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COA anuncia soluções empresariais para atenuar crise financeira
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COA anuncia soluções empresariais para atenuar crise financeira

O Comité Olímpico Angolano (COA) de hoje já não será o do passado. Para dar resposta à crise económica, vai evoluir para acções empresariais como uma das grandes iniciativas para a Olimpíada 2016-2020. Este desafio a que se propõe o reconduzido presidente, Gustavo Conceição, que reitera o mérito desportivo para chegar aos Jogos do Japão2020, é o “tronco” desta entrevista exclusiva à Angop, após a sua posse, a 23 de Junho, para o quarto mandato.

O futuro do desporto nacional também mereceu importante projecção deste ex-craque do basquetebol e actual deputado à Assembleia Nacional, bem como o primeiro angolano a dirigir a maior organização do olimpismo no continente (ACNOA).

Angop – Senhor presidente, parabéns pela sua recondução ao cargo e sucessos nesta olimpíada. O que será, para si, uma participação condigna nos Jogos do Japão2020?

GUSTAVO CONCEIÇÃO (GC) – Para uma participação condigna, temos de nos preparar bem e, quando digo preparação, não é aquele núcleo que se qualifica. A preparação é antes mesmo da qualificação. Para uma participação condigna, neste primeiro ano, devemos preparar os nossos treinadores, por exemplo, e os nossos dirigentes. No segundo ano, criar as condições infra-estruturais e começar por criar as condições de ordem logística. Ter um treinador bem formado, com experiência, que possa, nos dois últimos anos de mandato, lidar com os atletas, para lhes fazer qualificar. Isso é o que consideramos preparação condigna.

A seguir, é preciso comparar aqui outros vectores. A participação condigna para nós ainda não tem a ver com o resultado. Enquanto para um país como os Estados Unidos ou Rússia essa participação condigna tem a ver com os resultados, para nós tem a ver com a nossa própria realidade. Não podemos fazer uma participação condigna, analisando a realidade dos norte-americanos. Qual é a nossa realidade? Somos um país que fica abaixo do 10.º lugar nos Jogos Africanos. Portanto, um dado comparativo que podíamos ter era: se ficámos em 12.º nos últimos Jogos Africanos, nos Jogos Olímpicos, por exemplo, devemos ser a décima segunda missão africana em tamanho (número de integrantes da delegação). Se calhar, não somos, somos a segunda ou a terceira em tamanho, porque, apesar de não ter conseguido as medalhas do Quénia, qualificámos duas modalidades colectivas, e o Quénia só leva gente em atletismo.

Angop – Mas, os Jogos Olímpicos são marcas ou participação?

GC – É tudo isso. Não são apenas as medalhas de ouro. Para quem não pode chegar às medalhas de ouro tem de ter outros objectivos. E nós definimos os nossos próprios objectivos, que são ultrapassar, por exemplo, a marca de 35 integrantes na missão olímpica. Quer dizer, procurar que duas modalidades colectivas estejam nos Jogos, agregadas a um conjunto de modalidades individuais que possam ultrapassar o global de 35 atletas.

Angop – Já para Japão2020?

GC – Claro! São estas as nossas metas. As nossas participações condignas têm de responder a isso. Para nós, em termos filosóficos, há uma questão que é fulcral: só levamos aos Jogos Olímpicos quem se qualifica.

Angop – Já foi assim no Rio2016…

GC – Sim. Só quem se qualifica. Nós não levamos aos Jogos de borla. Agora, há gente que se qualifica pelo mérito, há quem se qualifique pelo reconhecimento internacional e há os que se qualificam pela universalidade. Mas, é preciso que as pessoas compreendam que, mesmo para o atletismo e natação, não vai o sobrinho, o filho ou o amigo do senhor Gustavo Conceição, vão atletas que tenham estado numa grande competição anterior, no campeonato do mundo anterior, porque os Jogos Olímpicos são depois do campeonato do mundo e que tenham feito uma marca. E é assim que a respectiva federação internacional te convida para ir a esta competição. Portanto, há aqui um critério de valor também. Não é o critério da medalha, nem dos tempos e das marcas, mas é um critério de valor.

Volto ao início: Não podemos avaliar o nosso desporto com critérios americanos, russos ou chineses, tem que ser com critérios angolanos, senão vamos dizer assim: nos recursos humanos, materiais e financeiros, comparem-nos também com estes países. Eles já começaram a preparar os Jogos de Tóquio há mais de 20 anos, mas estamos agora a pensar e a fazer contas. Portanto, a realidade é esta. Não podemos avaliar a nossa realidade com base na realidade estrangeira.

