“Os dirigentes pensam que sabem de futebol”, Mário Calado

Técnico Mário Calado (DR)

O técnico Mário Calado demonstrou ser um exímio conversador. O experiente treinador angolano, que se notabilizou no comando técnico do 1º de Agosto e da Selecção Nacional, concedeu ontem uma entrevista ao Jornal dos Desportos, em que não poupou criticas aos gestores do futebol nacional, considerando-os de “amadores” por pensarem que percebem de futebol quando nada sabem da coisa.

Como avalia o futebol angolano hoje?
O futebol é um fenómeno social. É sabido desde os primórdios, que ele desenvolve-se de acordo com o desenvolvimento das próprias sociedades. Acontece, porém, que temos dificuldades do ponto de vista económico e isto reflecte-se muito também no desenvolvimento do nosso futebol actualmente. Paralelamente a isso, de um tempo a esta parte, independentemente da situação menos boa que enfrentamos, fruto de políticas não bem definidas relativamente ao desenvolvimento do futebol, permitiram que a modalidade não tivesse o crescimento a nível do contexto africano.

Que razões levaram a estagnação que se regista?
Perdemos a nossa identidade e o nosso principal ego que era a qualidade técnica muito acentuada, assim como o nosso nível competitivo, comparado a alguns países limítrofes. Internamente, a qualidade do nosso futebol, ano após ano, vai regredindo de uma forma visível e aos olhos de todos. Não paramos, não reflectimos e não discutimos futebol no sentido de modificarmos o percurso em que seguimos actualmente.

Onde acha que reside o principal problema?
Primeiramente, falamos sobre o factor humano, particularmente quem dirige o futebol. Se querermos que uma determinada actividade tenha sucesso, a primeira coisa que temos de fazer é investir no homem. De um tempo a esta parte, não temos visto investimento no homem. Ou seja, o principal elemento que acompanha o crescimento das crianças, que é o treinador.

No seu ponto de vista o que está na base da gritante falta de aposta na formação de quadros?
Não existem estruturas nacionais, não existem programas relativamente ao processo de desenvolvimento do próprio treinador. Durante os anos passados, as antigas estruturas que tínhamos nos anos 70/80, destruímos. Antigamente tínhamos a Escola Nacional do Desporto, em que formávamos técnicos das vários modalidades, tínhamos o Instituto Normal de Educação Física (INEF).

Com esta instituição as outras modalidades cresceram?
As outras modalidades como o basquetebol e o andebol tiveram um aproveitamento muito grande em relação a esta instituição. Todos os treinadores de andebol e basquetebol, na altura, eram professores de educação física, com nível acentuado de conhecimentos, para transmitir aos seus atletas a qualidade do basquetebol e do andebol. Hoje, os resultados estão à visa a nível do ranking africano e nacional.

Com o futebol não foi a mesma coisa?
A nível do futebol, lamentavelmente, não era este o processo. Era dada automaticamente a oportunidade ao antigo atleta para treinar uma equipa. Isso tudo criou uma não estrutura na orientação da formação dos treinadores e com isso, as suas imensas dificuldades no crescimento de novos atletas. Para além disso, estamos a falar também do dirigismo e, por outro lado, das infra-estruturas.

Os Encontros Nacionais de Futebol não ajudam a falar de futebol na sua essência?
Não. São meros exercícios políticos, e não têm nenhuma acção pratica no sentido de alavancar o crescimento desportivo nacional. São mais locais em que nós, lamentavelmente, e deve ser dito, perdemos dinheiro e tempo a realizar este tipo de actividades, porque do ponto de vista prático é zero.

As conclusões não são postas em prática?
Nunca se faz absolutamente nada. E se fizermos um histórico de tudo quanto foi feito por estes movimentos teóricos votada a contribuição do futebol, vamos ver que tudo é zero. É simplesmente marketing, politica, e formas de gastarmos dinheiro de uma forma incorrecta, para o mesmo fim.

EM REGISTO
Calado defende novo modelo

Num discurso eloquente e sem evasivas, o técnico apontou os problemas que diz haver no futebol, apontou as causas e sugeriu soluções. Deplorou a aposta em “treinadores estrangeiros medíocres e sem qualidade” e desafiou a Federação Angolana de Futebol a fazer cumprir os critérios acordados pela CAF e Associação Nacional de Treinadores, relativamente a contratação de técnicos expatriados.

