferente da clássica, Zé Keno inventou as suas próprias posições na guitarra e revolucionou a estrutura harmónica dos solos da generalidade dos géneros da Música Popular Angolana. “A minha afinação nasceu de forma espontânea, no início da minha aprendizagem”, explica Zé Keno.
Numa ocasião em que dedilhava uma viola auto-construída, Zé Keno descobriu, mais tarde, que a distensão aleatória das três primeiras cordas dava a nota Fá. Com o desenvolvimento do grupo “Os Sembas”, Zé Keno adquiriu uma viola de seis cordas.

As cordas Mi, Lá e Ré, da nova viola adquirida, permaneceram com a afinação clássica.A grande revolução foi a transformação da nota Sol em (Fá) da Si em (Lá) e da Mi em (Dó) das três primeiras cordas, daí as implicações sonoras, foram óbvias.

Só um executante conhecedor das posições inventadas por Zé Keno, estava em condições de tocar na sua afinação.
Existem esquemas harmónicos, muito característicos, que só podem ser conseguidos na sua afinação. Zé Keno lembra-se do solo da canção “Gienda já mamã”, um clássico do cantor António Paulino, que foi totalmente improvisado, em estúdio, no exacto momento do registo discográfico. (Jornal de Angola)

por Jomo Fortunato

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