Angop – Há uma questão incontornável, que é a financeira. Já o foi nos Jogos do Rio2016. De que forma o COA pensa em superá-la?

GC – Há muitas ideias. Algumas já estão até em execução. O COA tem um programa de marketing, mas ainda não funciona bem. Temos um programa de rádio que faz propaganda aos nossos patrocinadores, ainda não é o melhor. Estamos ainda num processo de aprendizagem e de correcção. Vamos tentar reactivar o nosso espaço na televisão, para que os nossos patrocinadores se possam sentir mais satisfeitos.

Angop – Acredita que, desta forma, poderão ter desafogo financeiro e aliviar a total dependência do Estado?

GC – Desta forma, poderemos ter as fontes de financiamento diversificadas. Quer dizer que não estamos a contar só com o Orçamento Geral do Estado, pois, se falha, nos abala. Vamos contar com isso, com os patrocinadores e com os nossos próprios investimentos. O COA está a pensar em fazer investimentos no Projecto Olimpáfrica, que consistirá em infra-estruturas desportivas – pavilhões, campo de futebol, pista de atletismo, piscina, entre outras.

Angop – Para quando estes projectos?

GC – É para esta olimpíada. Esperemos que se consiga fazer isso nos primeiros dois anos. Se o conseguirmos, teremos dois anos para utilizar e preparar. No projecto Olimpáfrica, temos previsto um colégio, que é uma fonte de financiamento, embora pequenino. Há cidadãos e empresas que têm tido muito sucesso financeiro a fazer colégios. Por que o COA não poderá tê-lo? Vamos experimentar. Temos membros do COA que possuem qualificações em termos de educação, têm experiência como professores de escolas médias e universitárias. Temos membros que trabalham na educação. Portanto, temos gente com experiência.

Angop – Para quando o início deste empreendimento?

GC – Imediatamente.

Angop – E quando começa a render?

GC – O projecto tem de se pagar a si próprio. O estudo de viabilidade dá a indicação de que ele começa por dar rendimento ao COA, depois de o mesmo se pagar a si próprio. Esperamos que seja em 2022. Mas, a partir de 2018, já teremos o “break down” feito. Quer dizer, se tudo correr com normalidade – e só estou a falar com base no estudo de viabilidade económica que desenvolvemos – a partir de 2018, temos, praticamente, o nosso empréstimo pago. São questões que temos de continuar a avaliar e a acreditar, bem como tomar medidas para solucionar. Temos de procurar soluções.

Angop – Pesidente, é comum ouvir-se que a primeira medalha de Angola viria pelo mar, mas foi anunciado, com tristeza, que os desportos náuticos ficaram de fora dos Jogos Olímpicos?

GC – Não ficaram ainda de fora desta olimpíada, ficaram fora deste processo que agora conhece a sua fase final (com o empossamento da Direcção do Comité Olímpico Angolano), mas não estão fora. O processo da legalização das modalidades continua.

Angop – Isso serve para todas as modalidades excluídas, apesar de haver diferenças nas razões da ausência?

GC – Todas. Para efeito de reintegração no Comité Olímpico, não há diferença. Logo que cada uma delas resolva o problema que lhes impede hoje de participar no Comité Olímpico, elas vão participar. E o que as impede? Os desportos náuticos, por exemplo, é a incapacidade de superarem o empate técnico que têm tido nas eleições. Já vão na segunda ou terceira volta, e as duas listas concorrentes empatam sempre.

Enquanto aí há esse problema do empate técnico, noutras modalidades há outros: a forma como se organizaram as eleições, das liberdades e garantias que esses processos eleitorais deviam dar aos interessados e que nem sempre esteve garantido. Logo, há problemas diferentes para modalidades diferentes.

Angop – Mas, para já não estão fora?

GC – Nenhuma delas está fora do COA no ciclo olímpico. Agora, passou-lhes o tempo desta eleição. Quando resolverem os seus problemas, ficarão com o direito de nos apresentar o seu representante e vai ser aceite com naturalidade. Só que não pode aceitar, por exemplo, os seus candidatos para esta eleição obviamente, porque já está feita.