O futebol ganhou com o CAN de 2010 quatro estádios modernos e hoje alguns deles estão em estado de abandono. De quem é a culpa?
Sim, mas repara que temos infra-estruturas para um período muito curto, mas estas infra-estruturas são votadas exclusivamente para as competições e não para o treinamento desportivo. Portanto, os atletas não têm condições para trabalhar e crescer do ponto de vista desportivo.

Acha que falta vontade dos dirigentes proporcionarem condições para permitir que o futebol cresça?
Os nossos dirigentes são políticos, gestores a nível do clube, e não têm responsabilidade a nível do amor da própria instituição que dirigem, porque são simplesmente instituições votadas para a recepção de verbas do Orçamento Geral do Estado de uma forma directa ou indirecta, com excepção de um ou outro elemento e isso obriga as pessoas a não verem o futebol de uma forma meramente profissional.

Considera que o mal está nos dirigentes dos clubes?
O futebol desde os primórdios sempre foi negócio e para nós aqui é um tabu. Se colocarmos um empresário a falar com um dirigente é mal visto, quando no mundo é uma situação super-natural. Portanto, enquanto não quebrarmos algumas barreiras em relação a forma de gerirmos e perspectivarmos os clubes, numa vertente empresarial, de certeza absoluta que também não iremos dar um passo qualitativo em relação a toda a estrutura e organização do treinamento desportivo.

O que lhe parece as estruturas competitivas?
As nossas estruturas competitivas são todas elas péssimas. Ano após anos acumulamos um período que não permite um crescimento do atleta a longo prazo, fazendo uma comparação ao atleta europeu que tem de ser a nossa referência de crescimento. O europeu e o sul-americano, quer seja criança ou adulto, tem um nível determinado de jogos anuais que fazem. Durante os seus processos competitivos, trabalham permanentemente sem interrupção.

Devíamos ter isso como modelo?
Claro. As nossas crianças todos os anos perdem quatro a três meses sem competir. Se fizermos um somatório durante quatro anos ou dez anos, vamos ver que as nossas crianças em cada quatro anos perdem oito a doze meses sem trabalhar. Por isso, nunca teremos um crescimento e só vamos regredir constantemente, até que um dia alguém chegar e dizer pára.

Qual deve ser a saída para se inverter o quadro?
Todo o mundo tem de sentar, falar e conversar futebol, coisa que não se faz em Angola. Muitas vezes passamos apenas experiências daquilo que fizemos e não falamos de futebol no sentido real. O futebol tem que ser falado nas quatro linhas e não nas coisas complementares do futebol.

“Continuamos na
fase do empirismo”

Se lhe pedissem para sugerir um projecto de reformulação do futebol nacional, por onde começaria?
A nível da formação. Temos primeiramente de perguntar quem gosta de futebol. Às pessoas que gostam de futebol é-lhe dada a oportunidade de trabalhar e de serem formadas. Quando formamos este profissional, de certeza absoluta que o seu produto vai ser diferente.

Defende a formação a todos os níveis para resgatar o prestígio do futebol nacional?
Existem coisas paradoxas. Em Angola temos o Instituto Nacional da Administração Pública, que forma um conjunto de profissionais em todas as áreas, mas repara que o futebol não faz parte desta estrutura, porque nenhum dirigente está interessado que se faça a formação dos treinadores, árbitros e preparadores físicos.

Acha que devia haver uma escola do desporto?
Com certeza. É inconcebível que em pleno 2017, noventa por cento dos clubes não têm um profissional de preparação física, não existe em Angola. Como é que podemos falar de crescimento, se hoje o futebol é muito mais cientificado? Então continuamos sempre na fase do empirismo. Nesta fase do empirismo, o Brasil e as outras Nações já ultrapassaram há cento e mais anos e nós, lamentavelmente, ainda continuamos na fase do empirismo.

CONSTATAÇÃO
“Não devemos nada aos
técnicos estrangeiros”

Mário Calado deplorou o “desinteresse” dos dirigentes desportivos em investirem na formação de treinadores como condição primordial para a busca do sucesso das nossas equipas e faz uma retrospectiva em torno do estado actual do futebol nacional, transpondo-o para uma realidade mais ampla.

A actual condição em que se encontram votados os técnicos nacionais está na base da permanente aposta em treinadores estrangeiros?
Em qualquer sociedade a cooperação é sempre muito bem-vinda, na medida em que ela contribui para o crescimento das nações, principalmente quando trouxemos profissionais no sentido real da palavra. Lamentavelmente, em Angola, o que recebemos não são profissionais. Recebemos pessoas que vêm se formar em Angola. São técnicos estrangeiros que não têm formação a nível do seu país.

