Comboio movimenta dois milhões

Comboio (Foto: Luacano)

Mais de dois milhões de passageiros e 95 mil toneladas de mercadorias diversas, com destaque para combustíveis, gás, material de construção, bebidas e madeira, foram transportados pelos comboios do Caminho-de-Ferro de Benguela, desde o reinício da circulação, em Agosto de 2011, até Maio último, revelou ontem o presidente do conselho de administração.

José Carlos Gomes disse que os benefícios do comboio para a população do centro e leste do país são visíveis, quer na circulação de pessoas e bens da cidade para o campo e vice-versa, quer na importação de produtos pelos empresários locais, provocando a baixa dos preços dos principais produtos no mercado.

Além desta vantagem, o PCA disse que cerca de 300 postos de trabalho foram criados com a reabilitação da linha férrea, com os jovens a conseguirem o primeiro posto de trabalho nas estações e oficinas.

Com a entrega provisória, esta semana, da linha férrea ao CFB pela empresa construtora chinesa, encarregada da reabilitação da infra-estrutura, após anos de paralisação, o responsável antevê uma nova era na circulação dos comboios, com um aumento das frequências entre as cidades do Lobito e Huambo.

O presidente do Conselho de Administração do CFB garantiu que, em breve, vão ser formadas brigadas para a manutenção da via, ao longo das quatro províncias atravessadas pela linha férrea, no sentido de manter o normal funcionamento do comboio.

José Carlos Gomes anunciou que o CFB prevê a aquisição de material circulante apropriado, as chamadas Unidades Múltiplas Diesel (DMU), para rentabilizar custos e aumentar o número de frequências. “A empresa transportadora conta com 20 locomotivas novas de grande potência, que chegaram recentemente ao país e outras recuperadas, e está em curso uma encomenda de carruagens, para dar resposta às solicitações do transporte de mercadorias, a principal fonte de receitas da empresa.”

O director-geral-adjunto da empreiteira China Railway-20, Wang Zuo Ju, homenageou os trabalhadores chineses e angolanos que faleceram durante as suas actividades laborais, vítimas de minas terrestres, doenças e acidentes de trabalho. Na hora em que decorria a cerimónia de entrega provisória da linha férrea, muitos passageiros preparavam-se para embarcar no comboio 20403, que tomava o sentido ascendente, partindo do Lobito em direcção ao Moxico e Luau. Entre eles, João Marcos, que transportava peixe e sal, comprado no município do Lobito para ser revendido na cidade do Luena.

João Marcos disse que viaja há muito tempo para o Moxico e lembrou que antes da conclusão da linha férrea as viagens eram muito cansativas, uma vez que eram obrigados andar em camiões, que passavam por Malanje para atingir a região Leste do país, uma trajectória que durava semanas e com o risco de perder as mercadorias.

O viajante considera razoáveis os preços estipulados pela direcção do CFB. Entre o Huambo e o Lobito são cobrados de mil a dois mil kwanzas, dependendo da classe. Do Huambo ao Cuito, o passageiro paga de 500,00 a 1.500,00 kwanzas, enquanto do Cuito ao Moxico se paga 2.450,00 ou 4.900,00 kwanzas. A empresa ferroviária está a construir o Centro de Formação Profissional do Caminho-de-Ferro de Benguela, obra enquadrada na reforma dos Caminhos-de-Ferro de Angola, cujas obras já se encontram em fase conclusiva, faltando apenas os acabamentos e apetrechamentos.

A escola recebe alunos internos e externos de nível médio profissional, na área da gestão de logística dos transportes ferroviários, para rentabilizar o investimento feito pelo Estado na região do planalto central. O Centro de Formação Profissional do Caminho-de-Ferro de Benguela, com obras iniciadas em 2015, contempla dormitórios para os estudantes e professores, salas de aulas, bibliotecas, auditório, posto médico, laboratórios de materiais e de sinalização e sistema de simulador.

O governador provincial do Huambo, João Baptista Kussumua, considerou a linha do CFB uma obra de arte, dai ter apelado para que seja tratada de forma condigna. Baptista Kussumua destacou o esforço de todas pessoas que deram o máximo de si para a reconstrução da linha férrea ao longo do troço do CFB, onde foram necessários seis anos de intensa desminagem da via, o seu alargamento e a construção das pontes.

Honra aos sapadores

Os sapadores retiraram ao longo dos 1.344 quilómetros de linha férrea dos Caminhos-de-Ferro de Benguela um total de 12 mil engenhos explosivos não detonados, 11 mil minas antipessoais e outras 110 antitanque, 23 minas antilocomotiva e mais de 160 mil metais diversos. O governador provincial reconheceu que o trabalho de desminagem foi intensivo em todo o percurso e foram removidos os engenhos manualmente pedra a pedra, travessa a travessa, porque os meios electrónicos não podiam ser utilizados, por causa do magnetismo da linha férrea.

“Os sapadores tiveram de remover perto de dois milhões de travessas de forma manual para a segurança do comboio”, revelou João Baptista Kussumua, que reconheceu a bravura dos sapadores que desminaram o Caminho-de-Ferro de Benguela, na sua maioria jovens angolanos ligados ao Instituto Nacional de Desminagem de Angola, à Engenharia Militar das FAA e da Polícia de Guarda Fronteira, com o envolvimento de 1.300 especialistas.

“Houve baixas de vidas humanas, em razão da complexidade do trabalho e do tipo de engenhos colocados naqueles locais”. A operação custou cinco milhões de dólares aos cofres do Estado, contra os 24 milhões de dólares previstos, caso o trabalho fosse executado por outras organizações.

Fim dos trabalhos

O PCA dos CFB, Carlos Gomes, disse que a recepção provisória do troço ferroviário entre as cidades do Lobito e Huambo marca o término das obras de reabilitação e modernização, que tiveram início efectivo a 6 de Janeiro de 2008, após adjudicação da empreitada à empresa chinesa China Railway-20.

Pelas condições topográficas do terreno, nas zonas montanhosas de transição entre o litoral e o planalto e pela natureza do solo rochoso, este troço é considerado o mais difícil de toda a extensão da linha do CFB.
A empreitada repôs o tráfego de passageiros e de mercadorias ao longo de toda a extensão da linha férrea e, para a sua execução, foram implantadas várias unidades fabris de apoio, com um total de cinco pedreiras, quatro fábricas de travessas de betão e sete estaleiros.

A renovação completa consistiu na substituição do carril antigo, de 30 quilogramas por metro, por carril novo de 50 quilogramas por metro, a substituição das travessas de madeira por travessas de betão armado, e foram rectificadas as curvas para um raio mínimo de 150 metros e fez-se a rectificação da pendente de trainéis máxima para 17,5 por cento.

Foi renovado o aumento do peso por eixo, quer para as plataformas da via quer para as obras de arte, para 22 toneladas por eixo, bem como a colocação do cabo de fibra óptica para sistema de telefone programado e o emprego do sistema de encravamento e gestão semiautomático e centralizado para o comando e controlo das circulações, segundo o presidente do Conselho de Administração. do CFB.

José Carlos Gomes explicou que foram construídas 97 pontes e passagens hidráulicas, 67 estações e apeadeiros, com destaque para as do Lobito e Huambo (Jornal de Angola)

por Estácio Camassete

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