Angop – O caso particular do judo que, por via da Faia, deu muita visibilidade ao país…

GC – O judo não está fora. A eleição não foi correcta. Chegou-se à conclusão de que houve problemas. O que se vai fazer é resolvê-los. Vai fazer-se um pleito justo e livre, aceite por todos e do resultado sairá uma direcção que aceitaremos se as eleições forem correctas e depois reintegrá-los naquilo que for reintegrável. Quer dizer que os seus representantes serão aceites, mas os outros não. A nossa eleição está a ser feita agora, porém as eleições nas federações deviam ser concluídas no fim do ano passado. Estamos a fazer um ano depois. Toda a gente teve tempo mais que suficiente para fazer e refazer as suas eleições de acordo com a lei e as regras.

Angop – Uma pergunta pessoal ao líder do olimpismo: o que neste mandato o presidente traz de novo para o COA? Parece haver neste elenco uma lista mais diversificada, maior inclusão. Que comentário faz?

GC – Em relação ao segundo assunto, a inclusão é uma matriz do Comité Olímpico. Temos no COA representantes dos desportos olímpicos, dos desportos não-olímpicos, das associações e das organizações reconhecidas pelo COA, pela sua actividade desportiva, cultural, entre outras. Temos esta realidade. A nossa capacidade de integrar é enorme e uma instituição desta natureza é isso mesmo. Tem de ter essa capacidade de integrar. Estamos satisfeitos por ter aqui todas as estruturas do sistema desportivo, temos aqui representantes de toda a gente e estamos contentes por termos um tamanho desses. Somos, neste momento, 101 membros. Antes éramos 99. Queremos subir mais um bocado. Esperamos que a AIDA (Associação de Imprensa Desportiva de Angola) se reorganize e seja reintegrada. Temos de nos preocupar com a AIDA, porque queremos que a participação dos jornalistas desportivos nacionais nos Jogos Olímpicos seja feita de forma diferente.

Angop – Também está preocupado com a cobertura jornalística do movimento olímpico?

GC – O nosso sistema desportivo integra toda a gente, os jornalistas desportivos também.

Angop – O quê que a imprensa desportiva pode contar da parte do COA?

GC – Tudo, se estiver organizada e estruturada. Quero lembrar que a constituição da AIDA foi apadrinhada pelo COA. Estamos disponíveis para apadrinhá-la novamente. O que queremos é que o jornalista desportivo seja reconhecido pela sua especialização, aqui em Angola, e a nível internacional. Queremos que as nossas relações com a AIPS proporcionem aos jornalistas desportivos acesso fácil às grandes competições, reconhecimento internacional, formação e oportunidades de partilha de informação e trabalhar em rede comum. Queremos que a imprensa desportiva faça isso. A AIDA é, para nós, um elemento fulcral. Estamos aqui para trabalhar com eles neste aspecto.

Angop – E em relação à primeira questão…?

GC – Em relação à primeira pergunta: o que trazemos de novo? Trazemos de novo, sobretudo, uma visão da transformação. O COA de hoje já não será igual. Repare que até agora não teve experiência de gestão de infra-estruturas desportivas, nem experiência de gestão de investimentos, não fez grande investimento que teve que o gerir para pagar a banca, que teve que o contabilizar. Por conseguinte, há um conjunto de experiências e de valências que se trazem neste mandato. Temos de preparar a nossa para gerir infra-estruturas desportivas, porque temos agora o Olimpáfrica e a perspectiva de o termos operacional é muito grande. O COA nunca geriu outras entradas de dinheiro, hoje vai investir numa escola primária e vai ter, mensalmente, movimentos de dinheiro. Precisa de se reestruturar, o seu secretariado precisa de estar pronto para dar respostas. Então, é isso que trazemos de novo. Trazemos de novo os desafios da mudança que o COA vai operar, ao passar de uma organização olímpica e desportiva, para uma organização olímpica e desportiva que gere infra-estruturas e que gere programas de desenvolvimento com as federações, visto que o que vamos ter ali são infra-estruturas, designadamente, campos de futebol, pavilhões, áreas para os desportos individuais, para os desportos náuticos. Vamos ter um conjunto de alunos, um ATL que vai funcionar para apoiar a escola e vai apoiar, enfim, clubes ou instituições interessadas a fazer estágios, treinos, preparação. O COA nunca geriu isso. A sua experiência nunca se alargou tanto. O que trazemos de novo é, também, uma visão para catapultar o COA de hoje, que existiu até este mandato e o COA que queremos projectar para o futuro, mesmo se nós já não estivermos na sua gestão para o futuro.