Não será um exagero afirmar que nenhum deles tem competência, mesmo conquistando títulos em Angola?
Nenhum treinador que esteve a trabalhar em Angola, com excepção de António Clemente, Dusan Kondic, Djalma Alves Cavalcanti e Goiko Zec, nunca treinaram uma equipa da primeira divisão nos seus países. De que forma podemos conseguir um crescimento a trazer profissionais medíocres de outro país para desenvolver o nosso país? Só pode ser brincadeira.

Considera fundamental a experiência nos países de origem?
Sim, porque se repararmos, no nosso Girabola, os treinadores estrangeiros que cá estão, nenhum deles treinou uma equipa na primeira liga do seu país. Como é que este profissional pode ajudar-nos a crescer. Até nisso os nossos dirigentes cometem erros. Mas são todos poderosos, porque são os donos do clube e o engraçado é que pensam que sabem de futebol. Eles não conhecem o futebol e nem a gestão. Se o conhecessem, tinham anualmente o exercício económico de cada clube. Mas não o fazem, nunca o fizeram. Quanto é que ganhou, gastou e qual é o rendimento. Só prejuízos do erário público nacional.

Sente que há pouco rigor na contratação de técnicos expatriados?
Claramente. Felizmente em África, com excepção de Angola, já existem normas de contratação de um pessoal estrangeiro, menos cá. Em toda a África hoje nenhum estrangeiro pode ser contratado para trabalhar num determinado país, sem que cumpra com alguns pressupostos. Em Angola, basta que seja amigo do fulano ou do sicrano. É amigo do vice-presidente ou do presidente vai treinar.

O que é que CAF estabelece como requisito para um técnico?
Por aquilo que a própria CAF estabelece, existem protocolos no sentido de moralizar a classe e dar ênfase, mas não se cumpre, porque os treinadores todos que estão em Angola, nenhum deles está habilitado a exercer a profissão de treinador em Angola.

Acha que os técnicos angolanos não devem nada aos estrangeiros que chegam ao Girabola?
Uma coisa é a contratação e a outra é a qualidade. Se pegarmos no currículo de todos estes técnicos estrangeiros que estão cá, não tem comparação com os angolanos, porque nenhum deles ganhou campeonato nos seus países. E nós cá, em Angola, temos treinadores campeões.

Portanto, se nenhum deles foi campeão no seu país vou trazê-lo para quê?
Acha que a culpa não é do treinador, mas de quem o contrata?
Acha normal um treinador brasileiro ou espanhol parar o seu campeonato no Brasil por 45 dias? No seu país ele faria isso? Acha normal um treinador no seu país ir de ferias durante o período de competição? E os estrangeiros com o beneplácito dos clubes vão de férias em pleno período de competição e já nem quero falar das condições.

Porquê?
Prefiro falar apenas do profissional. Não há uma discrepância completamente nenhuma entre a qualidade dos estrangeiros que estão cá em Angola e os nossos profissionais. Beneficio e honra para todos os treinadores nacionais. A qualidade é super.

“Clubes trabalham sem projecto”

Porque razão Angola não exporta treinadores, se temos bons profissionais?
Se repararmos, o angolano só começou a emigrar a partir da situação de conflito. Nós sempre fomos nós mesmo e a ficar no nosso espaço. É uma questão cultural, não fomos habituados tal como os nossos antepassados. A nossa cultura sempre foi de estarmos dentro do nosso espaço. Por outro lado, para eu emigrar tenho de ter condições superiores ao que existe no meu país. E se não tiver condições superiores em relação a que tenho no meu país vou emigrar para quê? Os valores oferecidos na contratação de um treinador não são muito convidativos e isso obriga a que muitos preferem continuar em Angola.

Então não faltam convites?
Convites existem. O Oliveira Gonçalves teve oportunidade, eu tive a oportunidade, mas não compensa, porque os valores praticados a nível deste países africanos, não é tão elevado. Se tiveres a oportunidade para ir para Europa, a coisa é completamente diferente.

Mas o mercado europeu é muito mais difícil e começar em África seria o primeiro passo…
Temos que ter os pés bem assentes no chão. Qual é o treinador africano que sai da África e vai treinar na Europa? Tens de ter um super empresário para levar a tua marca na Europa. Não vais sair de Angola para ir treinar no Congo Brazaville ou Quénia, quando sabemos que os valores que se praticam lá são muito aquém da nossa realidade.

