Analistas divergem sobre abstenção

Eleições gerais angolanas, em 2012 (AP)

As eleições gerais de 2012 registaram um índice de abstenção acima dos 40%. Analistas políticos apresentam diferentes pontos de vista sobre a questão numa altura em que o país encaminha-se para o pleito eleitoral de 23 de Agosto, vaticinando, por um lado, a diminuição deste índice e por outro, o aumento.

A fase de campanha eleitoral para as eleições gerais de 23 de Agosto abriu oficialmente ontem. Os concorrentes ao pleito aplicam-se a fundo na perspectiva de convencerem os eleitores a votar nos seus projectos de governo. Entretanto, uma questão, embora não muito debatida, preocupa as autoridades em geral: o abstencionismo. Nas eleições gerais de 2012 , o índice de abstenção rondou os 40%, e no seio da sociedade alimentam- se receios de que a cifra possa manter-se ou crescer este ano.

Foram habilitados para o voto na fase de actualização do Registo eleitoral, mais de nove milhões de cidadãos dos quais dois milhões e 600 mil de novos registos. Analistas políticos ouvidos pelo O PAÍS apresentam pareceres diferentes quanto a questão. Augusto Báfua Báfua disse acreditar que o índice de abstenção será menor este ano tendo em conta o actual cenário político caracterizado pela mudança de candidato a Presidente da República pelo MPLA e a saída de cena do actual Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos. “As pessoas não acreditavam em mudança. Acreditavam que o seu voto não fazia diferença e que era mais do mesmo.

Contudo, com a apresentação de um novo candidato pelo MPLA que não o Presidente dos Santos, a coisa muda. As pessoas vão querer ser ouvidas, vão ter uma palavra a dizer, depositar o seu voto na esperança de escolher o novo Chefe de Estado”, frisou. Segundo Báfua Báfua, a vasta maioria dos jovens angolanos só ouve falar de José Eduardo dos Santos mas não sabe quem ele é e muitos mesmo não se revêem nele. “Sim creio que a sua saída trás esperança e dinâmica no nosso Processo Eleitoral e que certamente os jovens estão ávidos por votar, quem não quer eleger o substituto de dos Santos seja ele quem for depois de 38 de poder?”, concluiu.

Bernardino Neto tem uma visão contrária

Por seu turno, o analista Bernardino Neto acredita que o problema não está no actual cenário eleitoral mas vem de muito antes e é necessário responder a várias perguntas. “Que Angola nós queremos para os jovens que vem do mundo rural para as cidades? Que Angola nós queremos para os jovens que estão no mercado informal? Que Angola nós queremos para os jovens que estão marginalizados que não encontram uma inclusão social?”, questionou, acrescentando que somente após encontrarem- se respostas realistas a estas questões conseguir-se-á mobilizar e envolver a sociedade.

“Fora disso vamos notar uma fragmentação com duas espécies de angolanos. Um com todas as condições e outro, que é a grande maioria, no tecto das necessidades que é a grande maioria”, frisou. Outra questão refere-se a consciência social, que para si, em Angola é caracterizada por um cenário em que tudo vale “e eu apenas dou o meu sentido de servir a minha colaboração se a volta disso eu obtiver algum lucro”. “E podemos mesmo verificar nas ruas onde nós estacionamos os nossos carros até para lhe ser permitido encostar o teu carro tens de dar alguma coisa. Esta consciência social fragmenta o sentido de participação do cidadão”, exemplificou. Por outro lado, considera que os actores e as forças que tinham de mobilizar o cenário político sobretudo os partidos olham muito para a condição da cor partidária, resultando na falta de interacção. “Por exemplo ao longo destes comícios quantos cidadãos foram ouvidos?

Os cidadãos foram chamados apenas para ouvir a mensagem do difusor, do político. E mesmo naqueles casos que foram muito limitados de ouvir os cidadãos o que aconteceu? Foi preciso usar um intermediário”, frisou. Para si, a falta desta interacção também é um elemento que mobiliza pouco para a participação neste exercício de democracia. “Mesmo nas nossas casas nós não precisamos de intermediários para falar com o pai ou a mãe”, rematou. A esta situação acresce-se, a seu ver, o facto de se viver numa sociedade em que Estado é mais valorizado do que o cidadão e em que a imprensa, nalguns casos, defende a apresentação da verdade mas o resultado final é meias verdades. “Estes elementos todos conjugados vão depois apresentar-se como elementos que vem fragmentar uma visão de sociedade. Então esses cenários se não forem apresentados de forma realistas com actores que tenham uma visão de olhar para estas questões com profundidade logicamente vamos ficar descrentes do processo pois os elementos de participação é muito limitativo”, sublinhou.

Neste contexto, considerou ser necessário trabalhar-se com o envolvimento das autoridades governamentais, religiosas, tradicionais e da sociedade civil, para que a sociedade assuma a chamada ética pública, o civismo comportamental onde as pessoas não ficam apenas ao serviço do Estado mas sejam elas autores dos seus próprios destinos. “Aqui não. Nós valemos apenas quando estamos ao serviço do Estado”. “Esses sectores precisam de ressaltar esses elementos para passarmos para uma sociedade de comportamento e ética pública. Se isso não for resolvido, vamos olhar sempre para um cenário de fragmentação, de partidocracia e o sentido de participação há de ser muito, muito baixo”, frisou. (O País)

por José Dias

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