Angop – Em relação ao Olimpáfrica, depois de muitos anos parece que, finalmente, vai haver algo concreto. Pode dar detalhes do que terão ali e em termos de orçamento e fontes de financiamentos? Por que não avançou até agora? Inicialmente foi um patrocínio da Solidariedade Olímpica, mas parece que há algo mais.

GC – Há mais do que isso. Vamos ter o suporte da Solidariedade Olímpica, vamos ter o apoio do Governo, pelo menos está prometido, para o arrelvamento do campo e para um dos pavilhões. Está prometido o apoio da pista de atletismo em tartan. O presidente do Comité Olímpico Internacional esteve no país a 12 de Maio, prometeu-nos que iria, por via da IAAF e da FIFA, resolver este problema das instalações. O COA também, com os seus meios, com a ajuda dos seus patrocinadores e com a ajuda dos futuros patrocinadores, uma vez que vamos abrir campanhas para novos patrocinadores…

Angop – O muro defronte à sede do COA vai aumentar as marcas?

GC – Não é só aquele. E o outro muro que está em Viana é maior. Com esta experiência deste muro, não alargamos a experiência e não aproveitamos os muros de Viana? Vamos aproveitar, trabalhar mais, vamos contactar mais empresas, alargar o leque de patrocinadores; vamos procurar que haja outro tipo de soluções. Contamos com o COI, por um lado, e com o Minjud, por outro. As federações envolvidas, que terão lá instalações, vão falar com as suas congéneres para resolverem também problemas. E estamos a contar com os nossos próprios meios. Estamos a trabalhar com a banca, para ver um empréstimo bancário, a fim de resolvermos o problema. O COA nunca geriu isso. Trata-se de uma experiência nova.

Angop – Em quanto ficará orçado este projecto, incluindo ou não a sede, a qual foi anunciada que passaria para o espaço do Olimpáfrica?

GC – A sede vai ser a última coisa a ser feita. Neste momento, vamos fazer a escola, visto que são as prioridades. A escola terá 12 salas evolutivas, que poderão passar para 24. Neste momento, vamos arrancar com 12 e trabalhar para aumentá-las.

Angop – Este projecto pode entrar em funcionamento a partir de 2018?

GC – Sim, é isso que nós queremos, isto é, nos dois primeiros anos do nosso mandato. Estamos a falar em 2018. Se você falar em 2018, no dia 1 de Janeiro, é uma coisa. Se eu falar em 2018, no dia 31 de Dezembro, é outra. Não sei se está de acordo comigo.

Angop – Perfeitamente. Acabaram de tomar posse agora…

GC – Para evitar o risco dessa incompreensão, estou a dizer que, no segundo ano de mandato, queremos ter pelo menos a escola pronta para começarmos com as aulas e com os rendimentos que daí advêm. Depois teremos as áreas desportivas, que vão funcionar com aulas de educação física para a escola e como ATL para aquela escola e para outras escolas ali da região e para outras pessoas. Se o seu filho estuda de manhã e de tarde fica em casa, pode ir para o Olimpáfrica. Vai haver lá um treinador, um campo. Vai dar uma contribuição. Aquilo vai funcionar como funcionam os colégios, escolas e universidades.

Angop – Os clubes poderão usar as instalações desportivas?

GC – Todos podem, sim. Os clubes, os moradores da área, entre outros. Se a pessoa quiser fazer a sua manutenção, vai ao Olimpáfrica, paga a sua contribuição, vai à sala de musculação e vai-se embora para casa. Quer nadar também um bocado, pague a sua contribuição e vá nadar.

Angop – Qual a dimensão da piscina?

GC – Será uma piscina de 25 metros. Há o campo de futebol, e temos três pavilhões: um para desportos colectivos de salão, outro para desportos individuais, particularmente os de luta, e um terceiro que vai apoiar os desportos náuticos, que vai apoiar a área da piscina. Mas também temos aí espaço onde queremos desenvolver a esgrima e a ginástica. Temos, portanto, este desafio. A sede é a última fase. Neste momento, não estamos preocupados com a sede, mas, sim, com as instalações desportivas que funcionarão como ATL, e a escola, porque o nosso interesse é que o Olimpáfrica comece o mais cedo possível. Naturalmente, nestes pavilhões, vamos ter umas lojas para alugar.

Angop – Não disse quanto isso vai custar ou prefere não revelar esta informação?