Os técnicos angolanos duram muito pouco no comando das equipas. A que se deve isso?
Não existem projectos. Trabalha-se muito no empirismo, no amadorismo e no imediatismo. Queremos hoje colher aquilo que a gente não planta. Não pode ser normal um clube que não luta pelo título trocar duas vezes durante uma época o treinador. Não é normal, alguma coisa está errado. O problema não é do treinador, é do dirigente e do clube. Quando os clubes estiverem com os pés bem assentes no chão, e os seus dirigentes viverem o clube numa harmonia podemos viver um quadro diferente.

O que falta para respeitarem mais os técnicos e os clubes de um modo geral?
Eles são todos do clube na tomada de posse e depois só três pessoas é que comandam o clube. Quando todos os elementos que integram a direcção do clube viverem o clube desde o primeiro momento, participarem no processo directivo e na gestão do clube, muita coisa irá mudar para o bem da própria colectividade. Mas não é o que acontece, infelizmente.

Alguma vez já chegou a sentir que foi demitido do comando técnico de uma equipa por justa causa?
Em nenhuma das circunstâncias. Em nenhuma! E vou dar o um exemplo agora do Progresso Sambizanga. Eu não queria treinar o Progresso há cinco anos e sempre dizia não, não, não, porque sabia como as pessoas lidavam e orientavam o clube.

Que razões o levaram a aceitar o convite de Paixão Júnior?
Em função das circunstâncias, que não faço referência aqui, motivei-me para fazer um trabalho diferente. Apostei que podia levar o clube para a competição africana. Queria ser campeão com o Progresso, mas não é num ano que seria campeão.

Não teve tempo para implementar o seu projecto?
Quando vi o plantel do Progresso assustei. Disse para mim mesmo: eu vou treinar anões? Eu quero chegar ao palco africano tenho de esperar três quatro anos. Em três meses não posso fazer milagres. Isto é um processo. Hoje um bocadinho, amanhã outro bocado e no quarto ano vamos lutar pelo título. Obrigatoriamente vamos lutar pelo título. Agora, da forma como as pessoas pensam, não pode ser. Futebol não é isso. Futebol tem que ser pensado, perspectivado e ser trabalhado de acordo com as metas e objectivos.

Tem receio de voltar a abraçar um novo desafio no Girabola ou continua aberto a novas propostas?
Não. De momento tenho muitas responsabilidades na minha vida privada e sou uma das pessoas que gosto de assumir sempre aquilo que faço, de cabeça, tronco e membro. Então assumi responsabilidades com um conjunto de estruturas e julgo que até finais de 2018, se não estiver em erro, não posso ter compromissos desportivo. Enquanto não dar resposta a toda responsabilidade que foi posta nas minhas mãos, não posso assumir outros compromissos.

MODELO DE JOGO
“Os nossos processos são
adversos a dos outros países”

É dos treinadores de futebol com mais títulos no país. Sente que em Angola o currículo tem algum peso na decisão dos dirigentes apostarem num determinado técnico?
Hoje, lamentavelmente, a nossa realidade é completamente diferente do mundo real. Os nossos processos de trabalho são completamente adversos ao mundo profissional. Hoje, para a contratação de qualquer profissional no futebol em Angola impera ainda muito a emoção e não a capacidade. O profissionalismo em Angola não se põe como paradigma principal. É a relação de quem traz este profissional, com um conjunto de elementos, mas quando fores investigar o currículo do treinador, 90 por cento não condiz com a realidade.

Há provas de que isso tenha acontecido?
Tivemos treinadores que estiveram em grandes estruturas do nossos futebol, sem citar nomes, e que nem sequer alguma vez treinaram uma equipa de seniores, mas vieram treinar as principais equipas do nosso país. Porque não vemos currículo. É um dos grandes erros que cometemos.

Há quem arrisque afirmar que o “elo mais fraco” do nosso futebol reside nos dirigentes dos clubes. Concorda?
Sempre disse que a bateria do dirigismo em Angola não é muito boa e esta geração tem que ser substituída para haver crescimento desportivo. Esta geração já deu tudo que tinha para dar e deve ser substituída, porque ela não aposta no crescimento e no desenvolvimento. Falam muito, fazem pouco e mal. É bom que isso fique muito bem sublinhado.

