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Deserto ameaça obras públicas do Tômbwa
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Deserto ameaça obras públicas do Tômbwa

As dunas avançam em força e já começaram a soterrar algumas residências e infra-estruturas públicas na vila do Tombwa, província do Namibe. Os habitantes estão desesperados. O Grupo Mitrelli, através da empresa Agricultiva, está a implementar um projecto que pode mudar o actual quadro.

O fenómeno não é novo, mas agora atinge níveis preocupantes. Logo à entrada da vila, a estrada está a ser tomada pelas areias que são trazidas do deserto pela força do vento. As areias ameaçam cortar a circulação entre a vila e o município de Moçâmedes, capital da província do Namibe. No interior da pacata vila, muitas residências já foram engolidas e outras estão prestes a ser soterradas pelas areias. A incerteza está patente no rosto de cada um. No entanto, quem vive o maior drama é Maria Luísa. A senhora viu as areias chegarem até à sua casa, e neste momento já não pode abrir as janelas da parte de trás.

“É um problema que sozinhos não conseguimos resolver. Já fomos à administração municipal, mas não têm solução. Por causa da força das areias, as paredes da casa já estão rachadas. Um dia acabaremos por ser soterrados durante a noite”, vaticinou, mas com esperança de ver o problema ultrapassado. Enquanto a solução não chega, Maria Luísa busca alternativas.

Conta que certo dia pediu ao operador de máquinas para que a ajudasse na remoção das areias. No entanto, “ele viu que era muita areia e foi-se embora. Simplesmente desistiu”, lamentou. Na sede municipal do Tombwa é fácil avistar casas “engolidas” pelas areias, outras quase a seguirem o mesmo destino, e os seus proprietários sem poderem fazer algo para impedir a destruição das mesmas. É um ambiente de incertezas, cuja garantia de um dia tranquilo está no projecto em vias de ser desenvolvido pelo Grupo Mitrelli.

IDF garante protecção

O Instituto de Desenvolvimento Florestal no Namibe (IDF) está a trabalhar junto das populações para se afastarem das zonas de maior risco. O chefe de departamento do referido Instituto no Tombwa, Pedro Tchiloya Joaquim, disse a OPAÍS que além da sensibilização têm trabalhado com o Governo provincial e central na mitigação dos problemas das pessoas afectadas pelas dunas, realojando-as. “Para mitigar os efeitos dos avanços das dunas, o Governo Central, aprovou um projecto que conta com o apoio de Israel e já se encontra na fase final. O projecto chega no momento certo, uma vez que vai dar tranquilidade aos habitantes do Tombwa e não só”, reconheceu.

Além dos habitantes, o ambientalista realça que a sede municipal do Tombwa possui infraestruturas industriais no ramo das pescas que precisam de ser protegidas. “Esse projecto passará por três fases, sendo a primeira de prospecção do perímetro florestal, que virá a ser a cortina de protecção, a segunda, foi da instalação das infra- estruturas de suporte ao projecto, onde o destaque é a captação de água, e a terceira será a de plantação de árvores que servirão de protecção”, enfatizou. O engenheiro ambiental disse que o avanço das dunas não afecta apenas o município do Tombwa, mas também o de Moçâmedes, no entanto, não sabe precisar quantas residências e instituições estão em risco. “Trata-se de um fenómeno com maior incidência no Tombwa, mas sente-se também na capital da província.

E tudo está a ser feito, a nível provincial e central, para conter o seu avanço”, reiterou, sublinhando ainda que 80% das populações em zonas de risco estão protegidas. Pedro Tchiloya refere que o projecto de protecção contempla as zonas críticas, designadamente, Sul-Norte, e também as novas urbanizações, localizadas na estrada do município. “O projecto é ambicioso, e é o primeiro a chegar ao fim. Mas, antes mesmo do seu término, temos de acautelar a vida e as infraestruturas das populações”, garantiu. Falando de Moçâmedes, o chefe de departamento do IDF no Namibe fez saber que a cortina experimentou dificuldades devido à falta de água para irrigação das plantas.

As espécies, segundo o responsável, consomem perto de 40 metros cúbicos de água, tornando-se mais difícil o processo devido à fraca precipitação na região. Pedro Tchiloya Joaquim explica que as causas do avanço das dunas estão relacionadas com questões ambientais, lembrando que a província do Namibe é desértica e, por isso, não tem níveis de precipitação (chuvas) consideráveis, o que, se fosse o caso, levaria à ocupação dos solos com vegetação. O mesmo acrescenta que quando há falta de precipitação os solos ficam desprovidos de cobertura, permitindo que as areias fiquem vulneráveis à força do vento, energia eólica que permite o seu acúmulo.

Grupo Mitrelli vai plantar 24 mil árvores

Numa extensão de oito quilómetros de distância e 10 de largura, o Grupo Mitrelli, através da sua secção participativa, a empresa Agricultiva, vai plantar 24 mil árvores. O projecto já arrancou com a construção do centro logístico, onde foram instaladas quatro estufas, um sistema de rega automática, uma escola de formação ambiental e um sistema de captação que está no interior do deserto.“Esta escola constitui um projeto-piloto, que pode ser referência no mundo. Muita gente de outros países vai, seguramente, vir estudar aqui”, disse Ronny Avidan, israelita que trabalha para o Grupo Mitrelli, responsável pelos trabalhos na corte de combate ao avanço das dunas.

Ronny disse ainda que “estão criadas as condições para que o Governo israelita ajude o povo do Namibe a deixar de viver com o drama das dunas”, justificando a sua convicção pela experiência do seu país, cujo território é em mais de 60% desértico. “Hoje Israel tem uma cortina muito forte de cobertura. São florestas artificiais que ajudaram a combater o avanço das areias”, explicou, avançando que no Tombwa serão plantadas muitas variedades de árvores, entre as quais, realça, o Tamariz, planta típica do deserto. (O País)

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