GC – Não, não temos nenhum complexo em relação a estas matérias. Já revelámos e podemos fazê-lo novamente. Aquilo que temos de autorização da comissão-executiva é que o nosso pedido à banca possa ser até dois milhões de dólares.

Angop – Este montante não cobre, na totalidade, o projecto que acaba de apresentar?

GC – Não cobre todo. Por isso, fomos ao Minjud fazer uma parte e ao COI fazer outra. E ainda conto com as federações. E conto que é por isso que se pôs na escola. Este primeiro investimento pode ter retorno rapidamente, e isso vai permitir que nos engajemos noutro investimento ou vai permitir que este retorno continue a crescer paulatinamente no projecto.

Angop – O que os técnicos dizem quanto ao orçamento global do projecto?

GC – Para nós, são dois milhões. O meu acordo com o Ministério é eles dizerem-me: para fazer o pavilhão precisamos de uma área de 100X100, e eu indico o espaço. Eu não questiono sobre valores nem outros pormenores afins. Estas contas a mim não interessam. O que me interessa é que esteja lá a infra-estrutura. De igual modo, não pergunto ao CIO pelo valor da pista de atletismo. Eu pedi e CIO prometeu falar com a IAAF, para pôr aqui uma pista de atletismo.

Angop – E o relvado?

GC – O relvado é com o Minjud, mas temos uma alternativa, que é a FIFA, que tem um programa que ajuda os países a relvar campos. Estamos a chegar à FIFA não pela nossa federação de futebol – é importante que a FAF esteja envolvida – mas estamos a chegar à FIFA pelo presidente do CIO, é ele que vai falar com a FIFA e com a IAAF, o que nos dá maior garantia de que as coisas sejam efectivadas. Por altura da sua visita a Angola, o presidente do CIO disse-nos que iria falar com estas entidades, para que se resolvesse o campo de futebol e a pista de atletismo. Ora, para o campo de futebol, temos a promessa do Minjud. Se não se concretizar até à da FIFA, depois vamos pedir ao Ministério para redireccionar, em vez de ser em campo de futebol, poderá ser em paisagismo, vedação ou iluminação. Há muitas coisas para fazer no Olimpáfrica.

Angop – Já pode avançar cronograma de execução destes projectos em relação à parte de terceiros?

GC – A parte de terceiros depende de terceiros, não depende de nós. Aquilo que posso dizer é que o presidente do COI já me disse que já começaram as iniciativas. Já nos escreveu a pedir alguns dados suplementares para a negociação com a FIFA e IAAF. Não posso dizer datas, pois não depende de mim. No que depende de mim, posso dizer datas. E elas são a escola, algumas das áreas desportivas. O que posso dizer é que, nos dois primeiros anos de mandato, vai estar a funcionar um dos pavilhões individuais, a área da piscina e a escola. Isso, o COA vai fazer nesse período a que me referi, com financiamento próprio. Vamos à banca e vamos resolver o nosso problema. É esse o nosso desafio.

Angop – Para terminar, podia fazer uma avaliação do estado actual do desporto angolano, na qualidade de ex-praticante de alto nível e presidente do COA, pois que é importante para a vida do Comité Olímpico?

GC – É importante porque é a partir dessa avaliação que trabalhamos e buscamos os nossos indicadores para melhorar o sistema. O desporto nacional está numa fase que eu considero de transição, muito importante. Numa fase de transição, visto que o contexto vai obrigar o desporto nacional a contar cada vez menos com a disponibilidade. Portanto, temos que nos virar, é o termo. Para tal, temos o marketing, temos as iniciativas. Mas temos de nos potencializar desde já. Estamos a olhar demasiado para a dimensão competitiva do desporto, mas o desporto tem outras componentes, para as quais é preciso olhar. Temos de estar preparados para o futuro. Os dirigentes, os atletas, os técnicos têm de estar voltados para o futuro. Não podem estar com uma postura de mão estendida em relação ao Orçamento Geral do Estado. E digo isso para clubes, sobretudo os da primeira divisão. Temos de rever tudo isso, para perceber se este é o bom caminho para continuar ou se temos de rever algumas formas de competição. Há umas reflexões que dizem respeito à regionalização de algumas provas. Cada um começa o seu caminho. O que é importante é começarmos a reflexão sobre o futuro e potencializarmo-nos para essa independência em relação ao OGE.

Angop – O que quer dizer com a expressão ‘potencializarmo-nos para essa independência’?