Acredita que a solução deve passar também pela mudança de dirigentes nos clubes?
Países com capacidade inferior à nossa, do ponto de vista financeiro e estrutural têm as suas bases e princípios bem determinados a nível do futebol, coisa que não temos. Temos exemplos muito concretos: o Interclube tinha uma linha especial de jogo durante 10/15 anos, mas esta linha morreu. Se notarmos, o 1º de Agosto tinha uma forma peculiar de formar os seus atletas e as equipas adversárias quando vissem o perfil do jogador do 1º de Agosto sentiam-se intimidados. Se virmos a morfologia do atleta do 1º de Agosto de hoje, não diz absolutamente nada.

Sente que os clubes estão a perder a sua identidade?
Quem não conhece as estruturas do clube, não consegue preservar. Repara na linha do Petro, que muito nos orgulhava e tínhamos um Interclube com perfil definido, mas hoje vemos que estes clubes até isso permitiram que se destruísse.

De que forma os clubes podem evitar estas perdas de essência ou perfil?
Quando contratas um profissional, obrigatoriamente tens de ver a essência da tua matriz. Quem é o treinador que se adapta a minha história, qual é a forma de pensar, característica deste treinador trabalhar as suas equipas e depois ver se adapta-se na estrutura. Ver se, caso ele decida alterar não terá dificuldade em preservar um histórico construído durante muitos anos. O problema é que os clubes não levam isso em consideração e vão se destruindo em relação a sua essência e modelo, as característica fundamentais do futebol.

ESCALÕES DE FORMAÇÃO

Técnico
critica gestão
do 1º de Agosto

O facto de muitos destes técnicos estrangeiros apresentarem currículos que justificam as contratações deixa os dirigentes seguro das suas competência?
São conceitos que se passa a nível da opinião pública, no sentido de justificar uma acção errada. Quem arruma a tua casa deve ser você próprio e nunca o vizinho. Nós é que devemos ter o cuidado de formar os nossos profissionais, no sentido de tirar rentabilidade em relação ao seu potencial. Repara no processo de formação do Petro Atlético de Luanda. O próprio 1º de Agosto, lamentavelmente, desvirtuou todo o seu processo de formação em relação ao leque de quadros técnicos que tinha.

Mas o 1º de Agosto tem um histórico na vertente da formação.
A maior grandiosidade de leque de treinadores quem tinha era o 1º de Agosto, mas aos poucos está destruir toda a máquina, para meter treinadores aparentemente profissionais, mas que no fundo são amadores.

Hoje a presença de treinadores estrangeiros no quadro da formação é cada vez maior. Existe razão para tal?
É um absurdo. Não se compreende uma situação desta natureza, mas quem manda, manda e quem não manda cumpre. Eles acham que estão certos, quando estão super-errados. O Clube Desportivo 1º de Agosto sempre foi a maior referência no capítulo da formação.

No seu ponto de vista está a perder este estatuto
Um clube que sempre teve a sua vanguarda na formação e esta vanguarda era feita por treinadores angolanos. O 1º de Agosto teve o privilegio de formar as maiores referências desportivas a nível do país. O que se deve fazer quando algo está errado, é chamar este homem e colocar ferramentas de trabalho no sentido dele crescer desportivamente. Quando não se dá formação, não podemos criticar.

Pessoalmente, de que forma procura evitar que seja ultrapassado pela constante evolução das técnicas do treinamento?
Hoje, felizmente, o mundo nos aproxima em tudo. Temos primeiro de identificar o nosso perfil, saber o que é que a gente mais gosta. Por exemplo, a nível da formação, gosto muito do Brasil. Tenho especial carinho pela Alemanha e pelo que fez a Espanha nos últimos 20 anos.

Refere-se ao processo de reestruturação que sofreu o desporto espanhol?
Sim. A Espanha fez uma reestruturação e hoje passo constantemente a busca de informações que me ajudem a perceber as razões do crescimento desportivo geral da Espanha. Vou obtendo as conclusões porque a Espanha cresce permanentemente neste aspecto, em todas as modalidades.

Qual é o segredo?
Sabemos que o segredo é só um e quem acompanha este processo vai saber que o processo de formação da Espanha começou em 1954 e hoje é um país independente no seu processo de formação. A FIFA não impõe modelos de formação a nível de Espanha e é o único país no mundo. Se este país é referência a nível da formação, obrigatoriamente temos de saber o que é que este país faz, no sentido de reunires esta informação. (Jornal dos Desportos)

por Paulo Caculo

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