Com saída das tropas das ruas, criminalidade volta a subir na Região Metropolitana

(Arquivo) PMs em acção. (Foto: JusTocantins)

Nada de tropas, tanques e blindados nas ruas do Rio no dia em que a chegada das Forças Armadas completou uma semana. Ontem, pelo segundo dia consecutivo, os militares ficaram nos quartéis, e os comandos não revelam quando as operações serão retomadas. Já os criminosos não perderam tempo: em menos de 24 horas, da meia-noite até as 19h desta quinta-feira, o Sindicato das Empresas do Transporte de Cargas registrou 11 roubos na Região Metropolitana. Nesse mesmo período, foram 19 tiroteios, com duas pessoas feridas, sendo um policial militar, de acordo com informações do aplicativo “Fogo Cruzado.

Oficialmente, a saída das tropas federais das ruas tem nome: é a fase de análise de inteligência, quando os dados coletados na primeira fase são processados e analisados. Na segunda etapa, que pode começar a qualquer momento, as ações estarão voltadas para “golpear” o crime — como tem dito o ministro da Defesa, Raul Jungmann —, com foco no tráfico de drogas, nos arsenais das quadrilhas e no roubo de cargas. O coronel Roberto Itamar Plum, porta-voz do Comando Militar do Leste (CML), definiu o momento atual como “entressafra”. Segundo ele, a população fluminense não verá tropas das Forças Armadas nessa fase, porque elas estão se preparando para o próximo passo.

— Foram cinco dias de reconhecimento. Acabou a primeira fase. Estamos em uma entressafra — afirmou o coronel, que não deu detalhes sobre a próxima fase, alegando a importância do “fator surpresa”.

Estão envolvidos nessa ofensiva no Rio, 8.500 militares das Forças Armadas. O estado também recebeu um reforço de 380 homens da Polícia Rodoviária Federal e de 620 da Força Nacional. Nos primeiros dias, eles atuaram na orla e em vias expressas, o que derrubou, principalmente, o número de roubos de cargas e veículos na capital. Desde o início das operações federais, no último dia 28, o diretor de Segurança do Sindicato do Transporte de Cargas, coronel Venâncio Moura, vem dizendo que os bandidos poderiam migrar de acordo com a presença dos militares. Ontem, no entanto, ele não quis arriscar um palpite sobre o grande número de roubos:

— Acho, sim, que os bandidos podem migrar, mas agora eu não posso dizer qual é o real motivo de os assaltos estarem em patamar tão alto.

Para a cientista social Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade Candido Mendes, a sua impressão é que o Rio continua sem um plano de segurança, voltado para longo prazo. Segundo ela, o discurso continua o mesmo de 30 anos atrás:

— Mais uma vez, parece que a intervenção federal tem um caráter para estancar o crescimento descontrolado dos indicadores de criminalidade e para mostrar que o Rio não está sozinho. Porém, na minha opinião, isso não basta. Passada uma semana, a gente não tem um plano, nem as tropas.

Já o sociólogo Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, destacou que não é possível fazer qualquer previsão neste momento:

— Até agora, a gente não viu muita coisa. Houve um patrulhamento mais ostensivo nos primeiros dias e, depois, um recuo. Estamos todos no compasso de espera para saber o que vai de fato acontecer.

Na sua opinião, o início foi de grande impacto.

— As palavras do ministro da Defesa foram perturbadoras, no sentido de que iria golpear o crime e que a cidade precisaria se preparar para os custos da intervenção, o que gerou uma sensação, quase um preságio, de que haveria mais tiroteios e mais insegurança. Até agora nem isso aconteceu. Na minha opinião, ainda é cedo para fazer alguma avaliação mais profunda. Até agora foi muito pouco — afirmou.

Segundo o coronel José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública, o principal resultado da primeira semana de operações foi psicológico, com um impacto momentâneo, tanto para a população quanto para os criminosos. José Vicente disse ainda que os militares parecem estar constrangidos ao cumprir essa decisão política, que os força a fazer um trabalho que foge de sua missão e de seu preparo profissional.

— As Forças Armadas são um remédio para reduzir o febrão de certas crises, como o tumulto generalizado que ocorre em greves de polícias. Mas, em sua fórmula, não existem dois componentes essenciais para o tratamento contínuo do problema: o conhecimento e a experiência. Enquanto esses efetivos federais estão operando, vão se perder tempo e uns R$ 2 bilhões — afirmou o coronel.

TEMA FREQUENTE NO TWITTER

O envio de tropas federais ao Rio foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais na última semana. Levantamento feito pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas (Dapp), da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostra que, desde o dia 28 de julho, foram registradas 26,7 mil menções no Twitter sobre a chegada das Forças Armadas. Deste total, 11.400 (43%) foram postadas no Estado do Rio.

Segundo a FGV, boa parte das principais postagens vem de perfis da imprensa tradicional, que noticia o cotidiano da operação, com exceções de autoridades, como o presidente Michel Temer, ao anunciar a assinatura do decreto (que estabeleceu a Garantia da Lei e da Ordem, mecanismo que autoriza os militares a atuarem com poder de polícia), e o ex-deputado Roberto Jefferson, que elogiou a chegada do Exército. Cerca de 15% das postagens citam Temer e seu decreto. E apenas 4% mencionam o ministro da Defesa, Raul Jungmann, um dos principais articuladores da operação.

No total, cerca de 65% dos posts destacam aspectos pragmáticos da operação, com o compartilhamento de notícias, de declarações de autoridades e da rotina dos militares nas ruas, como os locais em que estão e os alvos específicos a que estão dedicados. O levantamento também ressalta a ausência de figuras da segurança pública do Rio: o governador Luiz Fernando Pezão aparece em menos de 2% das postagens, já que quase toda a discussão oscila em torno do papel do governo federal. Entre os crimes que mais ganharam destaque, está o tráfico de drogas, que foi muito mais citado que os roubo de cargas e o uso de armas pesadas por criminosos. Outro detalhe é que mais de 1% de todas as menções tem o emoji “oração”, o mais frequente no debate. (Jornal Extra)

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