GC – Potencializarmo-nos quer dizer formarmo-nos todos. Sabermos o que é isso de marketing, de comunicação, de técnica de vendas, aprendermos soluções para a falta de dinheiro que virá, seguramente, dos cortes orçamentais que se prognosticam. O preço do petróleo não sobe. Não vale a pena pensar que vamos voltar a orçamentos grandes. Por conseguinte, temos de potencializar as pessoas que dirigem hoje o desporto, que estão nas associações e nos clubes, para que possam responder por esta necessidade do futuro, porque o futuro vai determinar isso.

Angop – E se não ocorrer isso, como será o desporto?

GC – Se não houver isso, ou o desporto se desequilibra e pode desmoronar e em algumas áreas de uma maneira irreversível. Ou então, temos de ter soluções. Porque é assim: o país precisa de crescer e as empresas hão-de vir. Agora, tem de se saber dialogar com as empresas, o desporto tem de se saber vender; o espectáculo desportivo deve ser mais valorizado; as entradas e as bilheteiras têm de estar mais organizadas. Nós temos de nos relacionar melhor e de forma especialmente mais positiva com as televisões. Portanto, há muitas coisas há fazer.

Angop – Mas terá sempre a ver com a qualidade do produto que se oferece?

GC – Claro! Temos de nos preocupar com tudo isso. Com a qualidade do produto, dos serviços, com a qualidade da nossa preparação, com a nossa formação, para termos mais qualidade. Temos de nos preocupar com isso. É por isso que digo que temos de nos preparar para essa mudança, dado que, se continuarmos com a filosofia e a política da “mão estendida”, não vamos a lado nenhum, porque, quando não houver nada para cair na mão, o que fazemos? Desistimos das provas, fechamos as portas. A questão não é essa, é, sim, manter as portas abertas e ter iniciativa, ter criatividade e ter ideias para encontrar as soluções. E é assim que temos de estar. Não é dizer: não há dinheiro, fecha a porta e vamos embora. Se os gestores desportivos de futuro forem assim, então o desporto vai morrer. Os gestores desportivos de futuro devem olhar para este mar de dificuldades e dizer assim: está aqui uma saída, está aqui uma solução.

Angop – A Federação Angolana de Andebol será um dos bons exemplos do caminho a seguir em relação ao que acaba de referir?

GC – Muitos dão sinais positivos, uns dão sinais mais visíveis, outros menos visíveis. Eu não posso falar, porque, enfim, não estou, neste momento, com dados naquilo que se passa em todo o universo e, na minha responsabilidade, não posso especular sobre algumas matérias. Agora, o que lhe digo é que há essa necessidade. Há necessidade do sistema desportivo – não estou a falar do andebol ou atletismo ou outro – o sistema desportivo de se reorganizar, olhar para o seu interior e dizer: temos aqui estes problemas. Que reflexões, soluções? e depois andarmos para frente.

Angop – Para além desta interessante abordagem, o COA terá alguma coisa mais a dar como contribuição?

GC – Temos muitas coisas mais no sentido que apontámos. Para já, vamos dar seminário no início do mandato aos membros do COA e das federações nacionais. Vamos ensinar, por exemplo, como se aproveitam os recursos da SO. Vamos ensinar que programas há, que apoios há e para que efeito são esses apoios, vamos alertar as federações nacionais que as suas próprias federações internacionais têm outros programas que precisam de ser aproveitados e que não são. Todas as federações internacionais têm programas de formação de treinadores, bolsas para atletas, de formação de dirigentes. Temos de maximizar o aproveitamento das oportunidades internacionais, esquecer que há a mão estendida aqui ao sistema nacional.

Angop – O projecto Olimpáfrica, em termos de infra-estruturas, também pode ser uma boa forma de contribuir para o sistema desportivo.

GC – Também pode ser, claro. Por isso, estamos a trabalhar. A nossa visão é precisamente essa. Vamos procurar partilhar com as federações, particularmente as novas, um conjunto de ideias. Explicar o que é isso de movimento olímpico, como o sistema desportivo mundial funciona, que oportunidades há. Portanto, vamos discutir sobre isso muito brevemente, para que fiquemos todos com os instrumentos que permitam gerir melhor as nossas federações com menos recurso ao dinheiro do Estado e as oportunidades que o Estado nos dá. Até agora, olhámos para as oportunidades do Estado. O que estamos a dizer é que vamos olhar mais para as oportunidades que o sistema desportivo mundial e a nossa criatividade vão permitir. (ANGOP)

por Pedro da Ressurreição

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